
O Instituto Vladimir Herzog (IVH), encaminhou ao secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, uma carta alertando para a ingerência do governo dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro de 2026. O documento, datado de 17 de setembro, afirma haver riscos de pressão sobre instituições nacionais e de eventual contestação do resultado das urnas pela Casa Branca. O relato soma-se à advertência emitida pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), que veio à tona sábado, de que são vários os sintomas da interferência norte-americana no pleito de outubro. A Abin, aliás, foi veemente ao chamar a atenção do Palácio do Planalto, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do Ministério da Justiça e Segurança Pública para movimentações que classificou como "críticas".
O documento elaborado pelo IVH lista decisões e tentativas do governo do presidente Donald Trump que são entendidas como a preparação da interferência na corrida presidencial brasileira. O relato destaca que mesmo dentro dos EUA tais movimentações relacionadas ao Brasil estão explícitas.
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"A preocupação também existe dentro dos próprios Estados Unidos. Em dezembro de 2025, Linda Sánchez e Adriano Espaillat, acompanhados por outros 48 deputados democratas, enviaram carta ao presidente Trump condenando o que classificaram como ataques à democracia brasileira e o uso de instrumentos de política externa contra o país. Posteriormente, parlamentares democratas voltaram a alertar publicamente para possíveis tentativas de desacreditar as eleições brasileiras", observa o documento do IVH.
Segundo a carta encaminhada a Guterres, são sinais de tentativa de interferir na política interna brasileira episódios como a tentativa de fazer com que "dissidentes políticos" participassem das próximas eleições — conforme rol de exigências que também foi trazido a público na semana passada — e, também, reuniões no Consulado norte-americano, em São Paulo, com influenciadores de direita brasileiros para, supostamente, debater liberdade de expressão e controle das redes sociais. Outro movimento de pressão, que está, segundo o IVH, relacionado a tentar influenciar na corrida presidencial, é a classificação das facções criminosas Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como terroristas — o que abre a possibiidade de os EUA realizarem ações militares em solo nacional sob o pretexto de combatê-las.
Posição central
Porém, o IVH vai mais longe. Menciona mudanças na política dos EUA para a América Latina e afirma que o Brasil ocupa posição central no cenário global em razão de seu peso econômico e político, de suas relações com a China, de recursos estratégicos e da influência no chamado Sul Global. Na avaliação apresentada ao secretário-geral da ONU, a combinação de pressão econômica, ameaça de sanções, interlocução com atores políticos brasileiros, questionamentos às instituições eleitorais e judiciais e uso de instrumentos de segurança poderiam tumultuar o ambiente eleitoral.
Todo esse quadro, na visão do IVH, aumenta o temor de que, em caso de resultado contrário à expectativa daquilo que a Casa Branca sinaliza ser de seu interesse — a derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva —, haveria na sequência uma campanha que envolve alegações de fraude nas urnas e deslegitimação das instituições. Isso desembocaria em eventual não reconhecimento do resultado por parte de Washington.
"Existe um risco que precisa ser considerado seriamente: que essas ferramentas sejam utilizadas para influenciar o ambiente eleitoral brasileiro em benefício de atores politicamente alinhados à administração estadunidense e que, caso o resultado das urnas seja contrário a essa expectativa, a estratégia se desloque para uma segunda etapa — a alegação de fraude, a deslegitimação das instituições e o eventual não reconhecimento do resultado. O não reconhecimento internacional é particularmente perigoso", frisa o documento remetido a Guterres.
O IVH reconhece que as Nações Unidas não têm o poder de determinar ao governo norte-americano que aceite a eventual reeleição de Lula. Mas solicita que a instituição mova uma campanha no sentido de que os países reconheçam imediatamente o resultado oficialmente proclamado pela Justiça Eleitoral.
"A experiência de 2022 mostrou que o reconhecimento internacional rápido contribuiu para reduzir o espaço político das narrativas de fraude e de ruptura institucional. Em 2026, o silêncio, a hesitação ou o questionamento coordenado do resultado por governos estrangeiros podem produzir o efeito inverso: alimentar redes de desinformação, oferecer legitimidade externa à contestação interna e prolongar artificialmente um conflito eleitoral", salienta.
A preservação da autonomia das missões internacionais de observação eleitoral no Brasil é outro ponto abordado pelo relato do IVH a Guterres. De acordo com a carta, sete organizações internacionais acompanharão o pleito brasileiro — OEA, União Europeia, Parlamento do Mercosul, Rede dos Órgãos Jurisdicionais e de Administração Eleitoral dos Países de Língua Portuguesa, União Interamericana de Organismos Eleitorais, Liga dos Estados Árabes e Carter Center — e devem estar blindadas contra qualquer tentaiva de ingerência.
Em paralelo a isso, Lula viajou ontem para Nova York, onde, amanhã, abre a Assembleia-Geral das Nações Unidas. Fontes do Palácio do Planalto asseguram que, no discurso de abertura, falará da soberania brasileira e de que nenhuma interferência em assuntos internos será aceita. Porém, à luz das advertências da Abin e do IVH, há a possibilidade de que ele faça uma taxativa defesa do processo eleitoral brasileiro.
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