
Laerte Rimoli — Especial para o Correio
Amanheci em Brasília, pela primeira vez, em agosto de 1977, aos 21 anos. Barba rala, magro, espinhas no rosto, sem parentes importantes e vindo do interior. Cheio de esperança. Fui recebido — como editor de imagens da TV Globo, no início da W3 Norte — por Wilson Ibiapina, Graça Amorim, Edilma Neiva e Fátima Gomes. Após o impacto com a visão da Rodoviária inóspita, da cidade concreta e da secura do Planalto, eu me deparei com páginas em branco de um livro a ser escrito. Quanta pretensão, um livro. Toquei a vida. Guiado mais por instinto que por juízo. Fiei-me na estrela guia. Da Asa Norte, migrei para a sucursal de O Globo, no Edifício Oscar Niemeyer do Setor Comercial Sul. Empurrado por uma ligação da Fátima para o Merval Pereira, então chefe do jornalão, debutei na imprensa escrita.
Gente, o que foi aquilo. Um privilégio. Ambiente adorável, formado por repórteres iniciantes que se tornaram amigos da vida toda. Adrenalina a mil e a sensação ingênua de estar do lado bom da história. Redação barulhenta, máquinas de escrever que expeliam laudas reproduzidas em três cópias de papel carbono. Efervescência da juventude. O primeiro embate político: a queda do ministro do Exército do presidente Geisel, general Sylvio Frota, por oposição à abertura política. Só para as novas gerações: seu ajudante de ordens era Augusto Heleno, condenado recentemente por organização criminosa armada e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.
Mas vamos falar de esperança. O Clube de Imprensa, logo depois da Vila Planalto, era nosso palco. Farras homéricas, mesas de carteado, futebol de botinadas. Amor às escâncaras. Quantas crianças lindas foram geradas naquelas tertúlias à beira do Lago Paranoá. Festas e mais festas. Ali forjamos a Sociedade Armorial Patafísica Rusticana, o Pacotão — primeira manifestação cultural autóctone da jovem capital. "Ayatolá, venha nos salvar, que este governo já ficou gagá", cantávamos a plenos pulmões.
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Início dos anos 1980. Quem diria que a polarizão direita-esquerda, pós-ditadura, resultaria em tantas rupturas fratricidas naquele grupo. Afinal, éramos nós contra eles — os milicos que conspurcaram a democracia no golpe de 64. No bunker da "resistência", o Beirute da 109 Sul. Embalados pelo som do Liga Tripa e pelo brilho de artistas como Cristina Borracha. Só saíamos do santuário enxotados por jatos d'água com sabão jogados no chão pelos garçons. O Bar do Poeta na Asa Norte. As piscinas do Parque da Água Mineral. As singelas feiras do Guará e da Torre. O Piantela. O Gilberto Salomão.
A Brasília idílica amadureceu. Pagamos, hoje, o preço da expansão imobiliária. Os 500 mil habitantes projetados por JK e Niemeyer chegaram, em 2026, a mais de 2,8 milhões no "Quadradrinho" e a 4 milhões, com o "Entorno". Mesmo com as mazelas típicas de uma metrópole de um país desigual, é muito bom viver aqui. Flores em abundância, como ipês e cambuís, cobrem a cidade num revezamento que encanta, não se buzina, espaços generosos. Acrescente-se a isso, a magia do encontro.
Aquela Fátima Gomes, do início dessa prosa, que me recebeu amorosamente em 1977 e nos deixou em 2012, teve, com o querido Carequinha, dois filhos: João Paulo e Dudu. No dia 4 de janeiro, na Asa Norte — o nosso Soho, conheci seus netos: Cecília e Bene. Mergulhei, com saudade, nos olhos azuis da amiga queridíssima. Lembrei da covinha acentuada no queixo, a voz rouca ecoou no coração e bateu forte a sensação de gratidão por quem levava comidinhas de casa para o magrelo na TV Globo. Eu me emocionei, na intensidade que acomete indivíduos com sete décadas vividas. Confesso que chorei e choro ao escrever. Viva Brasília que me acolheu com tanto amor. Me deu de presente Marcia e Fernando. É madrugada na capital. Tomei uns goles de vinho branco. Chove lá fora. A brisa fresca inunda o ambiente.

Revista do Correio
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