
O decano do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, esta semana declarou que a crise é geral, não apenas do Supremo. É verdade. Mas, ao estar no Supremo, derrama-se pelo Judiciário, até chegar às pequenas causas. E quando alguém escreve "ladrão" numa faixa e a Polícia Federal deduz que se refere ao presidente da República — ou um deputado pronuncia "ladrão" e um general entende que se refere ao seu comandante supremo —, então a crise também está no Poder Executivo e na área militar. Quando o tesoureiro de campanha do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), é investigado por dinheiro da previdência do Amapá posto no Master, ou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Repubicanos-PB), vai com o jatinho do "tigrinho" para paraíso fiscal e de jogatina no Caribe, então a crise também está no Legislativo.
Crise nos Três Poderes e no dito quarto poder, o jornalismo. Certamente a dosimetria vai discutir os absurdos de penas de gente condenada por atacado, sem individualização dos crimes, sem juiz natural, com prisão por perfídia. Vão aparecer sinais gritantes de injustiça, como o caso do senhor Hahn, condenado a 14 anos por doar R$ 500 para fretar ônibus a Brasília, tal como a Débora do batom, por associação criminosa armada para derrubar o Estado de Direito — como se batom fosse arma — e dano qualificado e deterioração de patrimônio tombado, sem que tivesse prejudicado uma única molécula do granito da deusa da Justiça. Então, nós, do "quarto poder", vamos perceber que em boa parte ficamos em silêncio diante do arbítrio, da injustiça, do exagero, do inconstitucional, do juízo de exceção proibido pelo inciso XXXVII do pétreo artigo 5º da Constituição — e vamos perceber que também estamos em profunda crise nos valores jornalísticos.
Esses quatro poderes não estão sós da crise. O brasileiro que se adapta à exceção, que não percebe que em democracia precisa fiscalizar, criticar, cobrar e votar bem, também está em crise de cidadania — e essa gera todas as demais, porque permite, na sua alienação, que usem seus poderes e o fruto de seu trabalho para se comportar indecorosamente, desrespeitar as leis, agir como se não existissem "213 milhões de pequenos tiranos" a aspirar respeito aos impostos que são obrigados a pagar, aos votos que são obrigados a registrar nas urnas — agora infantilizadas por esse boneco porta-voz "Pilili", como se votar fosse brincadeira. Se está errado assim, e por isso estamos atrasados, carentes de segurança física e jurídica, já não seria hora de dar um reset neste país?
O leitor pode julgar utópica essa sugestão. Temos superabundância de riqueza natural, o que torna até pecaminoso o nosso imobilismo. Mas, com a cultura do deixa estar, só numa epifania nacional. Uma redescoberta de nós mesmos, de nossos lares, de nossas escolas, de nossas instituições. Da meritocracia, do livre-mercado, das liberdades, da iniciativa privada, do direito de propriedade, do respeito à lei e à ética.
Gilmar Mendes identifica a crise geral. Teria ele ideia de por onde começar a trocar crise por paz, bem-estar, estabilidade, fartura? Penso que se precisa começar pela menor das minorias: o indivíduo. Cada um se perguntando o que poderia fazer para melhorar a própria vida. O coletivo disso poderia ser o reinício. Uma nova descoberta. Novos Cabrais avistando a nova e rica terra.
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