
Heranças costumam ser associadas a imóveis, dinheiro ou joias passadas de geração em geração. No entanto, há legados que fogem completamente desse imaginário tradicional e revelam que o valor de uma herança nem sempre está cifrado em números. Objetos, animais, memórias e símbolos podem carregar histórias profundas, afetos acumulados e trajetórias inteiras de vida. São essas fortunas não convencionais que ajudam a entender como o passado permanece vivo no cotidiano de quem fica.
Em muitos casos, o que se herda não é apenas um bem, mas uma narrativa. É o que aconteceu com a arquiteta Luiza Ceruti, 27 anos, que recebeu um legado diretamente ligado à história recente do Brasil. "Herdei medalhas de participação das Olimpíadas e Paralimpíadas de 2016", conta. As peças não vieram diretamente do pai, Ton Ceruti, mas representam sua atuação profissional e seu envolvimento com um dos maiores eventos esportivos do mundo.
A herança foi uma surpresa. Seu pai trabalhou no Comitê Olímpico Brasileiro e esteve envolvido nos preparativos para os Jogos sediados no Rio de Janeiro. Em 2013, porém, ele descobriu um câncer em estágio avançado e faleceu no início de 2014, aos 60 anos, quando Luiza tinha apenas 15. "Infelizmente, ele não chegou a testemunhar o fruto do seu trabalho, mas era muito querido no comitê olímpico e eles nos deram muito apoio ao longo do tratamento", relembra.
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Após a realização dos Jogos, Luiza e a mãe receberam uma carta do chefe e amigo de Ton, acompanhada das medalhas de participação. "Todos os funcionários ganharam, e, em homenagem ao meu pai, que fez parte da empreitada, recebemos essa homenagem póstuma", explica. O objeto herdado se transformou em símbolo de reconhecimento profissional e de afeto.
Com isso, o impacto emocional foi imediato. "Orgulho do legado do meu pai e saudade. Foi muito emocionante e ficamos muito contentes com o carinho que a equipe dele tinha por ele, que estava expresso na carta", diz. Para Luiza, as medalhas levam muito mais do que o evento esportivo em si. "Carrega, para mim, as lembranças do meu pai morando no Rio de Janeiro, o seu amor pela praia, sua emoção pelos jogos e orgulho de seu trabalho."
As memórias também resgatam a trajetória profissional de Ton Ceruti, que atuava na área de telecomunicações e integrou a equipe responsável por trazer a tecnologia celular para o Brasil. "Ele era muito contente de ter feito parte disso. Antes de ir para o comitê olímpico, trabalhou nos Jogos Pan-Americanos (2007) e ia em todos os jogos que conseguia ir, tanto do 'pan' quanto do 'para-pan'. Imagino o tanto que iria se divertir nas Olimpíadas", relata.
Não houve desafios práticos ou emocionais para manter a herança, tampouco dúvidas sobre seu destino. "Sempre quis mantê-la. Minha mãe emoldurou e guardou nos fundos da moldura a carta belíssima que acompanhou as medalhas." Hoje, o legado faz parte da rotina. "As medalhas ficam em um quadro no meu escritório e vejo elas diariamente quando trabalho." Para a arquiteta, o valor está justamente na simbologia. "É uma herança 'culposa'. Não veio diretamente do meu pai, mas é um lindo símbolo do trabalho dele e da pessoa que ele foi, querida por onde passava."
Amor que transcende
Outro tipo de herança não convencional é aquela que envolve não apenas objetos, mas seres vivos e valores morais. O funcionário público Alan Vieira Brasil, 60 anos, herdou da mãe, Eunice Vieira dos Santos, algo que ultrapassa qualquer bem material. "Herdei de minha amada mãe, Eunice Vieira dos Santos, bens materiais sim, mas o mais importante foi seu legado de honestidade e de verdades, nunca mentiras!", afirma.
Entre os bens herdados está um cachorro caramelo, considerado um dos xodós da mãe. "Um lindo, manhoso caramelo que era um dos xodós, chamado Nike. O outro, Loock, faleceu um ano depois." A herança não era algo imaginado. "Não se passa pela cabeça perder tão cedo parentes, nunca cogitei isso!", diz.
O luto marcou profundamente a experiência. "Lamentos, prantos, choros e dor forte no coração. Resumo: a falta." Para Alan, o lar herdado se tornou um espaço de memória constante e pulsante. "A casa, toda a presença dela, dos almoços, da alegria de casa cheia, das discussões também, de agradecer a Deus quando eu chegava tarde do trabalho e de suas preocupações quando eu saía."
Assumir esse legado exigiu força emocional e muito preparo psicológico. "Sim, houve (dificuldades), mas coloquei na cabeça que era melhor manter viva sua memória e seu legado, cuidar das coisas que ela deixou para mim e para minha filha." Em nenhum momento houve a ideia de se desfazer dos bens. "Toda vida de mãe, seu suor em Brasília, está hoje comigo!"
No dia a dia, a herança se manifesta mais no campo afetivo do que material. "Aprendi que materiais vão, mas o amor e a saudade são maiores! Preservar, sim; trocar por uma vida, nunca!" Para Alan, o valor desse legado está na história de migração e esforço. "O sacrifício e sufoco de alguém que chega em Brasília em 1957 e já vai trabalhar! Como disse, é o resumo de toda uma vida, dela, aqui entre nós."
Além do aspecto emocional, heranças não convencionais também levantam dúvidas sobre valor, preservação e significado histórico. É comum que objetos herdados cheguem a antiquários sem informações claras sobre sua importância. Segundo Lucas Lima, sócio da loja de antiguidades Pé Palito, isso faz parte de um processo cultural. "É muito comum as pessoas chegarem na loja sem saber o valor, muito mais a questão do valor que os antepassados davam", explica.
Trabalhando há dez anos com mobiliário brasileiro dos anos 1950 e 1960 e com arte moderna, Lucas observa que muitas famílias reconhecem apenas o vínculo afetivo, não o histórico ou financeiro desses produtos. "Às vezes, um avô que gostava muito de um relógio ou alguma coisa assim, e a pessoa somente ter a noção de que esse antepassado dava esse valor para essa peça."
Para ele, diferenciar valor financeiro de valor afetivo depende do contexto. "O mercado determina a questão do valor financeiro e o afetivo vem muito mais da experiência", ressalta. Uma poltrona, por exemplo, pode valer pouco no mercado, mas muito para quem associa o objeto a histórias familiares. "Isso é uma coisa mais subjetiva."
No caso de louças, coleções e objetos específicos, a valorização varia. "Isso é muito determinado pela moda, pelo que se usa naquele período", afirma. Algumas exceções envolvem peças raras ou produzidas com materiais específicos, como louças japonesas de alta qualidade, que tendem a se valorizar com o tempo.
O cuidado com essas heranças começa pela informação. "Pesquisar, reunir mais informações, não lidar com o sofá como se fosse só um sofá", ressalta. Muitas vezes, objetos aparentemente comuns são peças assinadas e raras. "Informação é o primeiro caminho para ter esse cuidado essencial."
Sobre as novas gerações, Lucas percebe uma mudança gradual. "A gente ainda passa muito pela questão do funcional", diz, mas aponta que redes sociais e influenciadores têm despertado mais interesse por móveis antigos e objetos históricos. "Isso estava em baixa entre os jovens e vem melhorando."
Sejam medalhas olímpicas, uma casa cheia de memórias ou um cachorro herdado junto com valores de vida, as heranças não convencionais mostram que o verdadeiro legado muitas vezes não cabe em inventários. Ele se manifesta no cotidiano, na saudade, na memória e na forma como histórias continuam sendo contadas, mesmo depois da ausência.
O que fica na memória
Para o psicólogo e doutor em psicologia Vladimir Melo, as memórias afetivas não surgem de forma isolada ou fragmentada, mas se constroem a partir das experiências que deixam marcas ao longo da vida. "Elas são criadas a partir de associações relevantes na nossa história de vida. Todas as experiências que exercem impacto deixam uma trilha, que são retomadas futuramente. Nossos afetos não são fragmentados; pelo contrário, há uma continuidade naquilo que sentimos", explica.
Essa continuidade ajuda a entender por que heranças que não envolvem dinheiro costumam ser tão emocionalmente marcantes. Segundo o especialista, os afetos fazem parte da forma como cada indivíduo percebe o mundo e se relaciona com ele. "Como os afetos fazem parte da nossa subjetividade, estão ligados a como percebemos o mundo. As heranças que não envolvem dinheiro podem estar vinculadas a memórias marcantes de uma determinada pessoa ou de situações que exercem grande influência na forma como nos relacionamos. Por isso, tornam-se simbólicas e carregam muitos significados afetivos."
Em momentos de perda, esses objetos herdados podem intensificar o luto, mas isso não significa algo negativo, muito pelo contrário. "Podem intensificar, mas isso é importante para a elaboração do luto, já que conseguimos vivenciá-lo com mais intensidade", afirma Vladimir. Para ele, a herança atua como um elemento organizador da memória. "Os objetos de uma herança são também objetos de uma história compartilhada e nos remetem a experiências significativas em geral. Toda homenagem, como a ideia de um museu, é formada por objetos de valor subjetivo e que constituem uma narrativa histórica."
Nesse sentido, o luto não está associado ao esquecimento, mas à construção de uma memória estruturada. "O luto bem elaborado não tem relação com o esquecimento, mas com uma memória estruturada, e a herança é uma forma de organizá-lo", reforça o psicólogo. Quando a herança envolve algo vivo, como um animal de estimação, esse impacto emocional pode ser ainda mais complexo.
"Ter um animal é uma forma de aliviar o individualismo em que vivemos, pois com ele podemos interagir e trocar afetos. Se esse pet foi herança familiar ou de um relacionamento, a questão do pertencimento também agrega valor à experiência. É um animal que fará parte de fotos e de histórias familiares", explica Vladimir.
Independentemente da forma que assumam, os objetos herdados funcionam como pontes entre quem ficou e quem partiu. "Eles não podem ser separados das pessoas. As memórias são fortalecidas por detalhes, características e os objetos materializam esse processo. Por meio deles, estamos protegidos do esquecimento e vamos relembrar com frequência do que está associado a cada objeto. Todos os rituais, como os religiosos, têm seus objetos e são formas de recontar e relembrar uma história", destaca.
Marco emocional
Essa dimensão simbólica se materializa de forma intensa na história de Maria do Socorro Couto, de 67 anos. Vendedora, ela herdou uma Bíblia da sogra, dona Maria Rita, um objeto que se tornou um marco afetivo, espiritual e existencial em sua trajetória. "Nunca pensei em receber esse tipo de herança, mas foi por escolha minha e meu sentimento foi de amor, de gratidão, porque eu sabia o quanto aquilo era importante", relata.
Para Maria do Socorro, a Bíblia está diretamente ligada à memória da sogra e à forma como ela vivia sua fé. "Eu via minha sogra com a Bíblia nas mãos, sempre com muita alegria e respeito, e eu sabia que ela orava por mim e pela minha família. Eu me sentia segura e confiante", lembra. O objeto, portanto, não representa apenas uma crença religiosa, mas uma presença constante de cuidado e proteção.
Durante o período em que acompanhou a sogra no hospital, esse vínculo se fortaleceu ainda mais. "As memórias que tenho são que, por meio desse livro, comecei a conhecer um pouco da Bíblia. Ela falava muitos versículos que me deixavam confortável e confiante", recorda. Apesar das dificuldades iniciais para compreender os textos, a herança passou a ocupar um espaço central em sua rotina. "O desafio foi ler e entender algumas coisas, porque achava muito difícil."
Foi nesse contexto que Maria do Socorro também teve seu primeiro contato com os hinos religiosos. "Nessa Bíblia tinha uma parte que continha hinos, a Harpa Cristã, na qual eu aprendi a cantar o primeiro hino da minha vida." A experiência aconteceu ainda no hospital, por meio do contato com as irmãs da igreja que visitavam a sogra para orar e cantar. "Através das irmãs da igreja dela, que iam ao hospital orar e louvar, eu aprendi a cantar."
Mesmo em meio à dor e às limitações impostas pela doença, dona Maria Rita mantinha viva sua relação com a fé. "Às vezes, ela começava a cantar um hino, mas não dava conta de prosseguir", conta. Em outro momento marcante, Maria do Socorro fez uma descoberta que a impressionou profundamente. "No hospital, cuidando dela, descobri que ela não sabia ler. Fiquei admirada, porque ela falava muitos versículos."
A convivência no hospital se estendeu por noites difíceis, marcadas por dor, cansaço e vigília. Maria do Socorro relembra que lia salmos para a sogra, como o 91, o 23 e o 121, tentando oferecer conforto nos momentos mais delicados. A morte da sogra aconteceu durante uma dessas madrugadas, em silêncio, enquanto os aparelhos continuavam ligados.
Depois do falecimento, a Bíblia permaneceu com ela, quase que de forma natural. "Fiquei com a Bíblia porque, quando ela faleceu, estava de posse dela, porque lia o tempo inteiro. Saí do hospital com a Bíblia debaixo do braço", relembra. Ao encontrar as cunhadas, ouviu comentários sobre outros objetos que seriam guardados como lembrança. Foi então que pediu para ficar com a Bíblia e elas aceitaram imediatamente.
Hoje, a herança segue presente em sua vida cotidiana e espiritual. "Nunca pensei em me desfazer dessa herança. Ela faz parte do meu dia a dia", comenta. Com o tempo, Maria do Socorro passou a ler a Bíblia com mais frequência, marcou versículos importantes e trilhou um novo caminho de fé. "Depois, vim aceitar Jesus, hoje sou evangélica, e foi por meio dela, a primeira pessoa que me apresentou Jesus, apesar de nunca ter falado diretamente", ressalta. A Bíblia herdada, assim, tornou-se um símbolo de cuidado, transformação e continuidade.
Uma vida inteira
A ginecologista Fernanda Torino, 56, fala de uma herança que atravessa gerações e permanece viva não apenas nos objetos, mas nas memórias e nos afetos que eles carregam. "A herança que recebi veio de minha avó materna. Foram muitos objetos, entre eles, um sofá e duas poltronas em curva em capitonê, que era muito valorizado na época. Vieram também um aparelho de chá completo, todo decorado, e uma pulseira em ouro, que ela pendurou como berloque meu primeiro dentinho que caiu."
O tempo passou e o bens não são apenas móveis, mas testemunhas de uma vida inteira. Por isso, ela afirma com clareza e emoção. "Meu sentimento em receber este legado é de amor e gratidão. Eles representam todo amor, carinho e cuidado que minha avó teve comigo. Além disso, carrega inúmeras memórias de família", reforça.
Para além disso, Torino conta com rituais e tradições vividos entre os parentes. "Tenho uma família com muitas mulheres e era tradição nos finais de semana festivos nos reunirmos para um chá da tarde (com a louça que herdei) e depois sentávamos no sofá e conversávamos toda a tarde", acrescenta. Nesses momentos, o tempo parecia desacelerar e o instante era aproveitado com muito amor. "Essas tardes eram maravilhosas porque estávamos todas juntas, várias mulheres das mais variadas idades: idosa, adultas, jovens, adolescentes e crianças em uma conversa, sem televisão e sem celular."
Houve um momento em que precisou decidir se permaneceria com aquele legado. "Quanto a questão de me desfazer dele, teve um momento em que uma amiga arquiteta queria comprá-lo, pois ele tem um valor financeiro bem significativo", completa. Entretanto, o sentimento presente no coração respondeu esse questionamento. "Não consegui vender pois o valor afetivo, as memórias que ele guarda são muito maiores que qualquer valor financeiro."
Por uma questão de espaço, ela manteve o sofá no consultório, mas o futuro já está desenhado com carinho. "Em breve, eu o trarei para minha nova casa, onde terá um lugar de destaque", diz. A herança também inspira o presente e o futuro de sua profissão e de sua missão como mulher. "Como sou médica ginecologista e atendo muitas mulheres no climatério, pretendo iniciar as gravações de um podcast chamado A voz das Marias (minha avó chamava Maria)".
Nesse espaço, ela deseja receber pacientes que enfrentam esses desafios do climatério e de ser mulher. "Uma conversa com e sobre as mulheres comuns. As Marias e os desafios que enfrentam. Uma forma de dar voz a todas que ficaram caladas durante várias gerações. Uma homenagem a minha avó e a todas as conversas que tivemos naquele sofá", finaliza.

Revista do Correio
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