DITADURA MILITAR

Morre Josias Nunes, motorista injustamente acusado da morte de JK

Comissão sobre Mortos e Desaparecidos preparava ato de desagravo, que será mantido mesmo com seu falecimento. De acordo com a comissão, JK foi assassinado

 Josias Nunes de Oliveira em depoimento  na ALMG, em 2013 -  (crédito:  Guilherrme Bergamini)
Josias Nunes de Oliveira em depoimento na ALMG, em 2013 - (crédito: Guilherrme Bergamini)

Morreu nessa terça-feira (16), aos 82 anos, em Indaiatuba, no interior de São Paulo, Josias Nunes de Oliveira, ex-motorista da Viação Cometa que durante décadas foi apontado como responsável pelo acidente que resultou na morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 1976

Em nota, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) lamentou a morte de Josias e afirmou que ele foi vítima de uma das maiores injustiças da história recente do país ao ser acusado, sem provas, de ter provocado a colisão que teria causado a morte de JK.

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“O senhor Josias carrega em sua biografia o peso de uma das maiores e mais cruéis injustiças da história recente do país. Motorista de um ônibus da Viação Cometa, em 1976, ele foi falsa e injustamente apontado como o responsável por uma colisão na traseira do veículo de Juscelino Kubitschek, a qual teria levado ao acidente que vitimou o ex-presidente”, afirmou a comissão.

A morte encerra a trajetória de um personagem que viveu por quase cinco décadas sob o estigma de ter participado de um dos episódios mais controversos da história política brasileira. Absolvido pela Justiça Criminal em 1978, Josias jamais conseguiu se desvencilhar completamente da acusação que marcou sua vida pessoal e profissional.

Em depoimento prestado em 2017 à Comissão da Verdade Vladimir Herzog, relatou o sofrimento causado pela associação de seu nome à morte do ex-presidente. “Aquele é o homem que matou Juscelino Kubitschek.” Segundo Josias, era comum ouvir essa frase em diferentes lugares por onde passava. “Aquilo me cortava por dentro”, afirmou. “Fui acusado, fui humilhado, fui desfeito por isso”, disse na ocasião. 

No mesmo depoimento, o ex-motorista disse ter sido procurado por dois desconhecidos poucos dias após a morte de JK. Segundo ele, os homens lhe ofereceram uma mala cheia de dinheiro para que assumisse a responsabilidade pelo acidente. “Se eu dissesse que era o culpado pelo acidente, aquele dinheiro seria todo meu”, afirmou. Josias disse ter recusado a proposta e passou o restante da vida sustentando sua inocência. 

Durante décadas, prevaleceu a versão oficial de que o ônibus dirigido por Josias teria atingido a traseira do Opala em que viajavam Juscelino Kubitschek e seu motorista, Geraldo Ribeiro, na Rodovia Presidente Dutra, em 22 de agosto de 1976. Após a suposta colisão, o veículo teria perdido o controle, invadido a pista contrária e batido em uma carreta. JK e Geraldo morreram no local.

No mês passado, porém, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos concluiu que o ex-presidente foi assassinado pela ditadura militar, contestando a versão oficial da ditadura militar, desde 1976.

“Encontra-se fartamente provado que essa colisão traseira jamais aconteceu e que o acidente que levou à morte de JK decorreu da ação do Estado ditatorial. Embora Josias tenha sido plenamente absolvido pela Justiça Criminal em 1978, esse fato fundamental permaneceu abafado pelo manto do silêncio, da censura e da produção de versões fraudulentas da época”, afirmou a comissão na nota de pesar pela morte de Josias.

De acordo com a comissão, Josias sofreu durante décadas os efeitos de uma acusação infundada. “A dor de ter sido marcado pelo estigma de uma culpa que nunca foi sua é o reflexo de um período em que a verdade foi intencionalmente distorcida”, diz a nota.

A comissão informou ainda que preparava medidas institucionais para formalizar um pedido público de desculpas ao ex-motorista, mas ele morreu antes da homenagem.

“É com os sentimentos de tristeza e frustração que recebemos a notícia de sua partida antes que esse ato de justiça pudesse ser entregue a ele em vida. Contudo, a ausência física do senhor Josias não encerra o dever histórico de reparação. A CEMDP reafirma seu compromisso intransigente com a verdade e garante que o pedido de desculpas será devidamente oficializado e entregue à sua família.”

A nota é concluída com uma homenagem ao ex-motorista: “A história do Brasil deve, por memória, verdade e justiça, registrar o nome de Josias Nunes de Oliveira como um homem íntegro que foi, na realidade, vítima do silenciamento opressor do Estado e das falsas versões arquitetadas para encobrir os crimes praticados pela ditadura civil-militar. Que descanse em paz, finalmente reconhecido e livre do fardo da injustiça.”

 

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AM
postado em 17/06/2026 21:46 / atualizado em 17/06/2026 21:46
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