Análise

Nas Entrelinhas: A intimidade como o ativo de um escândalo

As revelações sobre Castro reforçam o modus operandi do Master. Vorcaro e seus cúmplices constroem uma relação que ofeceça vantagens para ambas as partes, com grave prejuízo ao interesse público

PRI-2705-ENTRELINHAS.jpg -  (crédito: maurenilson)
PRI-2705-ENTRELINHAS.jpg - (crédito: maurenilson)

Pela segunda vez em menos de 15 dias, o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro recebe a visita da Polícia Federal (PF). Em mais uma fase da operação Compliance Zero - a oitava -, os investigadores fizeram busca e apreensão no apartamento de Castro, localizado em um condomínio de luxo na Barra da Tijuca. Dois celulares foram recolhidos pelas equipes, que pretendem aprofundar mais uma faceta do megaescândalo Master: a relação entre Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

A ação policial de ontem foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, relator do inquérito em curso sobre a maior fraude financeira ocorrida no Brasil. O despacho contém novas apurações da PF sobre os desvios cometidos contra o Rioprevidência, o Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro. A Polícia Federal identificou que o repasse do dinheiro dos aposentados ao Master foi muito superior aos R$ 970 milhões contabilizados anteriormente. Segundo a apuração policial, as transações com o Rioprevidência transferiram R$ 3,7 bilhões das economias dos aposentados ao banco.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

SIGA O CORREIO BRAZILIENSE NOGoogle Discover IconGoogle Discover SIGA O CB NOGoogle Discover IconGoogle Discover

A decisão de Mendonça não traz à luz apenas o indício de que a malversação de recursos do Rioprevidência foi muito maior do que se imaginava. O relator afirma, a partir das informações reunidas pela PF, que Castro e Vorcaro mantinham um "alinhamento político necessário" para fazer negócio com letras financeiras do Master. Segundo a Polícia Federal, a relação entre os dois protagonistas desse capítulo fluminense do escândalo nutriam "vínculo pessoal estreito". Era a partir dessa aproximação que se tramaram, afirma a PF, as manobras suspeitas com o dinheiro dos aposentados. Nos termos descritos pela investigação, havia um "sincronismo entre encontros mantidos entre ambos e os aportes financeiros subsequentes" do fundo de previdência para o caixa de Vorcaro.

As revelações trazidas ontem pela Compliance Zero reforçam o modus operandi que tem marcado o escândalo Master. Mais uma vez, mostra-se que Vorcaro e seus cúmplices construíam uma relação que ultrapassava o âmbito institucional e tinha como objetivo a obtenção de vantagens para ambas as partes, com grave prejuízo ao interesse público. Observa-se, novamente, como a intimidade é parte relevante da estratégia do banqueiro e seus escolhidos. As investigações apontam que Castro e Vorcaro se encontravam com frequência, no Brasil e no exterior, em eventos privados financiados pelo banqueiro.

Do ponto de vista político, a situação de Castro ficou ainda mais complicada. Em março, o integrante do PL renunciou ao cargo na véspera do julgamento, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que decretou a inelegibilidade do ex-governador por abuso de poder político e econômico. A renúncia foi uma manobra para evitar a perda dos direitos políticos e assim tentar uma cadeira no Senado Federal. A operação de ontem praticamente aniquilou as pretensões de Castro, que se tornou um problema grave para o PL fluminense. Reforça, ainda, o embaraço da legenda com Vorcaro, poucos dias depois de o país tomar conhecimento da relação entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro, a quem chamava de "mermão".

A cada etapa da Compliance Zero, a PF avança sobre os contatos entre o banqueiro e políticos. Castro e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foram alvos de busca e apreensão; Flávio Bolsonaro corre risco de também ser investigado em razão do financiamento para a cinebiografia Dark Horse, conforme o pedido de manifestação encaminhado ontem pelo ministro do STF Alexandre de Moraes ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. Está cada vez mais claro que o inquérito conduzido pela PF, sob relatoria de Mendonça, caminha para enquadrar gente poderosa no escândalo Master — com possíveis desdobramentos para a política do Distrito Federal.

No caso do Rio de Janeiro, as revelações podem levar a mais uma situação dramática, como alertou o adversário político e pré-candidato a deputado federal Marcelo Freixo nas redes sociais: "A conta chegou, Cláudio Castro. Até que demorou um pouco, mas a Polícia Federal, mais uma vez, está na sua casa. É a segunda vez este mês, está virando rotina. Sinal de que você, Cláudio Castro, pode cumprir mais uma vez essa triste sina recente do estado do Rio de Janeiro de mais um governador preso".

 

  • Google Discover Icon
postado em 27/05/2026 03:55
x