Antes de se tornar pré-candidato à Presidência da República e em um momento em que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ainda não havia sido condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o senador Flávio Bolsonaro (PL) apontou o senador Ciro Nogueira (PP-PI) como o nome “ideal” para ocupar a vice em uma eventual chapa encabeçada por Bolsonaro nas eleições de 2026.
A declaração foi dada em entrevista à Folha de S. Paulo, em junho de 2025, quando Flávio foi questionado sobre a possibilidade de uma candidatura presidencial do ex-presidente, que já estava inelegível por decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até 2030.
Na ocasião, Flávio afirmou que Ciro já havia demonstrado publicamente interesse em integrar a chapa e destacou atributos políticos do presidente nacional do Progressistas. “Hoje eu ouço falar que o Ciro Nogueira já publicamente manifestou essa vontade. [...] Eu acho que tem todas as credenciais para ser o Ciro”, disse.
O senador ainda citou fatores políticos e regionais para justificar a avaliação. “O perfil do Ciro é um bom perfil. É nordestino, de um partido grande e forte. Tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro durante o ministério”, afirmou.
As declarações voltaram a circular após a deflagração da 5ª fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal (PF), que teve Ciro Nogueira como alvo de mandados de busca e apreensão autorizados pelo ministro André Mendonça, do STF.
A investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo a decisão de Mendonça, Ciro aparece como o “destinatário central” de vantagens indevidas investigadas pela Polícia Federal.
O documento cita suspeitas relacionadas à atuação parlamentar do senador, pagamentos mensais, aquisição societária considerada fora dos padrões de mercado e custeio de viagens, hospedagens e despesas pessoais.
Após a operação, Flávio Bolsonaro divulgou nota em que afirmou acompanhar “com atenção” as informações divulgadas sobre o caso. “Entendemos que fatos dessa natureza devem ser apurados com rigor e transparência pelas autoridades competentes, sempre com respeito ao devido processo legal”, declarou.
O senador também disse confiar na condução do processo pelo ministro André Mendonça e afirmou esperar “uma ampla apuração”.
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Já a defesa de Ciro Nogueira repudiou “qualquer ilação de ilicitude” envolvendo a atuação do parlamentar. Em nota, os advogados afirmaram que o senador não teve participação em atividades ilícitas nem nos fatos investigados.
A defesa também criticou as medidas cautelares autorizadas pelo STF, classificando-as como “graves e invasivas” e sustentando que o uso de mensagens envolvendo terceiros como fundamento para a operação “pode se mostrar precipitado”.
Entenda as acusações contra Ciro Nogueira:
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Investigação da Polícia Federal aponta Ciro Nogueira como “destinatário central” de supostas vantagens indevidas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
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PF suspeita que Ciro apresentou no Congresso a Emenda nº 11 à PEC 65/2023 com texto produzido integralmente pela assessoria do Banco Master.
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A proposta elevava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), medida que, segundo a investigação, beneficiaria diretamente o Banco Master.
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Mensagens interceptadas indicam que Daniel Vorcaro afirmou que a emenda “saiu exatamente como mandei”.
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Investigação aponta que outros projetos de interesse privado também circulavam entre pessoas ligadas ao Banco Master e o núcleo político do senador antes de serem protocolados.
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Entre os projetos mencionados estão o PL 5.174/2023 (PATEN) e o PL 412/2022 (mercado de carbono/SBCE).
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PF afirma que minutas desses textos teriam sido retiradas da residência do senador, revisadas em escritório indicado por Vorcaro e depois reenviadas ao gabinete parlamentar.
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Outro foco da apuração envolve a compra, pela empresa CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., de 30% da Green Investimentos S.A. por R$ 1 milhão, apesar de a participação ser estimada em cerca de R$ 13 milhões.
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O ministro André Mendonça considerou a diferença entre o valor pago e o valor de mercado um indício relevante de possível vantagem econômica indevida.
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Polícia Federal identificou repasses mensais ligados à chamada “parceria BRGD/CNLF”, envolvendo empresas associadas à família Vorcaro e ao núcleo patrimonial do senador.
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Segundo a investigação, os pagamentos começaram em R$ 300 mil mensais e depois teriam subido para R$ 500 mil.
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Conversas interceptadas mostram operadores discutindo a continuidade dos pagamentos ao núcleo ligado ao senador.
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Decisão do STF também cita suposto custeio de viagens internacionais, hospedagens, restaurantes de alto padrão e uso de aeronaves privadas.
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Investigação menciona gastos em hotéis como o Park Hyatt New York.
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Documento aponta ainda a suposta disponibilização de cartão para despesas pessoais e cessão gratuita de imóvel de alto padrão pertencente a Daniel Vorcaro.
