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Lula a Trump: 'Não se meta nas eleições do Brasil'

Líder norte-americano mistura dois dos irmãos Bolsonaro, distorce informação sobre eleições e presidente manda duro recado

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou, ontem, um duro recado a Donald Trump, que criticou o Brasil e mentiu sobre os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro — o pré-candidato Flávio e o ex-deputado Eduardo. Ao reagir à declaração do presidente dos Estados Unidos, dadas pouco antes da coletiva que concedeu na representação brasileira em Genebra, Lula deixou claro que não aceita interferência externa nas eleições que ocorrerão em outubro.

"Acho que ele (Trump) tem direito de ter as preferências eleitorais dele, as preferências ideológicas dele. Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania. Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto — não tem nenhum problema. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil, assim como as eleições americanas são um problema deles", avisou.

A reação de Lula foi por conta de uma falsa afirmação feita por Trump de que o Brasil "tornou-se um país um pouco complicado politicamente". O presidente norte-americano ainda misturou os nomes de Flávio e Eduardo e passou aos jornalistas, na coletiva que concedeu, que "Bolsonaro Júnior" tinha sido "preso".

"Tem sido desagradável. Ouvi dizer que prenderam alguém que está concorrendo a um cargo hoje. Fiquei sabendo disso depois que saímos. Eu tinha acabado de me despedir dele (Lula) e ouvi dizer que prenderam o Bolsonaro Jr. Ele estava indo bem nas pesquisas, e o prenderam porque ele deu uma declaração no Texas. Prenderam ele ou querem prender ele", afirmou, com o secretário de Estado, Marco Rubio, logo atrás.

Condenação

Na verdade, Eduardo Bolsonaro — que é quem mora nos EUA — foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo por tentar interferir no julgamento do pai por tentativa de golpe de Estado, em 2025. Já o pré-candidato Flávio continua em pleno exercício do mandato de Senador.

Trump ainda usou um tom ameaçador com o Brasil. "Eles jogam duro, mas ninguém joga mais duro do que os Estados Unidos", avisou o presidente norte-americano.

Lula devolveu afirmando que Trump desconhece a realidade do brasileira. "Acho que ele conhece pouco o Brasil. Se ele conhece o Brasil pela relação que ele tem com a família Bolsonaro", rebateu, para, em seguida, defender o sistema eleitoral de urnas eletrônicas.

"Não tem país no mundo — e os Estados Unidos poderiam aprender com o Brasil — de eleições mais tranquilas, mais leves e menos conturbadas. Não tem país no mundo que tenha um sistema de urna eletrônica como o nosso, em que duas horas após terminar as eleições a gente já sabe o resultado em 27 estados da Federação. Já sabe quem é o presidente eleito, quem são os governadores, quem são os senadores e quem são os deputados", alfinetou.

O presidente aproveitou para ironizar Trump. "Se tem alguém que tem que aprender com as eleições civilizadas no Brasil, é o meu amigo Trump. Na próxima vez, vou levar uma urna eletrônica para mostrar para ele como é que ela funciona", disse.

Com Zelensky, conversa produtiva

Lula conversou longamente com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e considerou que foi a mais produtiva que tiveram desde a guerra iniciada com a invasão pela Rússia, que já dura quatro anos. Disse ter percebido uma mudança na postura do líder ucraniano e sinalizou que pretende retomar articulações diplomáticas junto às principais potências mundiais para tentar contribuir com uma solução para o conflito.

"Tive a melhor conversa com o Zelensky até agora", garantiu.

Lula destacou o desgaste provocado pelo prolongamento do conflito. "Eu já achava, há um ano, que essa guerra precisava acabar, pois todos estão cansados: torcedores da Ucrânia, do Vladimir Putin e os financiadores. Quem pode fazer parar essa guerra são os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas): Rússia, China, Estados Unidos, Reino Unido e França. Eles têm o poder de veto e de decidir pela paz", cobrou.

Ele lembrou que, ao longo dos últimos anos, tentou contribuir para uma saída diplomática, mas afirmou que não percebia disposição efetiva de russos e ucranianos para avançar em negociações. "Eu já fiz muitas propostas, mas não senti interesse de nenhuma das partes. Disse ao Zelensky que antes não sentia interesse real das partes", observou.

Segundo Lula, a percepção durante a conversa com Zelensky foi diferente dos encontros anteriores. "Agora ele quer a paz e propõe um cessar-fogo para discutir os termos, o que acho justo. Assumi o compromisso de ligar novamente para os cinco membros permanentes (do Conselho de Segurança). Vou voltar a falar outra vez. Eles são os responsáveis por garantir a paz. Ajudarei no que puder", explicou.

Sobre a participação na cúpula do G7, Lula disse ter divergido em temas relacionados à economia global e ao desenvolvimento. "Concordamos em três documentos e não concordamos nos outros documentos, porque o Brasil tem uma visão diferenciada quando vamos discutir a questão do desequilíbrio e da política mundial", observou.

O presidente também criticou a polarização crescente entre Estados Unidos e China e defendeu uma posição de equilíbrio nas relações internacionais. "Não queremos uma guerra fria entre Estados Unidos e China, porque nós sabemos o resultado da guerra fria entre a União Soviética e os Estados Unidos, que durante tantos anos limitou o mundo a ficar dependente de apenas duas posições. Defendemos que os Estados Unidos sejam os Estados Unidos, que a China seja a China e que nós sejamos nós. E que quanto mais negociação a gente fizer, melhor para todo mundo", frisou.

Lula falou da importância da relação comercial entre o Brasil e as duas maiores economias do planeta. "Para nós, a China é importante e eu não tenho nenhuma queixa. A balança comercial com o Brasil é de US$ 165 bilhões, com superavit para o Brasil. A relação com os EUA, ano passado, foi de US$ 80 bilhões, com deficit de US$ 10 bilhões para o Brasil. Então, obviamente, a China passa a ser um parceiro privilegiado", afirmou.

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