Nas Entrelinhas

Análise: as ameaças da IA na visão do editor do NYT

Em ano de eleição, o uso da inteligência artificial impõe um desafio colossal para o Brasil. Mas não nos iludamos: o que está em jogo não é o futuro da mídia. É a democracia no século 21

A regulamentação do uso da IA está em análise no Congresso  -  (crédito: Gerd Altmann por Pixabay )
A regulamentação do uso da IA está em análise no Congresso - (crédito: Gerd Altmann por Pixabay )

O jornalista Arthur Gregg Sulzberger, de 45 anos, pertence à quinta geração da família a comandar o New York Times, ícone mundial da imprensa. Ele assumiu o legado do pai em 2018, após anos de experiência no exercício da reportagem. De lá para cá, A.G. Sulzberger aprofundou a transição de um dos veículos de maior credibilidade do planeta para o ambiente digital. Em 2026, o NYT chegou à marca de 13 milhões de assinantes, resultado de uma ampla oferta de serviços para os leitores, sem abrir mão da matéria-prima do veículo: jornalismo de excelência.

Nessa segunda-feira, o editor do jornal norte-americano fez um diagnóstico sombrio sobre uma das graves ameaças — há outras — contra o jornalismo: a inteligência artificial generativa. Na França, durante a abertura do congresso anual da Associação Mundial de Editores de Notícias, entidade que representa mais de três mil empresas editoriais pelo mundo, Sulzberger descreveu o impacto da IA na produção de notícias. A título de introdução, ele mencionou alguns dos debates contemporâneos sobre o alcance da IA na economia, com possível redução na oferta de empregos, a possibilidade de romper barreiras na medicina, ou ampliar os riscos de um ataque biológico em larga escala.

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Mas é na produção e no consumo da informação de qualidade que o editor do NYT descreve um cenário devastador. Segundo ele, as big techs promovem um "sequestro da praça pública" ao drenar dados do ecossistema de informação sem remunerar os produtores originais de conteúdo e sem arcar com qualquer responsabilidade pelo reprocessamento das informações. "Esse dano potencial se estende muito além das notícias. Empresas de IA invadiram todo o acervo de obras originais da civilização, um ato que também representa um perigo para o futuro dos livros, da música, dos filmes, da pesquisa e de uma série de outras áreas", afirmou o herdeiro da família Sulzberger, segundo a tradução da Folha de S.Paulo.

Mais adiante, o editor comenta o atual estágio do ambiente digital e os efeitos sobre a sociedade. "A internet está saturada de robôs e conteúdos de baixa qualidade. Está se tornando cada vez mais difícil saber de onde as coisas vieram e se são verdadeiras. Isso levou a uma sensação de que nada é confiável, exigindo uma vigilância quase paranoica ou, pior, uma descida ao niilismo. O efeito não é apenas que as pessoas acreditam em coisas falsas; é que elas deixam de acreditar em coisas verdadeiras", alerta.

Em diversos trechos, Sulzberger afirma que o avanço da IA generativa, sem a devida compensação às empresas que investem no jornalismo profissional, não é apenas uma revolução no mercado de informação. Trata-se de uma ameaça ao jornalismo, um dos pilares da democracia em qualquer parte do mundo. "Quem mais irá aos locais onde os eventos se desenrolam? Trazer relatos em primeira mão das linhas de frente da guerra? Equipar-nos com informações confiáveis em uma crise de saúde pública? Expor a empresa ou a carreira política construída sobre uma mentira?", questiona o editor do NYT, que conta com aproximadamente 3 mil profissionais pelo mundo para a produção de conteúdo.

No Brasil, a regulamentação do uso da IA está em análise no Congresso Nacional. O Projeto de Lei 2.338/2023, de autoria do senador Rodrigo Pacheco, foi aprovado no Senado e aguarda parecer de comissão especial na Câmara dos Deputados. A proposta qualifica os sistemas de IA de acordo com o risco que podem representar para os chamados direitos fundamentais. O projeto de lei determina aos desenvolvedores de sistemas uma série de medidas de controle para evitar impactos severos em áreas críticas como saúde, educação, justiça criminal e infraestrutura. Em outro trecho, a proposta discorre sobre as obrigações das empresas de tecnologia para com o usuário, como regras de transparência.

A questão do direito autoral, como ocorre em outras partes do mundo, será objeto de debate. O texto legislativo permite a proprietários de conteúdos protegidos vetar o treinamento de IA, mas organizações ligadas à produção cultural, por exemplo, reinvindicam mais garantias contra o uso não autorizado do trabalho intelectual. Enquanto a regulamentação da IA segue indefinida na Câmara, o arcabouço jurídico é suprido pela Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Os artigos constantes na lei asseguraram ao titular dos dados algumas providências em caso de desvirtuamento no tratamento das informações.

Em ano de eleição, o uso da inteligência artificial impõe um desafio colossal para o Brasil. É sabido que a legislação jamais acompanhará a velocidade das inovações que, a cada hora, impactam no ambiente digital. Em um cenário onde, como adverte A.G. Sulzberger, está cada vez mais difícil diferenciar a verdade da mentira e separar os fatos de narrativas, a escolha do voto exigirá ainda mais responsabilidade do eleitor consciente. Apesar dos movimentos antidemocráticos contemporâneos e do declínio da informação de qualidade provocado pela ascensão das big techs, a imprensa profissional e independente ainda é um valioso ativo para a sociedade. Mas não nos iludamos: o que está em jogo não é o futuro da mídia. É a democracia no século 21.

 

 

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postado em 02/06/2026 03:55
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