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Análise: Flávio, Trump, Lula e o debate sobre facções criminosas

No campo político, há uma clara divisão entre representantes da direita e da esquerda quanto ao modelo de enfrentamento ao crime organizado. E nenhum dos dois lados parece ter encontrado o modelo mais eficiente.

O giro de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos pode não ter arrefecido a crise provocada pela relação que o senador manteve com o banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse. Mas trouxe de volta ao debate um tema com potencial para chamar a atenção do eleitor nos próximos meses: a segurança pública.

Em dois dias, Flávio, o irmão Eduardo e o aliado Paulo Figueiredo foram recebidos pelo mais alto escalão da Casa Branca. A começar pelo chefe do governo norte-americano, o presidente Donald Trump. Ontem, o trio brasileiro teve audiência com outros integrantes do núcleo duro trumpista: o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Após os dois encontros, o senador disse ter reiterado o pedido para que o governo norte-americano declare como organizações terroristas as facções criminosas brasileiras, em particular o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Em discurso após a conversa com Trump, Flávio Bolsonaro defendeu a ação norte-americana, e aproveitou para renovar os ataques ao governo petista. "Enquanto o Lula veio fazer lobby para traficante na Casa Branca, eu vim fazer exatamente o contrário: pedir enfaticamente ao presidente Trump que designe, o quanto antes, o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras", afirmou. Importante ressaltar: Lula disse que não tratou de facções criminosas no encontro com Trump na Casa Branca.

Flávio argumentou por que essas organizações devem receber tal denominação. "Elas são, sim, organizações terroristas. Controlam territórios inteiros no Brasil pela força, submetem populações ao seu próprio código e à sua própria lei, à sua própria Justiça paralela", descreveu.

Embora Flávio procure se diferenciar de Lula, o presidente da República tem procurado mostrar que está atento e atuante contra o crime organizado. Há poucos dias, anunciou um pacote de R$ 11 bilhões — R$ 1 bilhão em investimentos e R$ 10 bilhões em financiamento para estados e municípios —, no âmbito do Programa Brasil no Combate ao Crime Organizado. O chefe do Executivo também está ciente da questão territorial. Em entrevista ao programa Sem Censura, na semana passada, ressaltou: "O território em qualquer cidade, em qualquer estado, é do povo brasileiro e tem que voltar a ocupar o seu território".

Preocupação maior

Ao longo das últimas décadas, a segurança pública passou a dominar a preocupação dos brasileiros. Em "O Brasil no Espelho", o cientista político Felipe Nunes relata como a preocupação com a violência passou a predominar sobre outras aflições no cotidiano brasileiro. Na década de 1980, no período da hiperinflação, as maiores angústias eram a escalada de preços e o custo de vida. Com a estabilidade econômica, os brasileiros passaram a prestar mais atenção à saúde e ao emprego. A partir dos anos 2000, com a expansão do crime organizado, o medo da violência passou a dominar a vida nacional.

No campo político, há uma clara divisão entre representantes da direita e da esquerda quanto ao modelo de enfrentamento ao crime organizado. E nenhum dos dois lados parece ter encontrado o modelo mais eficiente. Flávio integra o que se pode chamar de linha-dura. No Parlamento, preside a Comissão de Segurança Pública e atuou no movimento para aprovar o PL Antifacção, em uma parceria com o ex-secretário de Segurança do governo de São Paulo e deputado federal Guilherme Derrite (PP).

Mas, no próprio estado que representa, o discurso beligerante de Flávio enfrenta dificuldade. Foi no Rio de Janeiro, em outubro de 2025, que ocorreu a ação policial mais mortífera da história fluminense, com um saldo de pelo menos 120 mortos nos complexos do Alemão e da Penha. A ofensiva das forças de segurança recebeu apoio de maior parte da população carioca, mas trouxe efeitos limitados. Não se tem notícia de que as facções dominantes da região tenham recuado. Tampouco há registros de ações do governo fluminense para transformar o território tomado pelo crime em espaço de resgate da cidadania perdida dos cariocas.

Do lado do governo Lula, também há problemas. A tentativa de aprovar a chamada PEC da Segurança Pública se arrasta há meses, sem avanços significativos no Parlamento. Em um exagero retórico, o chefe do Planalto fez um apelo a Davi Alcolumbre (União-AP). Disse que criaria o Ministério da Segurança 15 dias após o Parlamento aprovar a proposta. Entre outros pontos, a PEC institui uma maior integração entre as forças de segurança da Federação — modelo fortemente criticado por quem já governou estados, como o pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD).

Direto dos Estados Unidos, Flávio traz na bagagem um tema que é caro à direita e tem apelo eleitoral. Resta saber se essa munição será suficiente para levá-lo ao Palácio do Planalto. 

 

 

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