A deputada federal Erika Hilton (PSol-SP) atribuiu a erros de estratégia do próprio partido parte do resultado que levou a legenda a não superar a cláusula de barreira nas eleições de 2026.
Entre as decisões questionadas pela parlamentar estão a rejeição a uma federação com o PT, a distribuição dos recursos partidários e a falta de investimento em candidaturas que, na avaliação dela, tinham maior potencial eleitoral. A deputada também admitiu que pode deixar o Psol e confirmou já ter iniciado conversas com o partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Em entrevista à Folha de S. Paulo, publicada nesta segunda-feira (12/10), Erika citou como exemplo a campanha de Sofia Favero para deputada estadual em São Paulo. Segundo ela, o financiamento destinado à candidatura ficou abaixo do necessário, o que exigiu esforços adicionais durante a corrida eleitoral.
"Nós tivemos um baixo financiamento, por exemplo, da campanha da minha candidata a deputada estadual aqui em São Paulo [Sofia Favero], que recebeu um valor superbaixo."
Apesar das dificuldades, a deputada avaliou que o desempenho alcançado demonstrou o potencial da candidatura.
"Precisamos fazer todos os movimentos necessários para que ela conseguisse carregar e tocar a sua campanha, com todas as dificuldades que teve e, mesmo assim, os resultados foram muito positivos."
Para Erika, o problema não se limitou a casos individuais, mas esteve na maneira como o Psol definiu prioridades e distribuiu seus recursos pelo país. A parlamentar considera que algumas candidaturas receberam valores elevados apesar de apresentarem menor capacidade de votação, enquanto nomes mais competitivos ficaram desassistidos.
"Eu acho que o Psol erra na estratégia que ele usa, inclusive deixando de cobrir estados e lideranças importantes que nos ajudariam a superar a cláusula de barreira."
Ela afirmou que essa escolha teve consequências diretas para o desempenho da legenda.
"O Psol passou, inclusive, a financiar candidaturas com recursos muito alto, com baixo potencial eleitoral, quando deixou de cobrir outras candidaturas que tinham potencial eleitoral. A minha avaliação permanece a mesma. Eu acho que foi um erro estratégico que gerou inclusive resultados muito ruins agora para nós do Psol."
Federação com o PT dividiu avaliações
Erika rejeitou a interpretação de que as divergências internas sobre a possibilidade de uma federação com o PT tenham provocado um "racha" no Psol. Segundo ela, havia grupos com leituras distintas sobre qual seria a melhor estratégia eleitoral, e o campo que se opunha à aliança acabou prevalecendo.
A deputada integrava o grupo que defendia a federação por considerar que a união ampliaria a presença da esquerda em regiões nas quais partidos de direita e extrema direita têm maior força.
"Na verdade não houve um racha. Houve uma avaliação e uma interpretação diferente de nós, que acreditávamos e seguimos acreditando que uma federação com o PT nos fortaleceria e nos ajudaria inclusive a ampliar a nossa presença em estados dominados pela direita e extrema direita."
Na avaliação de Erika, a composição também teria oferecido maior segurança para que o Psol ultrapassasse a cláusula de barreira e ajudaria a consolidar uma articulação mais ampla entre partidos de esquerda.
"Também nos ajudaria com mais tranquilidade a superarmos a cláusula de barreira, a fortalecermos o nosso partido, a fortalecermos o campo da esquerda, a criarmos um campo mais sólido, mais coeso contra a extrema direita, que tem se unido cada vez mais."
A parlamentar afirmou que o grupo favorável à federação aceitou a derrota interna, mas considera que o resultado das eleições exige uma nova avaliação sobre os rumos da legenda.
"Então naquele momento nós tínhamos essa avaliação e defendemos essa avaliação para defendermos a federação. E havia outro campo que, de maneira legítima, tinha uma outra interpretação da qual nós não concordamos, mas que foram vitoriosos. E nós aceitamos a vitória. Não houve nenhum racha."
Depois do desempenho eleitoral, Erika considera que a necessidade de reorganização se tornou mais urgente.
"Agora o cenário é ainda mais delicado. O partido não atinge a cláusula de barreira e precisa se fortalecer para continuar a fazer o trabalho brilhante que sempre fez enquanto partido. Para isso, a gente precisa sentar e conversar. Mas eu acho que houve sim muitos erros por parte do nosso partido e que nós sejamos capazes de consertar esses erros para seguir adiante."
Além da decisão de não formar a federação, Erika apontou a redistribuição do fundo partidário e a falta de valorização de determinados nomes entre os problemas da campanha. Segundo ela, algumas dessas candidaturas "tinham potenciais gigantes de votações expressivas no estado de São Paulo e em outros estados do país."
Mudança de partido entra no horizonte
A permanência de Erika no Psol também passou a ser tratada pela própria deputada como uma questão em aberto. Ela afirmou já ter sido procurada por outras legendas e disse que pode deixar o partido caso não consiga construir internamente um entendimento sobre os próximos passos.
"Sim, acho que mudaria de partido se necessário fosse. Não comecei essa conversa ainda, já fui procurada por alguns partidos, mas acho que sim, acho que mudaria de partido se houver a necessidade, se não conseguir ter uma conversa tranquila, boa com o PSOL para entendermos os próximos passos. Eu acho que é uma possibilidade."
Entre as siglas com as quais houve aproximação está justamente o PT. A deputada evitou antecipar qualquer decisão, mas confirmou a existência do diálogo.
"Eu já conversei com alguns partidos. Já conversei com o próprio PT. Eu vou me reservar a dizer que tenho tido diálogo com o PT."
Uma eventual troca, segundo Erika, poderia ocorrer já em 2027. A parlamentar ponderou, porém, que ainda não discutiu formalmente seu futuro com o Psol nem aprofundou as conversas com o partido de Lula.
"Eu acho que pode acontecer em 2027, mas eu não sei se acontecerá por conta de que ainda não fiz nenhuma conversa com o PSOL nem avancei as minhas conversas com o próprio PT, mas acho que isso pode acontecer sim."
Campanha de Lula pode corrigir estratégia no segundo turno
Ao analisar o primeiro turno da eleição presidencial, Erika também apontou falhas na campanha de Lula. Para ela, a comunicação poderia ter explorado melhor tanto a figura do presidente quanto as ações realizadas durante o mandato.
"Eu acho. A campanha poderia ter explorado mais a imagem do presidente Lula. Ter comunicado um pouco mais os feitos do presidente Lula. Mas houve pontos acertados: a demonstração da grandiosidade do presidente nas agendas que fez, os programas, as entregas."
A deputada, no entanto, tratou os erros como parte do processo eleitoral e avaliou que o segundo turno oferece a oportunidade de reorganizar a estratégia. A campanha agora busca ampliar votos e impedir a vitória de Flávio Bolsonaro (PL).
"Campanha é isso. A gente está ali nos 49 dias tentando acertar o máximo que a gente pode, mas a minha campanha, todas as campanhas tiveram erros, porque faz parte da loucura do processo de campanha eleitoral. No segundo turno nós temos a possibilidade de corrigir e focar naquilo que pode mudar esse cenário."
Redes sociais e disputa política
Outro ponto abordado por Erika foi o peso das redes sociais na eleição e a comparação entre sua atuação digital e a de nomes como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP).
Ao analisar o desempenho de políticos da direita, a deputada associou parte desse avanço à permanência de uma estrutura política predominantemente masculina e branca, mas afirmou que esse fator não explica sozinho os resultados.
"Porque, primeiro, a política segue ainda sendo um lugar extremamente masculino, branco, e essas figuras carregam esses símbolos."
Para Erika, a mobilização do eleitorado por discursos direcionados contra minorias também ocupou espaço relevante na campanha.
"Mas não só por isso. O ódio segue mobilizando, e a falta de discussão sobre projetos segue elegendo e representa essas eleições. Esses candidatos não discutiram ideias, eles não discutiram projetos, eles não discutiram propostas para o Brasil. Eles usaram a dor de minorias sociais, o ódio a minorias sociais como plataforma política."
Apesar das diferenças políticas entre eles, a deputada reconheceu um ponto de aproximação na maneira como os três utilizam as plataformas digitais para alcançar e mobilizar seus públicos.
"O domínio das redes sociais pode ser sim uma semelhança entre [mim], o Lucas Pavanato e Nikolas Ferreira. Eu acho que nós temos uma capacidade de domínio das redes sociais, uns para o bem, outros para o mal. Mas, se a gente insistir em buscar uma semelhança entre nós, talvez isso possa ser algo que tenhamos parecido."
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