ANÁLISE

Debate começa propositivo, mas bloco final evidenciou polarização e incerteza

Os colunistas do Correio Braziliense Denise Rothenburg e Carlos Alexandre de Souza analisam o último confronto da corrida eleitoral e apontam os desafios do próximo governante diante de um país dividido

Flávio Bolsonaro e Lula nos estúdios Globo durante debate presidencial       -  (crédito:  AFP)
Flávio Bolsonaro e Lula nos estúdios Globo durante debate presidencial - (crédito: AFP)

O último debate presidencial do segundo turno, transmitido pela TV Globo nesta sexta-feira (23/10), entregou ao eleitor um formato mais colaborativo e expositivo do que debate da Band, no domingo passado, permitindo aos candidatos apresentarem com mais clareza suas visões de país. Na avaliação dos colunistas do Correio Braziliense Denise Rothenburg e Carlos Alexandre, o confronto terminou em um "empate técnico", no qual ambos os postulantes alternaram momentos de destaque e tropeços estratégicos, mantendo o cenário eleitoral completamente aberto e imprevisível a poucas horas da votação.

Durante a análise, Carlos Alexandre de Souza destacou a diferença de postura dos adversários no estúdio: enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva utilizou o espaço para defender seu legado e propor a continuidade de políticas públicas, o senador Flávio Bolsonaro apostou na crítica à atual gestão e na apresentação de promessas para o futuro.

Fique por dentro das notícias que importam para você!

No campo econômico, Flávio teve bons momentos ao focar no custo de vida e no endividamento das famílias, mas pecou ao acenar com garantias de reajustes que geraram ruídos com o mercado financeiro e ao ficar sem resposta quando questionado sobre o patamar do salário mínimo. Já Lula pecou ao explorar pouco programas como o "Desenrola", mas foi bem-sucedido no embate direto ao cobrar posições sobre temas sociais e ao relembrar falhas na gestão da pandemia.

O bloco final e as trocas de acusações pessoais, classificadas pelos colunistas como um "futebol de várzea", explicitaram o ambiente de profunda polarização que o país atravessa.

Leia a análise dos colunistas do Correio:

Carlos Alexandre: O eleitor precisa avaliar quais dessas promessas são realmente factíveis

A primeira conclusão que a gente pode tirar em relação a esse debate é que ele foi muito mais colaborativo, contribui muito mais para o eleitor chegar a alguma conclusão em relação aos seus candidatos. E aí, quando eu falo do eleitor, não é quem já decidiu o seu voto pro Flávio Bolsonaro ou pro Lula, mas exatamente aquele eleitor que ainda está avaliando qual será a escolha dele no domingo. Por que que eu digo isso? Porque eu acho que houve uma oportunidade dos candidatos explorarem um pouco mais o que eles pretendem, como eles pensam o Brasil e determinados problemas. Agora, também ficou muito claro o comportamento dos dois candidatos. Enquanto Lula teve mais espaço, mais oportunidades de defender o seu legado, defender o seu governo e propor uma continuidade nas políticas definidas pelo seu governo, você vê o Flávio Bolsonaro também apontando supostos problemas da administração Lula e fazendo muitas promessas do Brasil que ele quer, do Brasil que ele sonha. O eleitor precisa avaliar quais dessas promessas são realmente factíveis, são exequíveis. E quais são outras que, olhando a realidade dos fatos, já não são tão fáceis assim de ser executadas.

Denise Rothenburg: Divórcio de Flávio com o mercado?

Pois é, foram tantas promessas feitas nesse debate que eu ouvi de algumas pessoas agora há pouco que houve ali um divórcio de Flávio Bolsonaro em relação ao mercado. Porque ele desfez todas aquelas promessas que ele tinha feito, como "nós não vamos estourar a dívida pública, nós vamos controlar tudo". E o mercado quer que se controle especialmente aumento de previdência, aumento de salário mínimo. E nesses pontos, Flávio foi muito na linha do que o PT já faz, ou seja. Ele fez essas promessas ao vivo e a cores para todo o país. E fica a dúvida: ele vai atender o mercado ou ele vai atender as pessoas? Eu acho que é alguma coisa que o eleitor vai ficar na dúvida daqui até domingo.

Denise Rothenburg: A grosseria de Flávio com o "9 dedos"

O presidente Lula teve dois pontos onde ele foi muito bem. O primeiro deles foi em relação aos "nove dedos", quando o candidato Flávio Bolsonaro foi obrigado a pedir desculpas pela forma como ele se pronunciou em relação ao presidente. Ele disse: "Ah, você vai dar com uma das mãos e tirar com os nove dedos". Foi uma grosseria. Lula conseguiu ali uns pontos. O jogo, na minha avaliação, terminou empatado. Só por esse debate fica difícil para quem está indeciso tomar uma decisão por um ou outro candidato, porque os dois tiveram pontos altos e pontos baixos nesse debate.

Outro ponto que, na minha avaliação, Flávio Bolsonaro foi muito ruim foi em relação à morte da menina de 5 anos, Ana Clara. Ele se confunde, chama a mãe da menina de Ana Clara e a mãe responde ali: "Ana Clara morreu". A mãe depois deu uma entrevista dizendo que não houve troca de tiros que o candidato se referiu, ela desmentiu tudo o que ele disse ali. Enfim, é algo também que eu acho que tem a sua importância, especialmente para as mães dessas comunidades que assistem a uma entrevista como essa e que sempre têm medo que seus filhos sejam vítimas ou do tráfico ou da polícia, que estão sempre ali com o coração saindo pela boca, tentando proteger os seus filhos.

Carlos Alexandre: Flávio foi bem quando falou do endividamento das famílias

Eu acho que também o Flávio teve bons momentos quando falou sobre a questão do custo de vida, da dificuldade econômica. Quando ele disse, por exemplo, que o Lula prometeu picanha e entregou abóbora. Quando ele se centrou mais na questão do endividamento das famílias, ele foi bem. Em compensação, ele ficou também sem resposta quando Lula perguntou a ele qual seria o valor do salário mínimo se não tivesse ocorrido os reajustes do PT. E aí Lula disse que o salário mínimo estaria em R$ 900,00. Então isso sim, do ponto de vista econômico, também pesa, também foi um ponto favorável ao Lula. 

Denise Rothenburg: O presidente Lula explorou pouco os "Desenrolas". Poderia ter explorado mais. E Flávio foi muito bem porque ele resgatou aquele período do programa dele de governo, no horário eleitoral e na internet, onde ele falava diariamente: "Olha, o pacote de biscoito diminuiu de tamanho", "o sabão em pó diminuiu de tamanho". E muita gente acredita que foi justamente por causa dessas questões que ele abordou muito bem ao longo do primeiro turno que ele conseguiu chegar à frente de Lula no primeiro turno. Mas agora, nos últimos dias, a gente teve um movimento em que Lula começou a recuperar terreno a poucos dias do pleito.

Carlos Alexandre: Qual país sairá da decisão de domingo?

 

Carlos Alexandre: A grande pergunta que já é preciso se fazer é também qual país sairá dessa decisão de domingo, dessas urnas de domingo? Porque se a gente for julgar o debate de hoje, o Brasil está completamente dividido. Lula de certa forma ele insistiu nisso. Mais uma vez ele fez aquela diferença entre a elite e os pobres, de que a elite não gosta dos pobres, eles reclamam disso; inclusive ele classificou claramente o Flávio Bolsonaro como integrante dessa elite. E é preciso lembrar que o presidente, seja lá quem for eleito, precisa governar para todos. Esse novo presidente terá condições de unificar o país em algum sentido, ou simplesmente vai continuar com essa divisão, com essa polarização que eu tenho realmente dúvidas se ela faz bem ao país?

Denise Rothenburg: Ninguém aposta na pacificação do país do dia pra noite, fechadas as urnas, anunciado o vencedor. Tanto que pra ver se consegue pelo menos baixar a bola de quem perder e conseguir ter alguma governabilidade pra quem vencer, os presidentes da Câmara, Arthur Lira, do Senado, Davi Alcolumbre, e também os líderes partidários tão combinando de vir a Brasília parabenizar o vencedor e tentar estabelecer ali uma boa convivência, ou seja, não permitir que haja ali grandes movimentos reclamando do resultado. Esses movimentos certamente virão, independentemente de quem vencer, mas a política está disposta a tentar pelo menos uma trégua entre esses dois polos da política brasileira. Agora, pelo futebol de várzea que foi ali no final do debate, naquela parte de candidato pergunta para candidato, que eles podiam circular cada um no seu campo do estúdio, ficou muito claro que vai ser muito difícil o país sair pacificado.

 

  • Google Discover Icon
postado em 24/10/2026 01:36 / atualizado em 24/10/2026 08:56
x