O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vai acompanhar com atenção a apuração dos votos no segundo turno das eleições na Colômbia, realizadas neste domingo (21/06). O pleito será definido entre o filósofo progressista Iván Cepeda, apoiado pelo atual presidente da Colômbia, Gustavo Petro, e o empresário de ultradireita Abelardo de la Espriella, um outsider que recebeu o apoio direto do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
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Na Colômbia, a direita venceu o primeiro turno, em maio, por uma margem estreita (43,7% contra 40,9%, de Cepeda). Um dos principais discursos de Abelardo de la Espriella é o fortalecimento da segurança pública e o combate a grupos criminosos. Essas bandeiras ecoam em meio ao fato de Petro, apoiador de Cepeda, ter tentado negociar o desarmamento de grupos ligados à guerrilha. Tentativas essas que, no entanto, acabaram com o fortalecimento de organizações criminosas como o grupo colombiano chamado Clã do Golfo.
O contexto que embasa qual candidato os eleitores colombianos vão escolher para os próximos quatro anos, segundo interlocutores do Planalto, é analisado sob a perspectiva de calcular se o endosso de Trump ao postulante direitista Abelardo Espriella terá efeitos em possíveis apoios dos EUA a algum candidato da oposição nas eleições brasileiras, como Ronaldo Caiado (PSD-GO), Romeu Zema (Novo-MG), ou Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Recado direto no G7
Essa avaliação também ocorre em meio à fervura diplomática entre Lula e Trump. Semana passada, durante a Cúpula do G7, em Évian-les-Bains, na França, o líder norte-americano subiu o tom contra o Brasil ao classificar o país como "um pouco perigoso politicamente". Ele também criticou o Poder Judiciário brasileiro ao mencionar, de forma equivocada, que o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tinha sido preso.
A reação do presidente Lula veio de forma imediata, em entrevista coletiva realizada na Cúpula do G7. "Por mim, ele [Trump] pode continuar gostando do Bolsonaro — do pai, do filho, do neto. Não tenho nenhum problema. É um problema dele. Afinal de contas, gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições no Brasil", disparou o presidente brasileiro. Essas declarações foram dadas ao mesmo tempo em que Donald Trump concedia a coletiva no G7.
Lula ainda sugeriu que os EUA poderiam aprender com a agilidade do sistema de votação eletrônica brasileiro, afirmando que cogita levar uma urna eletrônica para mostrar aos eleitores norte-americanos o funcionamento de uma eleição. Dias após o embate entre Lula e Trump no G7, o líder norte-americano chamou o brasileiro de "muito volátil" e disse não se importar com o petista.
Sinais de alerta
Fontes ligadas ao Planalto afirmam que o governo não descarta uma tentativa de interferência no processo eleitoral brasileiro por parte do presidente norte-americano. O apoio de Trump ao candidato colombiano Espriella ocorreu na mesma semana em que os Estados Unidos classificaram as facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. A situação teria acendido um possível sinal de alerta.
Essa classificação também ocorreu dias após o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ter visitado Donald Trump na Casa Branca, no final de maio. O anúncio da inclusão das facções na legislação norte-americana foi celebrado por Flávio, que à época definiu o momento como um "grande dia".
Uma das interpretações do Planalto a respeito dessa relação — entre o pré-candidato Flávio e Trump — foi a de que o presidente dos Estados Unidos agiu para resgatar um opositor político de Lula que perdia popularidade por causa do escândalo do vazamento do áudio em que Flávio Bolsonaro pedia R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, que pretende contar a história do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Aliados regionais
De acordo com a professora de relações internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Rejane Bressan, o apoio de Donald Trump ao candidato de oposição a Gustavo Petro mostra que os Estados Unidos querem aliados regionais na América do Sul.
"A política externa norte-americana tem buscado de maneira muito assertiva arregimentar aliados regionais através da polarização ideológica", disse. Para a especialista, há "muita analogia entre a Colômbia e o pleito brasileiro". "A recente projeção do Trump ao lado do Flávio Bolsonaro, somada à convergência discursiva entre os setores conservadores brasileiros e a atual administração dos Estados Unidos, a meu ver, vem sugerindo que o Brasil não está imune a essa lógica de interferência", argumentou.
IA nas eleições
O uso da inteligência artificial para produzir conteúdos nas redes sociais preocupa especialistas. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou, na semana passada, uma comissão permanente destinada a sistematizar iniciativas relacionadas ao uso de IA com foco no combate à desinformação e à disseminação de notícias falsas nas eleições.
O TSE também aprovou resoluções que proíbem o uso da IA para publicações e impulsionamentos pagos de conteúdos produzidos ou alterados por IA nas 72 horas antes do pleito — com primeiro turno previsto para 4 de outubro — e nas 24 horas depois das eleições.
Na avaliação de Deividi Lira, especialista em marketing político e organização de campanha eleitoral, as resoluções do TSE sobre o uso de IA nas eleições ainda carecem de informações.
"A efetividade dessa medida dependerá de uma atuação conjunta entre Justiça Eleitoral, plataformas digitais, equipes de monitoramento e denúncias feitas pelos próprios usuários ou por partidos políticos", argumentou.
