Diretor do MCCE, Melillo Dinis, em avaliação enviada ao Correio, afirmou que o Congresso está promovendo três movimentos simultâneos: “Protegendo financeiramente os partidos, reduzindo o impacto das punições eleitorais e ampliando margem operacional para campanhas digitais”. Segundo ele, o apoio transversal ao texto revela um interesse estrutural do sistema político. “A proposta teve apoio de governo, Centrão e oposição. Isso costuma indicar uma matéria de forte interesse do sistema político, não apenas de um campo ideológico”, observou.
- Leia também: Congresso aprova o "liberou geral" nas Eleições 2026
Repasses liberados
A reação negativa também alcançou outro tema votado pelo Congresso na quinta-feira: a derrubada de vetos presidenciais da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026, permitindo repasses federais a municípios inadimplentes. Para setores da sociedade civil, a medida amplia brechas para uso político da máquina pública em ano pré-eleitoral.
“O impacto principal dessa flexibilização é deslocar a fronteira entre política pública legítima e uso eleitoral da máquina”, avaliou o diretor do MCCE. Segundo ele, embora muitos municípios dependam de transferências para manter serviços e obras, a ampliação dos repasses em período eleitoral aumenta riscos de favorecimento político, inaugurações oportunistas e seleção de aliados locais.
O professor de direito eleitoral da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Roberto Beijato Júnior afirma que a convergência entre partidos ideologicamente antagônicos não surpreende. “Do ponto de vista pragmático, é uma medida que interessa a todos os partidos. Quando se reduz multa pelo uso indevido de verbas do fundo eleitoral, essa pauta deixa de ter ideologia”, afirmou.
Para o especialista, a minirreforma transmite à sociedade uma sensação de desconfiança ao reduzir mecanismos de controle. Ele cita, por exemplo, a substituição da multa proporcional — antes vinculada ao percentual do recurso utilizado irregularmente — por um teto fixo de R$ 50 mil. “Isso flexibiliza as punições e enfraquece a fiscalização”, disse.
Beijato também criticou a limitação do poder da Justiça Eleitoral de analisar a efetiva destinação dos recursos partidários. Segundo ele, a tendência é de que a fiscalização fique restrita a aspectos formais, sem aprofundamento sobre o impacto do uso do dinheiro público nas campanhas.
O professor avalia, contudo, que é improvável que as novas regras tenham impacto direto nas eleições de 2026, já que o texto ainda precisa passar pelo Senado e ser sancionado pelo presidente da República. Caso aprovado ainda neste ano, porém, ele alerta que as novas regras já poderão afetar a transparência dos gastos partidários.
Confiança em xeque
Outro ponto destacado pelo especialista foi a votação simbólica da proposta. Embora o procedimento seja permitido pelo regimento da Câmara, Beijato considera que ele enfraquece a confiança pública nas instituições. “Passa a sensação de que foi uma votação de bastidor, de acordo fechado, sem transparência sobre quem apoiou o quê”, afirmou.
O cientista político Rudá Ricci vê continuidade em um processo de fortalecimento dos grandes partidos e esvaziamento dos mecanismos de controle social sobre o sistema eleitoral. Segundo ele, acordos semelhantes já ocorreram no passado entre PT, PSDB e MDB e agora reaparecem em articulação entre o governo federal e o Centrão.
Ricci também demonstrou preocupação com a autorização para disparos em massa de mensagens. “Será muito difícil para a Justiça Eleitoral controlar isso, especialmente diante do avanço da inteligência artificial e das fake news”, afirmou. Para ele, o país vive um retrocesso institucional no campo da fiscalização eleitoral. “Todo o movimento de responsabilidade social e controle das eleições vem sendo esvaziado desde 2015”, disse.
Até o momento, o Tribunal Superior Eleitoral não divulgou manifestação institucional direta contra a minirreforma aprovada pela Câmara. Nos últimos meses, porém, ministros da Corte têm defendido justamente o fortalecimento da fiscalização eleitoral e do combate à desinformação.
Nesta semana, o presidente do TSE, Nunes Marques afirmou que a Justiça Eleitoral precisará atuar com “inteligência democrática” diante dos riscos do uso abusivo de inteligência artificial e da manipulação do eleitorado nas eleições de 2026.
O projeto segue agora para análise do Senado. Entidades da sociedade civil prometem intensificar a pressão sobre os parlamentares para tentar barrar os trechos considerados mais sensíveis da proposta.
Saiba Mais
-
Política Medo de atentado: Flávio Bolsonaro revela uso de colete à prova de balas
-
Política De ídolo a político: Edmundo entra na disputa por uma vaga na Câmara
-
Política Joaquim Barbosa se apresenta ao eleitorado
-
Política Oposição celebra Zambelli livre
-
Política PT aciona PGR contra Mario Frias por viagens sem aval e 'rachadinha'
