caso Master

Entenda como Vorcaro tinha acesso a dados sigilosos de órgãos públicos

PF mostra que "Sicário", o chefe da "Turma", entrava em sistemas públicos para dono do Master — que, assim, antecipava movimentos

Relatório da Polícia Federal, cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), na quinta-feira, aponta que funcionários de confiança de Daniel Vorcaro utilizavam, de forma recorrente, a credencial de servidores para acessar sistemas restritos do Ministério Público Federal. O acesso a documentos do MPF é parte do esquema de corrupção e intimidação do dono do Banco Master para alcançar seus objetivos. Isso reforça a suspeita da PF de cooptação de funcionários de órgãos públicos para o vazamento de informações sob sigilo ou o acesso por meio de hackeamento, o que permitiria ao ex-banqueiro se antecipar a decisões e se inteirar de investigações.

Prova disso é que arquivos anexados ao relatório, e compartilhados por Luiz Phillipi Mourão — o "Sicário", que suicidou-se na Delegacia da Polícia Federal (PF), em Belo Horizonte, horas depois de ser preso —, foram obtidos pelo login de uma servidora do Ministério Público da União. O documento da PF destaca a utilização da credencial da funcionária pública para consultas de processos, inclusive restritos.

Em uma das consultas, em 23 de julho de 2024, "Sicário" utilizou o CPF de Vorcaro como parâmetro para pesquisar os sistemas do MPF. Foram localizados 15 procedimentos relacionados ao dono do Master, sendo 11 deles classificados como sigilosos. O registro da consulta, no entanto, aparece associado ao outro servidor da instituição, lotado na Secretaria de Registros da 4ª Região.

As investigações também reuniram mensagens trocadas entre "Sicário" e Vorcaro. Em 21 de junho de 2024, o chefe da "Turma" — grupo pago pelo ex-banqueiro para acessar sistemas ilegalmente, hackear e intimidar desafetos — afirmou ao ex-banqueiro que poderia realizar consultas sobre pessoas ou empresas indicadas por ele.

"Se tiver mais alguma informação pra complementar, de algum nome ou empresa ou pessoa que eu não saiba, me avise e me mande para puxar", escreveu.

Na sequência, "Sicário" afirmou ter acesso aos sistemas do MPF. "Me dá um update, se quer alguma coisa. Para puxar o que precisar, estamos com acesso total e ilimitado lá. Só não sei até quando", disse.

Em outro diálogo, ao tentar acessar um expediente reservado no sistema único do MPF, afirmou, inicialmente, que não conseguia visualizar o conteúdo porque o procedimento estava sob sigilo máximo. "Não deixam, somente a unidade deles. Colocaram sigilo máximo", escreveu.

O MPF afirmou que foi informado pela PF, em 2025, sobre o possível uso indevido de credenciais de servidores do órgão por investigados no Caso Master. O Ministério Público realizou uma apuração interna e concluiu que a servidora cuja credencial foi utilizada por "Sicário" e "A Turma" foi vítima de "phishing" (golpe digital no qual criminosos se passam por empresas confiáveis, bancos ou órgãos do governo para furtar senhas, dados de cartões de crédito e informações pessoais). Diz também que foram tomadas todas as providências necessárias para bloquear acessos indevidos e evitar novos ataques.

A investigação da PF aponta que o mesmo método teria permitido acessos a sistemas da PF e do MPF, além de bases de dados de organismos como FBI (a Polícia Federal dos Estados Unidos) e a Interpol.

Consultas

Em 1º de setembro, o ministro Mendonça retirou o sigilo de um relatório da PF no qual expunha supostos diálogos entre o também ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro. No documento, o ex-banqueiro pedia a intervenção do magistrado para tentar salvar o Master e afirma que havia manobras, que estariam acontecendo no Banco Central (BC), para sepultar o Master. É nesse mesmo documento que ele indaga, supostamente a Moraes, se deveria fugir do país.

No documento cujo sigilo foi levantado por Mendonça ontem, a PF inclui uma nota encontrada no celular de Vorcaro na qual ele relata pressões sobre o BC e pede a um interlocutor que interceda junto às cúpulas da PF e do MPF.

Valdo Virgo - POL-Esquema Vorcaro

A anotação foi registrada no aplicativo "Notas" do celular de Vorcaro, em 30 de outubro de 2025. Segundo análise da PF, ele escreveu o texto enquanto se preparava para viajar a Abu Dhabi, onde pretendia se encontrar com o interlocutor mencionado no registro.

Na nota, Vorcaro afirma ter recebido informações confidenciais de integrantes do BC de que "G" — provavelmente referência ao presidente da instituição, Gabriel Galípolo, segundo a PF — e os demais diretores da autoridade monetária estariam novamente sob pressão para adotar alguma medida contra ele.

Na mensagem, Vorcaro determina ao interlocutor que converse com "Andrei" e com "Paulo" para evitar ações de integrantes da PF e do MPF. Na análise, "Andrei" é uma provável referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral da corporação, enquanto "Paulo" seria, provavelmente, o procurador-geral da República Paulo Gonet. "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguem de baixo fazer uma sacanagem que, aí, vai tudo pro saco", diz Vorcaro no registro.

A última nota de interesse, segundo a PF, em relação ao monitoramento de autoridades, foi criada em 16/11/2025, às 15h51, véspera da prisão do ex-banqueiro. Nela, o dono do Master questiona o interlocutor se teria proximidade com o juiz federal Ricardo Leite, da 10ª Vara Criminal Federal do Distrito Federal, responsável por deferir as buscas contra ele e decretar sua prisão preventiva, no âmbito da Operação Compliance Zero.

"Voces são próximos? Ricardo Soares Leite, 10 vara criminal federal", anotou. O documento da PF afirma, ainda, que "Sicário" recebia R$ 1 milhão mensais por meio da empresa Super Empreendimentos e Participações S.A., vinculada a Fabiano Zettel, pastor de um dos braços da Igreja Lagoinha e cunhado do dono do Master.

A investigação também aponta que Vorcaro teria seguido atuando no meio digital mesmo depois de preso. Ele poderia, inclusive derrubar contas de redes sociais que fossem desfavoráveis a seu grupo e o faria com "aparente facilidade".

Em janeiro, um levantamento da PF mostrou uma série de postagens que tentou colocar em xeque a credibilidade de órgãos públicos e privados, como o BC e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) em relação à operação de liquidação extrajudicial do Master, decretada em novembro pela autoridade monetária e que estava sob o escrutínio do Tribunal de Contas da União. Inclusive, em dezembro de 2025, o ministro Jhonatan de Jesus abriu um procedimento, no TCU, que pretendia investigar a operação de liquidação do Master pelo Banco Central.

A PF avalia que usar as redes para influenciar o debate para seus interesses era um modus operandi de Vorcaro. "Dessa forma, mantendo sempre o modus operandi, Daniel Bueno Vorcaro valia-se desse artifício para influenciar a opinião pública e reforçar a percepção de que ele e seu banco possuíam uma reputação constantemente positiva", completam.

Festa na boate

Informações extraídas pela PF dos celulares de Vorcaro indicam que o banqueiro utilizou mulheres para agradar autoridades e empresários em festas particulares de luxo. Segundo os diálogos, a estratégia incluiu garotas de programa, shows de cantores e DJs e bebidas alcoólicas.

Há registros de festas numa embarcação em Angra e outras organizadas em boate em São Paulo. Imagens divulgadas nas redes sociais mostram como era uma dessas festas na capital paulista. Ao menos uma delas, com temática de Halloween, teria ocorrido na boate Madame Satã, no bairro Bela Vista, em São Paulo, em outubro de 2023.

Artistas de música eletrônica conhecidos, como Solomun, DJ Ninja, DJ Vintage e Swedish H. Mafia se apresentaram das 20h30 até as 7h do dia seguinte. Registro da festas do banqueiro foram noticiados pelo site Fatos Online e detalhados pela revista Piauí.

Entre as autoridades convidadas, estava o ex-ministro das Comunicações no governo Bolsonaro, Fábio Faria. O empresário confirmou à Piauí ter distribuído convites para a ocasião "A pedido do anfitrião, transmitiu convites a amigos em comum para um evento privado. Sua participação se limitou a isso", afirmou, em nota à publicação. Caberia a ele ainda a seleção dos convidados, de acordo com relatório da PF. Procurado, não quis se manifestar. A casa de festas publicou nota em que afirma ter locado o espaço a uma agência e que não teve contato com Vorcaro.

Na época em que a festa ocorreu, registros da noite se espalharam pelas redes sociais. Internautas se espantaram com a opulência do evento, com presença de artistas renomados e para o qual foi fechada uma das casas de festas mais famosas da capital paulista. O evento teria contado com a presença de mulheres suíças, em outubro de 2023.

A PF também apurou que o dono do Master seria proprietário de uma residência na Ilha do Jorge em Angra dos Reis (RJ). No local, Vorcaro promoveria eventos em barco de alto padrão, com garotas de programa agenciadas e personalidades.

As primeiras festas privadas de Vorcaro vieram à tona em novembro passado, quando a divulgação da primeira leva de mensagens do celular dele mostrou a realização do "Cine Trancoso", na mansão dele na cidade baiana. O apelido se deu por conta do circuito interno de câmeras que teria gravado imagens de autoridades e de figuras públicas. (Com Agência Estado)

 

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