O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira (24/9) que os recursos utilizados no exterior para financiar o filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro, apresentam fortes indícios de ter passado pela mesma estrutura de lavagem de dinheiro utilizada por organizações criminosas no Brasil.
Segundo Durigan, a empresa de investimentos Entre Investimentos funcionava como uma central de liquidez na qual eram misturados recursos atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC), a usinas sucroalcooleiras clandestinas e a esquemas de adulteração de combustíveis com recursos do sistema financeiro formal.
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“Tudo indica que o recurso que dá liquidez para essas operações vem de uma mesma entidade, de um mesmo bolso”, afirmou Durigan durante declaração à imprensa. “Se você tem dinheiro do PCC, dinheiro de usina do crime organizado, de distribuidora de combustível do crime organizado no mesmo bolso, no mesmo fundo, é um trabalho de investigação identificar o que saiu desse fundo”, acrescentou.
A declaração foi dada durante o detalhamento da terceira fase da Operação Carbono Oculto, denominada Crédito Oculto. A operação é realizada pelo Grupo Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo, Receita Federal, Polícia Federal e Ministério Público Federal.
Nesta etapa, os investigadores apuram um esquema de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial que teria movimentado R$ 11,6 bilhões por meio de fundos e instituições financeiras. São cumpridos 29 mandados de busca e apreensão em seis Estados — Rio de Janeiro, Santa Catarina, Goiás, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e Espírito Santo — contra 13 pessoas físicas e 24 jurídicas.
Entre os principais alvos estão Humberto Arthur Tupinambá Neto, ex-diretor do Banco Genial, e seus irmãos, André e Bruno Tupinambá, além de Antonio Carlos Freixo Junior, proprietário da Entre Investimentos e delator em apurações relacionadas ao Banco Master.
“Lavanderia do sistema financeiro”
Segundo Durigan, a investigação aponta para uma mudança na atuação das organizações criminosas, que passaram a utilizar estruturas do sistema financeiro tradicional para ocultar patrimônio e lavar recursos. “Nós estamos olhando para o andar de cima e para o envolvimento de estruturas importantes do sistema financeiro que contribuem e acabam funcionando como instrumentos do crime organizado para ocultar patrimônio e lavar dinheiro”, afirmou.
Ao detalhar as conexões investigadas, o titular da Fazenda disse que a Entre Investimentos recebeu recursos de diferentes origens. “Nós estamos falando de uma administradora, de um grupo empresarial que é o grupo Entre, que recebia dinheiro tanto do grupo do Master quanto do crime organizado e dentro de um mesmo bolso. Esse recurso foi utilizado para ocultar patrimônio, para lavar dinheiro, para corromper”, ressaltou.
A investigação aponta que fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs), fundos multimercados e fintechs eram utilizados como “contas de passagem” ou “contas bolsão”. Em um dos episódios identificados pelos investigadores, R$ 100 milhões teriam circulado por múltiplas camadas societárias em poucos minutos. O objetivo seria ocultar o verdadeiro controle de uma usina sucroalcooleira e viabilizar a compra de uma das maiores distribuidoras de combustíveis do país, gerando concorrência desleal no mercado.
Durigan afirmou ainda que a Receita Federal passou a utilizar ferramentas de inteligência artificial para automatizar o rastreamento de movimentações consideradas atípicas, no trabalho de acompanhamento do fluxo financeiro, conhecido como follow the money. O Ministério da Fazenda e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo o ministro, também revisam regras de regulação do mercado de capitais e dos fundos de investimento para reduzir brechas utilizadas pelo crime organizado.
