
A Frente Parlamentar Mista Ambientalista (FPMA) publicou nota nesta quinta-feira (14/5) manifestando "preocupação formal" com o convite institucional feito pela Câmara dos Deputados ao cientista político dinamarquês Björn Lomborg para palestrar na conferência no Auditório Nereu Ramos. O evento, que aconteceu nesta quarta-feira (13/5), teve o título "Debates Estratégicos com Björn Lomborg: Fazendo Mais com Menos — Políticas Públicas de Alto Impacto".
O documento critica a apresentação feita pela Câmara de Lomborg como "um dos pensadores mais influentes do mundo" e "referência no pensamento econômico", sem mencionar que o pesquisador é "sistematicamente criticado por instituições científicas por construir uma narrativa que tecnicamente produz o desaconselhamento de políticas climáticas ambiciosas mundiais e brasileiras".
A conferência foi organizada pelo Centro de Estudos e Debates Estratégicos (CEDES) da Câmara dos Deputados, em parceria com a Consultoria Legislativa, como parte de uma série de três eventos. O debate girou em torno de como governos podem "fazer mais com menos", utilizando análise de custo-benefício para priorizar investimentos de maior retorno social.
No evento, Lomborg questionou se o investimento maciço em políticas climáticas é a forma mais eficaz de melhorar o bem-estar humano e argumentou que as metas de emissões zero até 2050 podem custar cerca de US$ 27 trilhões ao ano para gerar um benefício de apenas US$ 4,5 trilhões. O que, segundo ele, seria equivalente a "gastar R$ 7 para fazer R$ 1 de benefício".
Ainda segundo nota da FPMA, a frente não questiona o direito de Lomborg a ter opiniões divergentes, mas, sim, a concessão de legitimidade institucional pela Câmara a posições que "contrariam o consenso científico consolidado" sem que tenha havido contraditório técnico qualificado.
A bancada ressalta que o que distingue a obra de Lomborg do negacionismo clássico é “exatamente o que a torna mais difícil de rebater: ela opera dentro do vocabulário científico, aceita as projeções de temperatura do IPCC e usa essa adesão formal ao consenso para conferir legitimidade a uma análise econômica que, na prática, desestimula a implementação das medidas respaldadas por esse mesmo consenso”.
Histórico científico de Lomborg
A FPMA recupera na nota o histórico de contestações ao trabalho do pesquisador. Em The Skeptical Environmentalist (2001), Lomborg sustentou que as preocupações ambientais são exageradas e que os custos das políticas de proteção superam seus benefícios. Em False Alarm (2020), aprofundou a tese aplicada ao clima: admite o aquecimento global como fenômeno real, mas aplica uma metodologia que a frente descreve como "seletivamente calibrada", com pouco peso econômico atribuído aos danos climáticos futuros, desconsideração de impactos abruptos e irreversíveis e projeções de crescimento econômico estável para concluir que agir agora custa mais do que esperar.
As críticas ao método têm origem em publicações de referência. A Scientific American dedicou onze páginas ao tema em janeiro de 2002, reunindo ensaios de Stephen Schneider, John P. Holdren, John Bongaarts e Thomas Lovejoy sob o título Misleading Math about the Earth, documentando seleção tendenciosa de dados. A revista Nature publicou no mesmo ano crítica direta à obra, assinada por Stuart Pimm e Jeff Harvey, apontando falhas na representação das evidências.
Mais recentemente, o Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas da London School of Economics concluiu, em resenha de 2020, que os números centrais de False Alarm eram "desatualizados, fabricados e mal interpretados".
A Câmara dos Deputados e o CEDES não se manifestaram sobre a nota da Frente Parlamentar Mista Ambientalista até o fechamento desta reportagem.

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