A Polícia Federal desmentiu, ao site Aos Fatos, a autoria de um suposto relatório que circulou nas redes sociais nesta quinta-feira (3/9) e que teria concluído pela inexistência de indícios de crimes nas conversas entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
A corporação informou que não produziu nem a imagem nem o texto apresentados como parte de um relatório oficial, que chegou a ser republicado pelo próprio deputado, mas foi posteriormente apagado. A montagem passou a circular poucas horas depois de o ICL Notícias publicar áudios e mensagens trocados entre Nikolas e Vorcaro.
Na manhã desta quinta-feira (4/9), ainda era possível ver a publicação nos stories do deputado, no Instagram.
O que aparece no documento falso
A imagem tenta reproduzir uma página de um relatório relacionado à Operação Compliance Zero, com referências à extração de dados do celular de Vorcaro, ao período analisado e à Diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado da Polícia Federal.
O texto atribuído à corporação apresenta as conversas entre o banqueiro e Nikolas como contatos de natureza pessoal e profissional. Também menciona manifestações públicas do deputado relacionadas ao Banco Master e ao Fórum de Londres, além de um pedido para que Vorcaro intermediasse uma demanda envolvendo um ex-assessor.
A conclusão da suposta análise seria de que as mensagens não apresentariam elementos suficientes para caracterizar crime ou justificar a abertura de uma investigação específica contra o deputado.
O documento, porém, contém uma série de inconsistências. Entre elas está a reprodução incorreta das próprias mensagens atribuídas a Nikolas, com datas diferentes das apresentadas nas reportagens do ICL Notícias.
A estrutura da página também apresenta uma sequência irregular de tópicos, que passa do item 7 diretamente para o 7.3, além de erros de português, como a expressão “contato salvado”.
O material ainda traz características incompatíveis com documentos oficiais da Polícia Federal, incluindo emojis e a denominação “Relatório de Análise de Dados”. O emblema da corporação reproduzido na imagem também apresenta diferenças em relação ao símbolo oficial, tanto no desenho das fitas quanto na representação do acento da palavra “Polícia”.
Outro ponto que chamou a atenção está nas datas. A imagem informa 18 de novembro de 2025 como data de produção e extração dos dados, justamente o dia em que Vorcaro foi preso pela Polícia Federal, segundo as informações apresentadas no material.
Documento apresenta sinais de uso de inteligência artificial
Além das falhas no conteúdo e na aparência, uma análise realizada por uma ferramenta da OpenAI identificou a presença de SynthID no arquivo. A tecnologia é utilizada para marcar conteúdos produzidos ou modificados por sistemas de inteligência artificial.
A OpenAI confirmou ao Aos Fatos que a identificação do SynthID indica que o arquivo passou por algum processo de geração ou edição com recursos de inteligência artificial. A ferramenta, contudo, não encontrou credenciais de conteúdo C2PA confiáveis da OpenAI.
A presença da marca de IA não é, isoladamente, uma prova sobre quem produziu o material. No entanto, quando considerada junto às inconsistências textuais, gráficas e cronológicas encontradas na imagem, reforça a conclusão de que o suposto relatório não foi elaborado pela Polícia Federal.
Falsificação surgiu após novas revelações sobre Nikolas e Vorcaro
A circulação do documento ocorreu no mesmo dia em que o ICL Notícias divulgou áudios nos quais Nikolas pede ajuda a Vorcaro para liberar um ativo minerário para um assessor e afirma querer “ter mais proximidade” com o banqueiro. O deputado negou que as conversas indiquem qualquer irregularidade.
Em uma das mensagens reveladas, enviada em março de 2025, Nikolas solicita auxílio de Vorcaro para a liberação de “um ativo de minério”. Em outro diálogo, o banqueiro afirma que “[bancou todos os voos”] de Nikolas.
Nikolas apaga publicação
Ao Correio, a assessoria de Nikolas Ferreira afirmou que o deputado apenas republicou o conteúdo depois que ele havia sido divulgado por um portal. Segundo a equipe, Nikolas apagou a publicação assim que tomou conhecimento de que o material era falso.
“O falso relatório foi postado em um portal. Nikolas republicou o conteúdo através de um portal, depois que descobriu que o conteúdo era falso, ele deletou.”
A falsificação de documentos públicos pode gerar responsabilização criminal. Pelo Código Penal, quem falsifica, total ou parcialmente, documento público está sujeito a pena de dois a seis anos de reclusão, além de multa.
