Em meio a uma pré-campanha ofuscada por críticas públicas da madrasta, Michelle Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Buenos Aires com o objetivo de retomar o controle da agenda política conservadora no Brasil e reposicionar a candidatura à Presidência da República em torno de temas considerados mais favoráveis ao seu projeto eleitoral.
A estratégia passa pela aproximação com o presidente argentino Javier Milei, hoje uma das principais referências da direita latino-americana. A visita à capital argentina marca o primeiro compromisso internacional de peso do senador desde o agravamento das tensões no núcleo bolsonarista e foi planejada para destacar pautas como economia, segurança pública e integração com governos alinhados ao conservadorismo.
Ontem (28/6), durante a abertura da Latin America Chairmen’s Conference, evento que reúne lideranças políticas, empresariais e representantes da comunidade judaica internacional, Flávio aproveitou o palco para traçar um panorama político da América do Sul e defender que o Brasil acompanhe o movimento observado em países governados por forças de direita.
“Falei na semana passada, na Marcha para Jesus: a partir de 2027, o Brasil voltará a ser irmão da Argentina mais do que nunca”, disse o senador.
Ao mencionar a ascensão de governos conservadores na região, o senador apresentou as eleições presidenciais brasileiras como um capítulo decisivo para a consolidação desse cenário. “Nós, os brasileiros, olhamos para esse mapa hoje com um pouco de inveja. Porque enquanto nossos vizinhos, um a um, elegem a liberdade e a ordem, o Brasil ainda continua preso ao passado. Nós somos a peça que falta nesse mapa”, afirmou.
Em outro momento, elevou o tom eleitoral ao projetar o resultado das eleições de outubro. “Venho aqui dizer, com todas as letras: em outubro isso muda. Em outubro, o Brasil entra nessa onda. O Brasil será o próximo”, declarou, sob aplausos da plateia.
A comparação entre Brasil e Argentina ocupou parte significativa de sua fala. Flávio lembrou que, durante décadas, a crise econômica argentina foi frequentemente utilizada como alerta no debate político brasileiro. Segundo ele, as medidas adotadas por Milei alteraram essa percepção.
“Vou confessar uma coisa: lá no Brasil, durante anos, a frase que mais ouvíamos era ‘cuidado, ou vamos terminar como a Argentina’. A Argentina era o nosso fantasma. O exemplo do que não se deve fazer. E então chegou Javier, cortou na própria carne do Estado, reduziu os ministérios pela metade, acabou com privilégios e equilibrou as contas”, disse.
Na sequência, voltou a criticar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). “Agora olhem o Brasil que o Lula está prestes a deixar. É o espelho invertido”, afirmou. Para o senador, a percepção dos brasileiros em relação ao país vizinho mudou nos últimos anos. “Hoje, no Brasil, em vez de termos medo de terminar como a Argentina do passado, passamos a ter esperança de terminar como vocês hoje.”
Relação bilateral
O encontro com Milei, previsto para esta segunda-feira (29) na Quinta de Olivos, residência oficial da Presidência argentina, é tratado por aliados como um dos pontos centrais da viagem. A expectativa é que a reunião produza imagens e declarações capazes de reforçar a narrativa construída pela campanha de que Flávio mantém interlocução direta com lideranças influentes do cenário internacional.
A agenda argentina dá continuidade a um movimento iniciado nos últimos meses. Em maio, Flávio esteve nos Estados Unidos, onde se reuniu com o presidente Donald Trump e integrantes do governo norte-americano. A viagem passou a ser explorada politicamente por seus aliados após a decisão das autoridades dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Não por acaso, o combate ao crime organizado também ganhou destaque no discurso feito em Buenos Aires. Flávio argumentou que facções criminosas ampliaram sua atuação para além das fronteiras nacionais e defendeu uma resposta coordenada entre os países da região.
“Há um mal que nenhuma prosperidade vai resolver sozinha, se não o enfrentarmos juntos. É o maior problema do nosso continente: a violência promovida pelos cartéis, que deixaram de ser facções locais e se transformaram em organizações transnacionais”, afirmou.
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Nos bastidores da campanha, a avaliação é que a agenda internacional oferece uma oportunidade para mudar o foco do debate político. Desde que Michelle Bolsonaro passou a divulgar vídeos com críticas e acusações direcionadas ao senador e a integrantes do entorno bolsonarista, a disputa interna dominou parte significativa das discussões entre apoiadores da direita e gerou desgaste para a pré-candidatura.
A aposta da equipe de Flávio é que a exposição ao lado de Milei e de outras lideranças conservadoras ajude a reconstruir uma narrativa centrada em propostas de governo e em temas de alcance nacional, reduzindo o espaço ocupado pelas controvérsias familiares e partidárias.
