ELEIÇÕES 2026

O peso da herança: conheça os 'nepobabies' da eleição de 2026

Filhos, netos e bisnetos utilizam a força e o reconhecimento dos sobrenomes para largar à frente no pleito de 2026

Com candidatos à Presidência, ao Senado e à Câmara, a família Bolsonaro utiliza a identidade política do patriarca como vetor central na campanha de 2026 -  (crédito: Reprodução/Redes sociais)
Com candidatos à Presidência, ao Senado e à Câmara, a família Bolsonaro utiliza a identidade política do patriarca como vetor central na campanha de 2026 - (crédito: Reprodução/Redes sociais)

A poucos dias do primeiro turno, parte dos candidatos que chega às urnas em 2026 carrega um ativo construído muito antes do início da campanha: um sobrenome conhecido pelo eleitor. Filhos, netos e bisnetos de personagens que ocuparam governos, cadeiras no Congresso e comandos partidários aparecem em disputas pelo país, em um fenômeno que atravessa diferentes regiões e campos políticos. Na linguagem importada da cultura pop, são os chamados “nepobabies”, herdeiros que partem de uma posição de maior visibilidade graças à família. 

O cientista político Alexandre Bandeira, analista-chefe do Grupo Brasília de Consultoria Política, avalia que a presença de famílias na política brasileira está longe de ser uma novidade e remonta às próprias formas históricas de organização do poder no país.

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“Essa cultura de ter um filho entrando na política com o nome do pai, ele não é novo, não.”

Para Bandeira, a passagem do coronelismo para instituições democráticas modernas modificou as regras, mas não eliminou a capacidade de determinadas famílias de preservar influência eleitoral ao longo das gerações.

“E mesmo com o processo de redemocratização, os clãs políticos modernos herdaram do coronelismo essa facilidade de poderem emplacar nomes na política, né, manter o DNA, manter o sangue na política.”

A eleição de 2026 reúne exemplos em diferentes estágios dessa sucessão. Alguns candidatos estreiam nas urnas amparados pelo capital político dos pais. Outros já acumularam mandatos próprios e construíram trajetórias que, embora não possam ser reduzidas à origem familiar, continuam associadas a sobrenomes conhecidos.

Sobrenome como ativo eleitoral

O exemplo de maior projeção nacional está na família Bolsonaro. Flávio Bolsonaro (PL-RJ) disputa a Presidência da República, Carlos Bolsonaro (PL) concorre ao Senado por Santa Catarina e Jair Renan Bolsonaro (PL) tenta chegar à Câmara dos Deputados pelo mesmo estado. Jair Bolsonaro não está na disputa, mas sua identidade política ocupa espaço central nas campanhas dos filhos.

Para Bandeira, a força alcançada pelo sobrenome ajuda a explicar por que relações familiares podem ter peso antes mesmo que o candidato construa uma trajetória própria. “Às vezes a simples presença, ela é suficiente porque já carrega o nome.”

Em Alagoas, a sucessão aparece de maneira ainda mais direta. Álvaro Lira, o Alvinho (PP), de 20 anos, concorre à Câmara dos Deputados enquanto o pai, Arthur Lira (PP), disputa o Senado. O jovem também é neto de Benedito de Lira, que morreu em 2025, e já havia circulado em espaços ligados à atividade política da família antes de apresentar a candidatura.

No mesmo estado, Renan Filho (MDB) tenta chegar ao governo enquanto o pai, Renan Calheiros (MDB), busca a reeleição para o Senado.

A lógica se repete com sobrenomes que atravessaram diferentes períodos da República. No Rio Grande do Sul, Juliana Brizola (PDT), neta de Leonel Brizola, disputa o governo estadual. Em Goiás, Daniel Vilela (MDB), filho do ex-governador Maguito Vilela, concorre à reeleição para o Palácio das Esmeraldas.

Em Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB) tenta retornar ao Senado. Filho do ex-deputado Aécio Cunha e neto de Tancredo Neves, ele iniciou a própria trajetória política trabalhando ao lado do avô e, desde então, passou pela Câmara, pelo governo mineiro e pelo Senado.

No Rio de Janeiro, Chico Rubens Paiva (PSB) disputa uma cadeira de deputado federal. Neto do ex-deputado Rubens Paiva, ele leva o nome do avô para a urna em sua candidatura à Câmara.

A Bahia oferece outro exemplo de continuidade entre gerações. ACM Neto (União Brasil), candidato ao governo estadual, é neto de Antônio Carlos Magalhães e sobrinho de Luís Eduardo Magalhães. O grupo político construído pelo avô atravessou décadas e manteve o sobrenome entre os mais reconhecidos da política baiana.

Ainda no estado, Diego Coronel (Republicanos), filho do senador Angelo Coronel, tenta permanecer na Câmara. Félix Mendonça Júnior (PDT), filho do ex-deputado Félix Mendonça; Gabriel Nunes (PSD), filho do ex-deputado José Nunes; e Mário Negromonte Júnior (PSD), filho do ex-ministro Mário Negromonte, também disputam mandatos federais.

Mais de uma geração

Em Pernambuco, a árvore política da família Arraes-Campos chega à atual eleição com João Campos (PSB). Filho do ex-governador Eduardo Campos e bisneto de Miguel Arraes, ele deixou a Prefeitura do Recife para concorrer ao governo estadual. Antes disso, passou pela Câmara dos Deputados e comandou a capital pernambucana por dois mandatos. Pedro Campos (PSB), irmão de João, busca novamente uma vaga de deputado federal.

Também ligada ao tronco Arraes, Marília Arraes (PDT), neta de Miguel Arraes e prima de João e Pedro, construiu sua própria trajetória política. Foi vereadora do Recife por três mandatos, deputada federal e candidata ao governo de Pernambuco em 2022, quando chegou ao segundo turno. Atualmente, ela não exerce mandato parlamentar.

A própria disputa pernambucana coloca do outro lado outra candidata oriunda de uma família política: Raquel Lyra, filha do ex-governador João Lyra Neto.

Na Paraíba, diferentes famílias aparecem simultaneamente nas urnas. Efraim Filho (PL), filho do ex-senador Efraim Morais, concorre ao governo. Veneziano Vital do Rêgo (MDB), filho do ex-deputado Vital do Rêgo e da ex-senadora Nilda Gondim, disputa o Senado.

Hugo Motta (Republicanos), presidente da Câmara, busca a reeleição enquanto o pai, Nabor Wanderley (Republicanos), concorre ao Senado. Mersinho Lucena (PSD), filho do prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena, também tenta permanecer na Câmara.

A lista se espalha pelo Nordeste. Pedro Lucas Fernandes (União Brasil), filho do prefeito de Arame, Pedro Fernandes Ribeiro, e Marreca Filho (PRD), filho do ex-deputado Júnior Marreca, concorrem novamente à Câmara pelo Maranhão.

No Ceará, Mauro Benevides Filho (União Brasil), filho do ex-presidente do Senado Mauro Benevides, busca novo mandato federal. Em Sergipe, Yandra Moura (União Brasil), filha do ex-deputado André Moura, também está na disputa. Ciro Nogueira (PP), filho do ex-deputado Ciro Nogueira Lima, concorre ao Senado pelo Piauí.  

Para Bandeira, um dos mecanismos que sustentam essa continuidade é a expectativa de que atributos associados a uma liderança política sejam transferidos para seus descendentes. “A expectativa é de que as pessoas tenham, de que haja uma transferência da qualidade do político de pai para filho, de avô para neto.”

Carreiras próprias, origens conhecidas

A herança familiar não significa necessariamente ausência de experiência própria. Em muitos casos, os candidatos já passaram por diferentes cargos antes de chegar à eleição atual.

Simone Tebet (PSB), por exemplo, disputa o Senado por São Paulo depois de construir a maior parte da carreira política em Mato Grosso do Sul e ocupar posições de projeção nacional. Ainda assim, integra uma família com histórico eleitoral: é filha do ex-senador Ramez Tebet.

No Tocantins, Vicentinho Júnior (PSDB), filho do ex-senador Vicentinho Alves, concorre ao governo estadual. No Paraná, Zeca Dirceu (PT), filho do ex-ministro José Dirceu, e Felipe Francischini (Podemos), filho do ex-deputado Fernando Francischini, disputam novamente vagas na Câmara.

Em São Paulo, Baleia Rossi (MDB), filho do ex-ministro Wagner Rossi, e Renata Abreu (Podemos), filha do ex-deputado José de Abreu, estão na corrida por mandatos federais. No Rio de Janeiro, Dani Cunha (PL), filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, tenta a reeleição.

Minas Gerais também reúne Newton Cardoso Júnior (MDB), filho do ex-governador Newton Cardoso, e Lafayette Andrada (PL), filho do ex-deputado Bonifácio de Andrada e integrante de uma família cuja presença na política remonta a José Bonifácio de Andrada e Silva.

O mesmo tipo de continuidade aparece com Fernando Coelho Filho (União Brasil), filho do ex-senador Fernando Bezerra Coelho, e Lula da Fonte (PP), filho do deputado Eduardo da Fonte, ambos candidatos à Câmara por Pernambuco.

Outros herdeiros, outros capitais

Nem toda vantagem familiar nasce de um mandato eletivo transmitido entre gerações. Em algumas candidaturas, o sobrenome chega à política apoiado por redes religiosas, empresariais, midiáticas ou sociais construídas pelos pais.

É o caso da família do missionário R. R. Soares, fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus. Seus cinco filhos participam das eleições de 2026. No Rio de Janeiro, Marcos RR Soares (PSDB) disputa a reeleição para deputado federal, enquanto Filipe RR Soares (PSDB) tenta permanecer na Assembleia Legislativa. Em São Paulo, David RR Soares (Podemos) busca novo mandato de deputado federal e Daniel Soares (União Brasil) concorre novamente a deputado estadual. André RR Soares integra, como primeiro suplente, a chapa de Waguinho (Republicanos) ao Senado pelo Rio. 

Nesse caso, o capital familiar não se limita a uma carreira política anterior do pai. A projeção pública e a estrutura social ligadas à atuação religiosa de R. R. Soares também dão aos filhos um sobrenome previamente reconhecido.

Algo semelhante, embora por uma trajetória familiar distinta, ocorre com André Marinho (Novo), candidato ao governo do Rio de Janeiro. Ele é filho do empresário e político Paulo Marinho, que esteve ligado à campanha presidencial de Jair Bolsonaro em 2018 antes de romper com a família Bolsonaro. André, que ganhou projeção como comunicador, estreia em uma disputa eleitoral neste ano.

O peso desse tipo de reconhecimento também interessa diretamente aos partidos. Bandeira observa que, em eleições com limites de recursos, tempo de exposição e tamanho das chapas, candidaturas que já chegam conhecidas tendem a ser vistas como ativos eleitorais.

“Os partidos políticos são muito pragmáticos em termos de montar nominatas que possam ser eficazes, e nesse sentido nomes fortes de alto valor e reconhecimento são fundamentais.”

Para ele, o sobrenome político pode funcionar como uma forma de reduzir o esforço necessário para apresentar um candidato ao eleitorado.

“Com pouco tempo de televisão, com recursos provenientes somente dos partidos políticos, e com esse afastamento natural que a população tem com a política, no momento de decidir, de criar aquela imagem mental, a população vai por nomes que já são mais conhecidos.”

Antes mesmo da urna

Há ainda famílias em que a sucessão começa a ser discutida antes de existir uma candidatura. Tomás Covas (PSDB), filho de Bruno Covas e bisneto de Mário Covas, é um exemplo. Ele tinha 15 anos quando o pai morreu, em 2021, e pouco depois se filiou ao PSDB. Desde então, seu nome passou a aparecer publicamente em conversas sobre uma eventual carreira política. Em 2026, aos 21 anos, ele não disputa a eleição.

O caso ajuda a mostrar que a transmissão de capital político não começa necessariamente na convenção partidária ou no registro da candidatura. A convivência com campanhas, dirigentes, aliados e eleitores pode anteceder em anos a decisão de concorrer.

Bandeira pondera, porém, que o sobrenome pode facilitar a chegada às urnas, mas não garante sozinho a permanência.

“Uma coisa você terá ascensão pelo nome, mas a questão do trabalho é feita pela governança política, então é feito justamente pela capacidade dessa pessoa que foi eleita pelo nome apresentar um bom trabalho.”

Em uma eleição que reúne herdeiros já consolidados, estreantes e famílias com várias gerações em disputa, os “nepo babies” políticos não formam um grupo homogêneo. O ponto em comum está no ponto de partida: enquanto parte dos candidatos precisa construir do zero reconhecimento, rede de aliados e identificação com o eleitor, outros entram na corrida com uma história familiar que já chega conhecida às urnas.

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postado em 01/10/2026 11:02
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