
O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, avaliou que, do ponto de vista jurídico, a classificação pelos Estados Unidos (EUA) das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas “não produz ganhos concretos para a cooperação internacional”.
Amorim apontou que a classificação pode gerar impactos financeiros e econômicos no Brasil, mas também ameaça a soberania do país ao possibilitar atuações militares no território brasileiro. “A definição norte-americana lhes permite atuar militarmente em outros países, é isso que não queremos, queremos defender nossa soberania”, afirmou.
A fala ocorreu durante audiência pública realizada nesta quarta-feira (12/8) na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados. Ele reiterou o compromisso do governo brasileiro com o combate firme ao crime organizado e que o tema é de competência nacional, não de outros países. “Não há qualquer complacência, tolerância ou relativização por parte do governo brasileiro em relação a essas facções e os atos por elas praticados. (...) Minha posição e do governo é em defesa de uma combate firme e implacável ao crime organizado é pública”, enfatizou.
Além da classificação e das tarifas anunciadas pelos norte-americanos, Amorim também apontou o vídeo publicado pelo Departamento de Estados dos EUA nas redes sociais como uma tentativa de “relativizar a soberania dos países latino-americanos”. A legenda da postagem diz que “a dominância americana no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionada”.
Amorim avaliou que é uma “grande novidade” na diplomacia a centralidade dada ao “Hemisfério Ocidental”.
Cooperação internacional
O assessor especial afirmou, ainda, que há uma “opacidade total dos norte-americanos para uma conversa” e que o secretário de Estado dos EUA tem reafirmado “uma hegemonia sobre a América Latina”. “Isso nós não queremos, queremos cooperar com países independentes e que tem capacidade de negociar com várias partes do mundo”, defendeu.
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Ele reiterou que a cooperação internacional é possível entre países soberanos e que o Brasil está aberto a investimentos compatíveis com os seus interesses e independência. “Combatendo os erros nós mesmos e não pedindo para um estrangeiro vir aqui combater”, disse.
Amorim relembrou que o Brasil manteve, por anos, boas relações com os EUA, mas as decisões iniciadas no último ano — tarifaços, retaliações e classificações — “suscitaram preocupações sobre a perspectiva de soberania nacional e da condução das relações diplomáticas”. Ele apontou que tal comportamento deve ser analisado diante do contexto de tentativa dos EUA de pressionar as instituições e interferir em assuntos internos do Brasil.
Para ele, as decisões são fundamentadas em elementos que extrapolam o campo comercial, como o ataque ao Pix, ao Supremo Tribunal Federal (STF) e à autoridade brasileira de estabelecer normas para coibir crimes digitais. Diante desse cenário, reiterou que o governo Lula sempre manteve o diálogo aberto com os EUA e que as diferenças partidárias e de orientação política jamais sobrepuseram os interesses permanentes dos povos brasileiros e norte-americanos.

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