
Poucas horas depois de a Casa Branca anunciar a aplicação de tarifas de 25% sobre milhares de produtos exportados pelo Brasil aos Estados Unidos, o Palácio do Planalto mobilizou o primeiro escalão da equipe econômica do governo para anunciar medidas de compensação aos setores mais atingidos e rebater as acusações de práticas desleais de comércio que embasaram a aplicação das taxas após investigação do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR). Para o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), "não há qualquer justificativa para medidas unilaterais" contra o Brasil.
Em longa entrevista à imprensa na sede do Mdic, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin; os ministros da Fazenda, Dario Durigan; das Relações Exteriores, Mauro Vieira; e do Meio Ambiente e Mudanças do Clima, João Paulo Capobianco; o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo; e o anfitrião Márcio Elias Rosa fizeram um balanço dos impactos esperados com o tarifaço e adiantaram medidas que devem ser adotadas para aliviar os prejuízos dos exportadores.
O tom político da reação brasileira foi dado pelo chanceler Mauro Vieira, que considerou a medida dos Estados Unidos "sem lastro com a realidade", motivada por interesses políticos. Ele lembrou que, desde março do ano passado, foram feitas mais de 30 reuniões entre os dois países — que começaram antes mesmo do anúncio do primeiro tarifaço, de 50%, em abril de 2025.
Para o ministro — que fez severas críticas às declarações do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio (leia mais na página 3) —, "o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas no curso das negociações".
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Em nota divulgada no início da noite dessa quinta-feira, o Mdic informou que o governo iniciará "imediatamente" os trâmites previstos na Lei de Reciprocidade como resposta ao tarifaço dos EUA. Internamente, porém, não está prevista a adoção de medidas nessa linha enquanto não se esgotarem as negociações diplomáticas e comerciais entre os dois países.
A Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso em abril do ano passado, autoriza o Poder Executivo a aplicar medidas de proteção comercial em resposta a ações unilaterais de países ou blocos econômicos que prejudiquem a competitividade internacional do país. "A Lei de Reciprocidade, aprovada na Câmara e no Senado, é uma possibilidade, e o governo saberá usá-la no momento adequado", frisou Alckmin.
"O presidente Lula nos dará orientação a respeito disso. Nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso, vamos seguir protegendo o Pix, o maior símbolo da nossa soberania financeira. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania, sem viralatice, e seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", reforçou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Em vez do confronto e da adoção de atos que possam ser interpretados como retaliatórios, o governo prefere manter os canais de diálogo abertos. Por isso, aposta em medidas internas para aliviar o impacto do tarifaço nos setores atingidos — principalmente na indústria, que pode enfrentar dificuldades para escoar a produção com a queda nas vendas para o mercado dos Estados Unidos.
A denúncia de ilegalidade do tarifaço sob a ótica dos acordos internacionais será levada aos organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio (OMC), no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias.
Linhas de crédito
O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, disse que o governo vai trabalhar para prestar auxílio e diversificar os mercados compradores aos setores incluídos na lista de taxação da Casa Branca. "Os setores mais atingidos, como de madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados e açúcar, poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes formas, e uma delas é apoiar a diversificação de mercados", informou.
Esses setores poderão acessar linhas de crédito para capital de giro e investimentos e terão ajuda dos órgãos de fomento às exportações para buscar novos mercados.
Segundo o ministro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) determinou que o apoio a esses segmentos seja a principal prioridade do governo neste momento. A área técnica do Midc estima que o tarifaço atinja diretamente 2,4 mil empresas, que respondem por 18% do total das exportações brasileiras ao mercado norte-americano — equivalente a US$ 7,4 bilhões (pouco mais de R$ 40 bilhões), segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao Mdic.
Uma das principais queixas do governo se refere ao fato de que as autoridades dos EUA ignoraram todas as respostas e explicações dadas pelos negociadores brasileiros em relação às acusações de práticas desleais de comércio.
Na quarta-feira, o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) confirmou que milhares de produtos serão sobretaxados em 25% por práticas comerciais consideradas desleais pelo governo Trump. O escritório incluiu na lista de atos passíveis de punição as regras brasileiras para comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico (como o Pix), tarifas preferenciais, proteção de propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e questões ambientais, como o desmatamento ilegal.
Brasil Soberano
Na entrevista coletiva, o ministro da Fazenda informou que haverá uma readequação do programa Brasil Soberano para que os setores afetados pelo tarifaço possam buscar socorro a prejuízos imediatos que, na ponta, podem representar desemprego. O programa, criado no ano passado como resposta ao primeiro tarifaço imposto pela administração Trump e retomado neste ano com a aprovação de uma medida provisória pelo Congresso Nacional, prevê uma série de ações emergenciais para proteger o setor produtivo de barreiras comerciais tarifárias e não tarifárias impostas por outros países aos produtos exportados pelo Brasil, decorrentes de "razões geopolíticas e de instabilidade internacional".
"Os setores afetados serão, mais uma vez, chamados ao diálogo, e nós ampliaremos e reforçaremos o Plano Brasil Soberano, que dá apoio a quem foi injustamente afetado", explicou Durigan. Ele ressalvou, porém, que a estabilidade macroeconômica "está e estará mantida a despeito da interferência externa dos Estados Unidos". Os recursos para o Novo Brasil Soberano ainda não foram definidos. Na MP aprovada pelo Congresso, foram disponibilizadas linhas de crédito de até R$ 15 bilhões para as empresas exportadoras afetadas.
Saiba Mais
Vinicius Doria
RepórterJornalista profissional graduado na UnB (1986), construiu carreira com passagem pelas principais redações da capital, como TV Globo, Band, EBC, Folha de S.Paulo, Valor Econômico e Correio Braziliense.

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