Crise entre Poderes

Alcolumbre ignora apelo do governo e Senado avança com pautas de alto impacto fiscal

Renegociação de dívidas rurais, benefícios para categorias da saúde e autonomia financeira do BC ampliam pressão sobre as contas públicas e testam a relação entre Lula e o presidente do Senado

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) -  (crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado)
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) - (crédito: Waldemir Barreto/Agência Senado)

O avanço de propostas com elevado impacto fiscal no Senado Federal acendeu um alerta no Palácio do Planalto, deixando ainda mais delicada a relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP). Um dia após integrantes da equipe econômica pedirem o adiamento de matérias consideradas sensíveis para as contas públicas, o Senado aprovou a renegociação de dívidas de grandes produtores rurais e deu andamento a outras propostas que ampliam despesas da União.

A principal derrota do governo ocorreu no plenário, com a aprovação do projeto que prevê a renegociação de débitos do setor agropecuário. Segundo estimativas da equipe econômica, a medida pode gerar impacto de cerca de R$ 140 bilhões ao longo da próxima década. Apesar da resistência do Ministério da Fazenda, Alcolumbre decidiu colocar a matéria em votação após fracassarem as negociações conduzidas pelo secretário-executivo da pasta, Dario Durigan, com parlamentares e o relator do texto, senador Renan Calheiros (MDB-AL). A proposta ainda precisa retornar à Câmara dos Deputados.

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Antes da votação, Alcolumbre afirmou que vinha sendo pressionado por senadores para pautar o projeto e disse que não poderia mais adiar a deliberação. O presidente do Senado ressaltou que respeitava os alertas do governo sobre os efeitos orçamentários da medida, mas declarou que o acordo esperado entre Executivo e parlamentares não havia sido alcançado. Nos bastidores, interlocutores relataram que o senador tentou construir uma saída negociada, sem sucesso.

Além da questão rural, duas comissões do Senado aprovaram propostas que ampliam benefícios para profissionais da área da saúde. Uma delas estabelece aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e agentes de combate às endemias, com impacto estimado em R$ 30 bilhões em 10 anos. Outra eleva o piso salarial de médicos e cirurgiões-dentistas de R$ 3,6 mil para R$ 13,6 mil. As matérias avançaram sem resistência significativa da base governista, que avaliou haver elevado custo político em se posicionar contra categorias organizadas em um período pré-eleitoral.

O governo também sofreu revés na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que aprovou a proposta de emenda à Constituição que concede autonomia financeira ao Banco Central. A equipe econômica havia apresentado uma alternativa ao texto, mas a sugestão foi rejeitada pelo relator, senador Plínio Valério (PSDB-AM). O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), conseguiu negociar o adiamento da votação da PEC em plenário por uma semana, abrindo espaço para novas discussões.

Integrantes do governo ainda enxergam, porém, sinais de aproximação entre Lula e Alcolumbre. O presidente da República avalia retomar o diálogo direto com o senador após meses de distanciamento político. Aliados do petista consideram que a reaproximação é estratégica não apenas para destravar pautas prioritárias do Executivo, como a proposta de redução da jornada de trabalho conhecida como PEC 6x1, mas também para conter o avanço de projetos que ampliam gastos públicos em meio à corrida eleitoral de 2026.

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postado em 11/06/2026 12:35 / atualizado em 11/06/2026 12:38
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