podcast do correio

Fim da 6 x 1 pode gerar empregos, avalia ex-ministra Dorothea Werneck

Avaliação da economista vai na direção oposta à preocupação manifestada por empresários

O fim da escala 6 x 1 de trabalho pode ter o efeito contrário que setores do empresariado tem apregoado — de que a produtividade cairá, que pode haver demissões e que os custos de produção vão subir. Segundo Dorothea Werneck, economista e ex-ministra da Indústria, Comércio e Turismo (governo Fernando Henrique Cardoso) e do Trabalho (governo José Sarney), isso não é verdade. Em entrevista às jornalistas Denise Rothenburg e Rosana Hessel para o Podcast do Correio, ela frisou que, como o número de oportunidades de vagas disponíveis é limitado, quando os trabalhadores passam menos dias por semana no serviço, abre-se espaço para novas contratações. Ela prevê que, em caso de aprovação da PEC da redução de jornada, será criada uma demanda adicional por mão de obra.

A ex-ministra lançou, ontem, seu segundo livro, Aprendendo e Vivendo: uma Biografia contada por Histórias e Versos. A obra é construída a partir da sua própria experiência no serviço público e na economia brasileira. Por causa disso é que Dorothea chama a atenção para o lado humano do fim da 6 x 1.

"Trabalhando de segunda a sábado, a que horas você vai conviver com a sua família? A que horas vai fazer suas coisas pessoais? Não sobra tempo. Estamos falando de gente. Estou aqui torcendo pelo dia em que vai diminuir para 4 x 3", defende.

Dorothea ainda lembra da mudança da relação dos empregados com as empresas, em especial a nova geração que está entrando no mercado de trabalho. "Eu adoro a geração Z. Como é que está acontecendo agora? É o candidato que escolhe a empresa. Eles querem saber se o padrão daquela empresa é o chefe que manda e os outros obedecem, ou se o chefe é alguém que ensina. Se você trata tudo com muita rigidez e apenas com cumprimento de processos, não dá liberdade para a pessoa pensar fora da caixa e, portanto, não há inovação", argumenta.

A economista e professora ressalta que, a partir de agora, o mercado de trabalho também enfrenta o desafio de implementar a inteligência artificial no dia a dia. Para Dorothea, a ferramenta está provocando uma reação parecida com a que aconteceu na Revolução Industrial, em que as pessoas passaram a ser substituídas por máquinas. No entanto, ela entende que a IA não vai tirar o emprego de diversos profissionais, já que, para que funcione, é preciso que os seres humanos continuem a alimentá-la.

"(A inteligência artificial) funciona com base em informações produzidas por instituições e organizações ao longo do tempo, sejam elas empresas, órgãos públicos, universidades ou qualquer outra fonte de conhecimento", salienta, acrescentando que o bom uso da ferramenta depende do conhecimento adquirido por quem a manuseia.

"Existe uma regra básica na inteligência artificial: quanto melhor a pergunta, melhor será a resposta. Isso abre espaço para pessoas com boa formação cultural, conhecimento geral e domínio da linguagem, capazes de formular as perguntas corretas para obter resultados mais precisos", adverte.

Plano Real

Dorothea esteve no governo federal em períodos cruciais em que o país e os trabalhadores toureavam com a inflação. Ela recorda das turbulências que envolveram o planejamento do Plano Real, mas que o principal atributo foi a sabedoria do presidente. "A vantagem do Fernando Henrique é que ele soube juntar os cérebros, as melhores cabeças econômicas do país, para fazer esse plano", afirma.

Segundo Dorothea, houve uma operação gigantesca para conseguir entregar o dinheiro à população — que ainda sofria com os efeitos do congelamento no Plano Collor e com as desconfiança de mais uma mudança de moeda. "Naquela época, não existiam transações digitais. Não havia Pix. A Casa da Moeda quase enlouqueceu para produzir todo o volume de dinheiro necessário e garantir que ele estivesse disponível na data correta para ser distribuído por todo o Brasil. Foi algo quase mágico. O sistema começou a funcionar já no primeiro dia. E o brasileiro entendeu essa mudança", observa.

A ex-ministra, porém, faz questão de registrar que sabia das dificuldades que enfrentaria por ser uma mulher em um cargo de poder, no fim da década de 1980 e no começo dos anos 1990. "Desde o início, adotei uma postura muito clara: não me interessava se estava lidando com homens ou mulheres. Eu era uma profissional. E profissional é uma palavra que não tem gênero. Eu tinha uma sólida formação técnica, construída ao longo da graduação, da pós-graduação e das especializações que realizei em economia do trabalho e economia industrial. Sabia exatamente qual era a minha competência e o que eu podia oferecer", afirma.

Mas um episódio marcou sua trajetória como escritora e economista, e que deu origem ao título de seu primeiro livro, intitulado Apesar de ser Mulher. O caso aconteceu quando o industrial Mário Amato, então presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao ser perguntado em uma entrevista sobre o trabalho de Dorothea, disse: "Ela é muito inteligente, apesar de ser mulher".

Ela conta que, quando encontrou Amato dias depois, agradeceu-o pelo comentário machista. "Eu disse que tinha algo a agradecer. Ele me olhou surpreso e perguntou o motivo. Respondi que estava escrevendo um livro, mas ainda não tinha encontrado um título. Graças à frase dele, o problema estava resolvido. O livro se chamaria Apesar de Ser Mulher, e seria dedicado a ele", revela.

*Estagiária sob a supervisão de Fabio Grecchi

 

Mais Lidas