Um grupo com aproximadamente 200 turistas ficou isolado no alto do morro Dois Irmãos, no Vidigal, Zona Sul do Rio de Janeiro, por causa de uma operação policial que tentava capturar os traficantes Ednaldo Pereira Souza, o Dada, e Wallas Souza Soares, o Patola. Houve intenso tiroteio entre os agentes e integrantes do Comando Vermelho (CV), facção que controla a região. Isso fez com que os visitantes, que eram de várias nacionalidades, fossem impedidos de descer. Refugiaram-se no alto do morro, local em que, teoricamente, estavam a salvo.
A Operação Duas Rosas II, que reuniu policiais fluminenses, baianos e o Ministério Público da Bahia (MP-BA), foi desencadeada para localizar e prender 13 detentos foragidos do Conjunto Penal de Eunápolis (BA), em dezembro de 2024. Eles teriam se refugiado em favelas cariocas sob a proteção do CV. Os faccionados pertencem ao grupo Primeiro Comando de Eunápolis (PCE), que atua no extremo sul da Bahia e é coligado ao CV.
Na incursão, foi presa Núbia Santos Oliveira, mulher de Patola, apontada como uma das principais operadoras financeiras do PCE. Ela é investigada por lavagem de dinheiro e tinha dois mandados de prisão em aberto por tráfico de drogas e homicídio. Os agentes prenderam outros dois homens, além de armas e drogas. Dada conseguiu fugir por uma passagem secreta.
Devido à operação, a Avenida Niemeyer — que liga os bairros São Conrado e Leblon — teve a circulação interrompida pelos criminosos, que atravessaram um ônibus e lixeiras. Os turistas somente puderam descer por volta das 7h20, quando a situação estava controlada.
A portuguesa Matilda Oliveira estava no grupo no alto do morro. Ela frisou que a orientação dos guias foi fundamental para que todos estivessem seguros, apesar da tensão. "Tínhamos esperado o nascer do sol. De repente, os guias pediram para sentarmos e começamos a ouvir os tiros. É sempre assustador, mas estava controlado dentro do possível", disse, acrescentando que voltaria a fazer o passeio. "Repetiria a experiência. Não deixo de recomendar a trilha, a comunidade ou o Brasil", afirmou.
Já a paulista Sthefanny Andrade disse ter ficado muito assustada. "A trilha é conhecida e tranquila de subir. Fomos para ver o amanhecer, mas, quando nos preparávamos para descer, começamos a ouvir tiros e helicópteros. Um guia avisou que havia uma operação e pediu para ninguém descer. Mandou todo mundo ficar sentado", relatou.
Os bandidos que a Operação Duas Rosas II tentou prender fugiram em 12 de dezembro de 2024. Naquele dia, um grupo fortemente armado invadiu o Conjunto Penal de Eunápolis para libertar Dada, chefe do PCE. Apesar da resistência dos agentes, os criminosos conseguiram abrir duas celas e, ao todo, 16 pessoas escaparam.
Fuga comprada
Segundo o MP-BA, Dada negociou a fuga com o ex-deputado federal Uldurico Júnior, preso em 17 de abril na Praia do Forte, distrito turístico de Mata de São João, na Região Metropolitana de Salvador. O traficante teria pago R$ 2 milhões ao político para que a escapada fosse facilitada. O Ministério Público baiano pediu a prisão dos dois.
A saída foi facilitada pela então diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, presa e que fez um acordo de delação premiada com o MP-BA. Ela confessou que tivera um relacionamento amoroso com Uldorico Júnior e fora convencida a apresentá-lo ao traficante. Ele precisava de dinheiro para pagar dívidas da campanha que disputou (e perdeu) para a Prefeitura de Teixeira de Freitas.
Procurada, a defesa de Uldorico Júnior afirmou que ele "jamais teve conhecimento de plano algum de fuga, nem recebeu dinheiro nenhum por tal fato, o que pode ser facilmente comprovado. Tanto a defesa quanto o acusado estão colaborando com a Justiça para que a verdade prevaleça".
*Estagiário sob a supervisão de Fabio Grecchi
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