EXPLODIU!

Estratégia de Janones para Lula inspira grupos de esquerda em outros países

Mobilização nas redes sociais usada no Brasil é adaptada por apoiadores de lideranças na França, Espanha e Argentina

A mobilização digital que ajudou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a conquistar a reeleição presidencial ultrapassou as fronteiras brasileiras e passou a influenciar movimentos de esquerda na Europa e na América Latina.

Inspirados no Exército de Lula, canal de WhatsApp criado pelo deputado federal André Janones (Rede-MG), apoiadores de lideranças políticas da Argentina, França e Espanha organizaram comunidades semelhantes para ampliar a presença nas redes sociais e fortalecer campanhas eleitorais.

O grupo brasileiro, que reúne mais de 10 milhões de integrantes, tornou-se uma das principais ferramentas de mobilização dos apoiadores do petista durante o segundo turno das eleições de 2026. A estratégia, baseada na distribuição de tarefas aos participantes e na divulgação coordenada de conteúdos, ganhou projeção após a virada de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL), derrotado na votação de domingo (25/10).

A expansão do modelo ocorre em um cenário internacional marcado pelo fortalecimento de movimentos conservadores. Na América do Sul, por exemplo, sete chefes de Estado são identificados com a direita, enquanto cinco estão alinhados à esquerda. Diante desse quadro, organizações progressistas passaram a apostar na articulação de comunidades digitais para disputar espaço e influência nas plataformas.

Embora os grupos estrangeiros tenham particularidades relacionadas à realidade política de cada país, todos incorporaram elementos da estratégia de Janones. Entre eles estão o incentivo à participação ativa dos integrantes, a circulação de materiais de campanha e a convocação de ações coletivas para aumentar a visibilidade de determinadas mensagens.

França

Na França, a iniciativa ganhou força entre simpatizantes de Jean-Luc Mélenchon, fundador do partido França Insubmissa (LFI) e uma das principais lideranças da esquerda francesa. A primeira comunidade surgiu de maneira independente, sob o nome Les Soldats Insoumis (Soldados Insubmissos), antes de a própria legenda aderir à estratégia com a criação de um canal oficial.

Batizado de L'équipe de Mélenchon officielle (A equipe oficial de Mélenchon), o espaço reúne apoiadores do político em meio a uma onda de protestos e à preparação para a eleição presidencial francesa, prevista para abril e maio de 2027. A disputa ocorre em um cenário de crescimento da extrema-direita, com Marine Le Pen à frente das pesquisas eleitorais.

Reprodução/WhatsApp - Simpatizantes de Jean-Luc Mélenchon utilizam canais inspirados no modelo brasileiro para organizar ações e combater o avanço da extrema-direita

A organização francesa reproduz algumas das características do Exército de Lula, inclusive a atribuição de tarefas específicas aos participantes. Os integrantes são orientados a convidar outras pessoas para a comunidade e a realizar ações coordenadas nas redes sociais. Entre as medidas sugeridas está o bloqueio de perfis de adversários políticos, com a intenção de limitar a circulação de seus conteúdos.

A influência brasileira também pode ser observada na linguagem adotada pelos organizadores. Parte das mensagens é divulgada simultaneamente em francês e português, evidenciando a utilização de referências ao modelo desenvolvido por Janones.

Espanha

Na Espanha, a adaptação da estratégia está voltada à mobilização dos apoiadores do primeiro-ministro Pedro Sánchez, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). O grupo La fuerza de la gente (A força das pessoas) funciona como um espaço de divulgação de discursos, vídeos e imagens do líder socialista, que busca permanecer no comando do governo.

Reprodução/WhatsApp - Aapoiadores do primeiro-ministro Pedro Sánchez (PSOE) reúnem conteúdos para reforçar a campanha das eleições gerais

À frente do Executivo espanhol desde junho de 2018, Sánchez convocou eleições gerais para 29 de novembro de 2026. Com a proximidade da votação, seus simpatizantes intensificaram a circulação de materiais destinados a ampliar a repercussão de suas declarações.

O presidente brasileiro também aparece em algumas das publicações compartilhadas pela comunidade espanhola. Além das referências a Lula, participantes divulgam imagens com as chamadas "6 regras da estratégia digital de Janones", apresentadas como orientações para a atuação dos apoiadores de Sánchez nas plataformas.

Reprodução - Publicação em grupo espanhol destaca as "6 regras da estratégia digital de Janones" adaptadas à política local

Dessa forma, o grupo procura adaptar a experiência brasileira às necessidades da campanha espanhola, utilizando a participação coletiva como instrumento para aumentar o alcance das mensagens favoráveis ao primeiro-ministro.

Argentina

Entre as iniciativas inspiradas no Exército de Lula, a argentina é uma das que apresentam referências mais frequentes ao presidente brasileiro. Criado por apoiadores da ala jovem e mais à esquerda do peronismo, o Ejército del Peronismo (Exército do Peronismo) reúne opositores do presidente Javier Milei, aliado político de Flávio Bolsonaro e do presidente norte-americano Donald Trump.

O grupo está associado à corrente kirchnerista, que integra o movimento peronista e figura entre as principais forças de oposição ao governo argentino. Seus participantes utilizam a comunidade para divulgar mensagens políticas, compartilhar conteúdos sobre o cenário brasileiro e organizar ações destinadas a atrair novos integrantes.

Reprodução/WhatsApp - Grupo argentino usa vídeos da campanha brasileira como exemplo de eficácia na disputa digital contra a direita

Assim como ocorre no grupo idealizado por Janones, os administradores distribuem "missões" que envolvem a divulgação da comunidade e a ampliação da circulação de publicações nas redes sociais. Vídeos e imagens relacionados à vitória de Lula são utilizados como exemplos da eficácia atribuída à mobilização digital brasileira.

A influência do cenário político brasileiro também se manifesta nas discussões sobre acontecimentos posteriores à eleição. Na manhã desta quarta-feira (28/10), os administradores repercutiram notícias sobre a suspeita de fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil, após sua derrota presidencial. Nas mensagens divulgadas, o senador e Javier Milei foram chamados de "delinquentes".

Reprodução/WhatsApp - Integrantes do Ejército del Peronismo usam o canal de mensagens para debater acontecimentos do Brasil e acusar Milei de dar auxílio à tentativa de fuga do aliado brasileiro

A saída de Flávio do território brasileiro passou a ser investigada pela Polícia Federal. O episódio ganhou espaço entre os participantes argentinos, demonstrando como acontecimentos políticos brasileiros passaram a integrar o debate interno dessas comunidades.

A criação dos grupos na Argentina, na França e na Espanha mostra como a estratégia de mobilização adotada durante a campanha de Lula se transformou em referência para movimentos de esquerda que enfrentam disputas políticas distintas. 

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Foto: Ricardo Stuckert. Arte: Letícia Passos/CB/D.A Press - Lula e André Janones - grupos semelhantes ao "exército do Lula" se espalham pelo mundo
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