caso master

Pai de Vorcaro era principal financiador de serviços ilícitos, diz PF

Preso pela Polícia Federal, Henrique Vorcaro sustentava dois núcleos do esquema com repasses mensais de R$ 400 mil, de acordo com as investigações

A sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nessa quinta-feira, ampliou o alcance das investigações da Polícia Federal sobre a suposta estrutura de fraudes montada pelo Daniel Vorcaro com o Banco Master. Nessa quinta-feira, a Polícia Federal prendeu, em Minas Gerais, o pai do empresário, Henrique Vorcaro, apontado nas apurações como o principal financiador e demandante de serviços ilícitos prestados por dois núcleos operacionais do esquema, conhecidos como "A Turma" e "Os Meninos". A ação dessa quinta-feira foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

A ofensiva teve como alvo, também, policiais federais da ativa e aposentados, operadores do jogo do bicho, hackers e empresários suspeitos de integrar uma organização voltada à obtenção ilegal de informações sigilosas, intimidação de adversários e monitoramento clandestino.

A estrutura criminosa era gerenciada por Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário" — que cometeu suicídio após ser preso em março —, e funcionava como uma engrenagem de proteção e ataque aos interesses da família Vorcaro.

"A Turma", liderada pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, era especializada em intimidações presenciais, coação e obtenção de dados sigilosos. Esse grupo contava com o apoio de Manoel Mendes Rodrigues, influente operador do jogo do bicho e milícias no Rio de Janeiro, que fornecia "mão de obra" para ameaças físicas, como o episódio em Angra dos Reis (em junho de 2024), onde sete homens coagiram o comandante de uma embarcação e um ex-chefe de cozinha de Daniel Vorcaro.

Paralelamente, "Os Meninos", sob o comando de David Henrique Alves, operavam no campo tecnológico com hackers dedicados a invasões telemáticas e ataques cibernéticos. A PF apurou que esse grupo conseguiu acessar ilegalmente sistemas do FBI, da Interpol e do Ministério Público Federal para monitorar o que as autoridades sabiam sobre o esquema.

Mendonça fundamentou a necessidade de prisão diante da ousadia tecnológica do grupo, afirmando ser "estarrecedora a capacidade de intrusão do grupo em bancos de dados de cooperação internacional e órgãos de cume da persecução penal brasileira".

"A atuação dos referidos hackers não visava apenas o lucro, mas a criação de uma rede de contrainteligência capaz de neutralizar a ação do Estado e garantir a impunidade dos líderes da organização", escreveu.

Conforme as investigações, Henrique Vorcaro sustentava essa estrutura com repasses mensais de R$ 400 mil, havendo registros de cobranças que chegavam a R$ 800 mil para manter as atividades mesmo após o avanço das fases ostensivas da operação da PF. O líder hacker David Henrique recebia individualmente R$ 35 mil mensais.

No campo das fraudes financeiras, a investigação detalha que o Banco Master inflava seu valor artificialmente para atrair investidores. Um dos métodos envolvia o registro de títulos antigos do Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), adquiridos por R$ 850 mil, mas declarados como valendo R$ 10 bilhões.

Além disso, o banco emitiu R$ 50 bilhões em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) sem comprovação de liquidez e teria ocultado cerca de R$ 2,2 bilhões em contas ligadas a Henrique Vorcaro em janeiro deste ano.

Parte desse fluxo financeiro também é investigado por conexões políticas: a PF analisa mensagens em que senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) cobra aportes para o filme Dark Horse, uma cinebiografia de Jair Bolsonaro. O acordo total seria de US$ 24 milhões (R$ 134 milhões), dos quais Vorcaro já teria pago R$ 61 milhões. Há ainda uma linha de apuração sobre se esses recursos financiaram despesas do deputado cassado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.

A infiltração no Estado é um dos pilares mais graves do inquérito. A polícia identificou a participação da delegada Valéria Vieira Pereira da Silva e do agente da ativa Anderson Wander da Silva Lima, que acessavam o sistema e-Pol para vazar dados de inquéritos sigilosos. Wander chegou a pedir "trabalhinhos" ao grupo e recebeu "presentes" via Pix de Marilson Roseno.

Mendonça foi incisivo ao tratar do envolvimento de servidores públicos. Segundo ele, "a cooptação de agentes da lei para servir aos propósitos de uma organização criminosa é uma afronta direta à dignidade da função pública".

"Os diálogos interceptados demonstram que o sigilo das investigações era sistematicamente violado, permitindo que os criminosos antecipassem os passos da Polícia Federal, o que exige o imediato afastamento das funções e a custódia dos envolvidos", destacou.

Banco Central

No Banco Central, a suspeita é de que servidores de alto escalão recebiam propinas de até R$ 1 milhão por mês para revisar documentos e antecipar fiscalizações favoráveis ao Banco Master. Para dificultar o rastreio, Henrique Vorcaro utilizava números telefônicos da Colômbia e agia com extrema precaução comunicacional.

A PF relatou uma tentativa desesperada de destruição de provas no início de março, data da 3ª fase da operação, quando David Henrique Alves esvaziou sua residência em Lagoa Santa, em Minas Gerais, em uma Range Rover, transportando diversos computadores e malas de forma apressada.

"O periculum libertatis (perigo da liberdade) resta sobejamente demonstrado pelas manobras de destruição de evidências e pela fuga deliberada de investigados logo após tomarem conhecimento de diligências policiais. Tais atos confirmam que, em liberdade, os representados possuem meios e vontade para seguir frustrando a instrução criminal e ocultando o proveito dos crimes", concluiu o ministro do STF sobre o risco de liberdade dos investigados.

Na decisão, Mendonça destacou que "os elementos colhidos revelam a existência de uma estrutura criminosa profissionalizada, dotada de recursos financeiros vultosos e acesso a tecnologias de ponta, dedicada a monitorar autoridades e intimidar eventuais adversários dos interesses do grupo econômico liderado pelos investigados, o que justifica a medida extrema para garantia da ordem pública".

Daniel Vorcaro está preso na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília, e negocia um acordo de delação premiada.

A defesa de Henrique Vorcaro sustenta que a prisão é uma medida "grave e desnecessária", baseada "em fatos cuja comprovação da licitude e do lastro de racionalidade econômica ainda não estão no processo, e não estão porque não foram solicitados à defesa e nem a ele".

 

 

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