
A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha para evitar um desembarque em bloco do Centrão no palanque de Flávio Bolsonaro (PL) em um eventual segundo turno. Diante da avaliação de que será difícil impedir uma aproximação das cúpulas partidárias com o senador, a estratégia passou a mirar dissidências nos estados e lideranças que mantêm interlocução com o Palácio do Planalto.
Nesse movimento, entram no radar nomes como os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), além dos respectivos grupos políticos. O cálculo é de que, mesmo diante de uma eventual adesão formal de partidos a Flávio, ainda haverá espaço para construir apoios regionais ou, ao menos, manter parte dessas forças distante da campanha adversária.
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Ao Correio, aliados de Lula reconhecem que o cenário se tornou mais difícil com o crescimento de Flávio nas pesquisas. Levantamentos recentes mostram uma disputa apertada entre os dois em uma eventual segunda etapa da eleição. Pesquisa Quaest divulgada no domingo, por exemplo, apontou diferença de apenas um ponto percentual entre os candidatos, dentro da margem de erro. O BTG/Nexus também registrou distância de um ponto, mas com Lula numericamente à frente.
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O avanço de Flávio alterou a percepção de dirigentes do Centrão que, no primeiro turno, preferiram manter distância da disputa presidencial. Lideranças do bloco já discutem a possibilidade de apoiar o senador caso ele avance à segunda etapa. A federação formada por União Brasil e PP está entre as forças observadas nessa dinâmica.
Integrantes da campanha de Lula admitem, porém, que movimentos do próprio presidente também provocaram ruídos com interlocutores que poderiam funcionar como uma barreira à migração do bloco. O principal exemplo citado nos bastidores é Ciro Nogueira (PP-PI), presidente nacional do PP e candidato à reeleição ao Senado.
Apesar de ter comandado a Casa Civil no governo Jair Bolsonaro, Ciro atuou para que seu partido permanecesse neutro na primeira etapa da disputa presidencial. A posição também atendia à realidade eleitoral do Piauí, onde Lula mantém forte capital político. Segundo o Datafolha, o petista tem 59% das intenções de voto no estado, contra 20% de Flávio. Em um eventual segundo turno, o placar é de 67% a 27%.
A relação entre Lula e Ciro, entretanto, sofreu um novo desgaste durante uma passagem do presidente por Teresina. Ao reforçar o apoio a Júlio César (PSD) e Marcelo Castro (MDB) para as duas vagas ao Senado, o chefe do Planalto afirmou que não aceita "vira-lata" ao seu lado. A declaração foi interpretada no meio político como uma referência ao dirigente do PP.
"Quero que vocês saibam: eu não tenho outro candidato ao Senado. Os meus senadores são o Júlio César e o Marcelo Castro. Para que a gente demonstre de uma vez por todas que não aceita vira-lata do nosso lado. Nós queremos gente do bem", disse Lula.
A disputa no Piauí ajuda a explicar a cautela adotada anteriormente por Ciro. Pesquisa Datafolha mostra o senador com 17%, empatado numericamente com Marcelo Castro e tecnicamente com Júlio César, que aparece com 15%. O governador Rafael Fonteles (PT), por sua vez, lidera a corrida pela reeleição com 55%, contra 25% de Joel Rodrigues (PP).
Aliados de Ciro consideraram a fala do presidente uma quebra do chamado "pacto de não agressão" discutido entre os dois campos. O entendimento entrou nas conversas que contribuíram para a neutralidade da federação União Brasil-PP no primeiro turno, segundo interlocutores envolvidos nas negociações. O PT nega oficialmente a existência do acordo.
Agora, a tarefa de reduzir perdas está nas mãos de integrantes da articulação política de Lula. Presidente do PT e coordenador-geral da campanha, Edinho Silva participou das conversas com setores do Centrão e mantém interlocução com Ciro. O ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, também é apontado como um dos responsáveis por preservar essas pontes.
A avaliação no entorno de Lula é de que impedir uma adesão formal de algumas legendas pode ser difícil. Por isso, a operação se concentra nos estados: buscar governadores, prefeitos, parlamentares e caciques regionais dispostos a permanecer neutros ou caminhar com o presidente.
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