
Aos 80 anos e recuperado de um câncer nos linfócitos, o ex-ministro José Dirceu retoma à política para tentar, nas eleições de outubro, um mandato na Câmara dos Deputados — decisão que, segundo ele, nasceu de uma conversa direta com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a renovação do PT. O ex-ministro da Casa Civil do primeiro mandato do petista repercutiu o discurso do presidente, ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas e destacou a defesa de bandeiras como soberania nacional e autonomia sobre os minerais críticos, apesar das pressões comerciais com os Estados Unidos. Fala ainda do cenário eleitoral polarizado, da crise no Supremo Tribunal Federal (STF) e da recuperação da doença, diagnosticada em maio deste ano. Leia entrevista ao Correio a seguir.
O senhor retoma agora a campanha para deputado federal por São Paulo. Longe da política formalmente há 20 anos, por que pretende voltar como deputado?
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Há quase um ano, tive uma reunião com o presidente Lula sobre a renovação da direção do PT, e ali surgiu o convite — feito por ele e pelo Edinho (Silva, presidente do PT) — para voltar à direção do partido. Conversamos sobre a reeleição, em 2026, e sobre a necessidade de unir lideranças jovens a nomes com experiência de governo e de Parlamento. Esse diálogo desembocou no convite para a candidatura a deputado federal por São Paulo. Aceitei dentro de uma estratégia que reúne outros nomes, como Alencar Santana, Luna Zarattini, João Paulo Cunha, Nabil Bonduki e Moisés Selerges, a ideia é levar de volta à Câmara ex-deputados com experiência e, ao mesmo tempo, renovar o PT com lideranças jovens.
Além de concorrer a um cargo no Legislativo, o senhor vai reforçar a campanha de Lula e de Fernando Haddad (postulante ao governo de São Paulo). No âmbito nacional, como será sua atuação nesses próximos 15 dias?
Descobri um linfoma em 10 de maio e o tratamento só terminou em 4 de setembro. Então, minha participação física na campanha tem sido limitada. Tenho atuado junto às campanhas de Lula, do Haddad, da Simone Tebet e da Marina Silva (candidatas ao Senado por São Paulo pelo PSB e pelo PT, respectivamente), além dos candidatos legislativos em São Paulo, de forma virtual — pelas redes sociais e por videoconferência —, mantendo diálogo constante com a coordenação. Avalio que essa é uma eleição extremamente equilibrada, repetindo a tendência de 2014, 2018 e 2022. Mas formamos uma coalizão ampla — PT, PCdoB, PV, PSol, Rede, PSB, PDT, com apoios no MDB e no PSD — e temos alianças fortes no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná. Confio na vitória, com base no desempenho no Nordeste, no equilíbrio no Sudeste e na força da militância na reta final.
Como avalia as últimas composições da Câmara dos Deputados e por que o Legislativo tem dado guinadas à direita?
Essa guinada tem raiz em 2013, no julgamento da Ação Penal 470, que atingiu dirigentes e ministros do PT, e na Lava-Jato, que classifico como um processo de repressão política e jurídica contra o partido. Isso restringiu a atuação pública da esquerda em eleições como as de 2016 e 2020, e abriu espaço para o crescimento da direita. Some-se a isso um fenômeno global de fortalecimento da extrema-direita, puxado por fatores culturais, sociais e pela organização de parte das igrejas pentecostais. Mesmo assim, o PT manteve sua força como alternativa de governo. A votação de 2018 e a vitória de 2022 mostram isso.
O senhor chegará na campanha num momento em que as pesquisas mostram um empate técnico entre Lula e Flávio Bolsonaro. Por que Lula perdeu liderança a ponto de ter esse empate?
Esse equilíbrio, esse empate reflete o peso histórico da direita no Brasil. Desde 1960, a direita elegeu presidentes ou impôs regimes indiretos, e o governo anterior ao de Lula promoveu uma tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023 e um desmonte amplo do aparato estatal e social do país. Quando assumiu, em 2023, o Lula teve que reconstruir ministérios sucateados — Saúde, Educação, Cultura — e reestruturar a máquina administrativa, mantendo, ao mesmo tempo, o crescimento econômico, a queda do desemprego, o controle da inflação e a estabilidade democrática. Esse empate técnico é parte dessa fase de transição, enquanto apresentamos projetos de futuro, como a Nova Indústria Brasil, o PAC e a transição energética.
O senhor chegará num momento de crise entre no Supremo Tribunal Federal e a profunda animosidade entre ministros da Corte. O que acha das ações do presidente Lula diante
desse cenário?
O papel do presidente é buscar uma saída institucional e preservar a democracia, sem tomar partido em questões internas da Corte. Defendo a reforma do Judiciário há tempos. Isso foi reafirmado em pronunciamentos e seminários do PT. É urgente investigar qualquer indício ou denúncia contra membros do STF, mas isso cabe ao próprio tribunal, por investigação interna, e ao Senado, que tem a competência para julgar e processar ministros — sempre respeitando o devido processo legal e a presunção de inocência.
Dias antes de falar em "investigações doa a quem doer", Lula se reuniu com os ministros Gilmar Mendes e Edson Fachin. Essa interlocução prejudica de alguma forma a imagem dele?
Reuniões do presidente com ministros do STF fazem parte das atribuições dele como chefe de Estado, na busca por soluções institucionais. Não vejo isso como um problema de imagem.
Lula discursou, ontem, na Assembleia Geral das Nações Unidas, num tom de defesa do multilateralismo e com recados ao presidente norte-americano Donald Trump. Isso pode ensejar uma reunião entre os dois para negociar o tarifaço?
Uma reunião entre os dois presidentes depende das diplomacias, e o governo Trump é imprevisível — ele tem causado litígios e tentado interferir em assuntos internos brasileiros. Mas o discurso do Lula na Assembleia Geral foi histórico: focou na paz mundial, na reforma do Conselho de Segurança, no combate à pobreza, no controle das big techs e na defesa da soberania sobre nossos minerais e recursos naturais. É uma resposta direta à tentativa americana de reduzir o Brasil a mero fornecedor de matéria-prima sem industrialização — nosso programa de reindustrialização aposta em tecnologia, robótica, inteligência artificial e agregação de valor aos minerais críticos e às fontes de energia, para gerar empregos qualificados.
O Palácio do Planalto suspeita de interferência norte-americana na eleição presidencial com o apoio ao candidato de oposição Flávio Bolsonaro. Como o senhor vê isso?
Qualquer interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira é indevida e repudiável. Há opositores conspirando no exterior para promover sanções ao STF e questionar o nosso sistema democrático. E rejeito a narrativa externa de que o governo é inerte diante do crime organizado. Aprovamos a lei das facções criminosas e a lei do perdimento de bens; apreendemos patrimônio financeiro de facções; e temos contido o contrabando de armas vindas dos EUA.
Lula sancionou leis sobre data centers e minerais críticos. Qual o recado que o Brasil manda à Casa Branca?
Essas leis alinham o Brasil às políticas de soberania e subsídio industrial que os próprios Estados Unidos e a Europa adotam. A ideia é impulsionar a reindustrialização do país, atender à demanda da juventude por empregos qualificados e de maior renda, e dar continuidade ao histórico de desenvolvimento econômico nacional.
O senhor foi diagnosticado com câncer durante exames de rotina. Como tem sido esse processo desde então?
Isso mostra a importância do SUS (Sistema Único de Saúde) na prevenção e no diagnóstico precoce de doenças para a população. Eu já tinha tido um diagnóstico nos rins em 2021, e em maio deste ano veio o linfoma. Fiz o tratamento quimioterápico e tive cura. Contei com o suporte fundamental da minha família, da militância do PT e do trabalho das equipes de saúde da rede hospitalar.
Liberado do tratamento, como fica sua rotina e como alinhá-la com a campanha?
Minha recuperação foi rápida por causa de hábitos regrados — exercício físico regular e alimentação saudável ao longo da vida. Depois de quatro meses de quimioterapia e uma internação breve, em setembro, por baixa imunidade e infecção, o quadro evoluiu para recuperação plena. Tenho exames agendados, previsão de retorno parcial às atividades em outubro e rotina normal em novembro. Até lá, sigo o trabalho eleitoral de forma virtual, com o apoio direto da militância, das lideranças do PT e do próprio Lula.
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