Há meses o mundo político sofre calafrios com as possíveis revelações do maior escândalo financeiro de que se tem notícia no Brasil. Desde a primeira prisão de Daniel Vorcaro, em novembro do ano passado, o país acompanha uma sequência de episódios, tal qual estivesse assistindo a uma maratona de uma série de streaming. Em meio a cifras bilionárias, festas nababescas, muita ostentação e uma teia de fraudes financeiras, personagens centrais do escândalo negociam com os investigadores se obtêm o benefício de redução de pena por meio do instituto da delação premiada.
Daniel Vorcaro voltou à cadeia no início de março, preventivamente, como parte de uma das etapas da Operação Compliance Zero. Desde então, tenta apresentar informações que a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República julguem úteis e inéditas para a investigação. Nesse caminho, o protagonista do escândalo Master já trocou de advogado, mas os resultados ainda são obscuros. A demora nas tratativas sugere que o banqueiro enfrenta dificuldades para fornecer material útil às investigações.
Problema semelhante parece ocorrer com Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília. O executivo que tramou com Daniel Vorcaro uma operação de R$ 12 bilhões entre o BRB e o Master, além de outras graves suspeitas, também mudou a equipe de defesa. Mas corre sério risco de ver suas informações sobre o escândalo rejeitadas pelas autoridades à frente do inquérito. No caso do BRB, o ponto central a ser esclarecido é o envolvimento do ex-governador Ibaneis Rocha. Uma delação premiada de PHC só teria chance de vingar se o ex-dirigente do banco apresentasse provas de que obedecia a ordens de alguém.
Desde o início, boa parte do frisson em torno do caso Master ocorre em razão da proximidade dos principais envolvidos com altas autoridades da República. Se no início do ano a pressão estava toda voltada contra ministros do Supremo Tribunal Federal, a proximidade das eleições direcionou o foco aos políticos. O caso de Ibaneis Rocha é o mais evidente, a ponto de provocar um racha com a governadora Celina Leão, com reflexos no grupo político que sustentou os dois últimos governos no Distrito Federal. Uma possível delação de Paulo Henrique Costa é vista como a pá de cal para as pretensões de Ibaneis ao Senado. Quanto à atual chefe do Buriti, o sucesso nas urnas está diretamente ligado ao que pode ocorrer com o BRB nos próximos meses, a partir do acordo homologado pelo ministro Luiz Fux no Supremo Tribunal Federal.
No atual momento, as delações de Vorcaro e Paulo Henrique Costa interessam porque podem levar as investigações, em primeiro lugar, a caminhos ainda desconhecidos da opinião pública. O ponto primordial a ser levantado é o caminho do dinheiro. Ainda carece de esclarecimento o tamanho da fortuna mantida por Vorcaro e seus cúmplices, no Brasil e no exterior, resultante dos golpes aplicados contra aposentados, investidores, clientes do BRB e outras vítimas da fraude Master.
Em segundo lugar, as revelações dos dois principais envolvidos no escândalo ganham relevância se tiverem implicações criminais para personagens importantes da República. Ibaneis Rocha está no olho do furacão, mas há outros nomes comprometidos, como o senador Ciro Nogueira, o ex-governador Cláudio Castro e o entorno do Davi Alcolumbre. Nas últimas semanas, quem se juntou ao grupo de alvos do escândalo foi o pré-candidato e senador Flávio Bolsonaro. O parlamentar ainda não conseguiu afastar as suspeitas sobre os repasses ao filme Dark Horse, e não resta dúvida de que o assunto será explorado à exaustão na campanha eleitoral.
Por fim, as declarações dos dois encarcerados de Brasília podem contribuir para um debate ainda pendente, motivado pelo escândalo Master: as falhas regulatórias que permitiram a formação de um esquema que provocou um rombo de R$ 60 bilhões no sistema financeiro nacional. Para os governistas, o ovo da serpente se encontra no governo Bolsonaro, mais precisamente na gestão de Roberto Campos Neto à frente do Banco Central. Mas há também críticas em relação à atuação da atual gestão da autoridade monetária, em particular na condução do imbróglio entre BRB e Master. Persistem, ainda, suspeitas sobre a origem baiana do escândalo, com a adoção do CredCesta no governo de Rui Costa e posterior utilização em outras praças, como no Rio de Janeiro.
Daniel Vorcaro e Paulo Henrique Costa têm muito a explicar. Mas, pela magnitude do escândalo Master, só têm alguma chance de reduzir pena se comprovarem a cumplicidade de quem tem poder em Brasília. Do contrário, enfrentarão um bom período no cárcere.
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