Moda

Romantismo sombrio: veja como moda gótica retorna em 2026

O visual gótico reaparece como uma tendência que traduz inquietações sociais, emocionais e políticas do presente

Historicamente associada ao obscuro, ao melancólico e ao romantismo sombrio, a estética gótica volta a ocupar espaço de destaque na moda contemporânea. Presente nas passarelas, no street style e na cultura pop, o gótico reaparece não como um uniforme fechado, mas como uma linguagem estética flexível, capaz de dialogar com o espírito do tempo, as inquietações sociais e as transformações do comportamento.

Para o designer de moda Filipe Reis, essa linguagem visual vai além de uma simples escolha visual. "A estética gótica se constrói a partir do predomínio do preto, contrastes profundos, tecidos com peso simbólico (veludo, couro, renda, vinil), silhuetas estruturadas ou dramáticas e detalhes como corseteria, amarrações, metais, crucifixos e referências medievais", explica. Segundo ele, no plano simbólico, o gótico carrega significados profundos. "Fala sobre morte, espiritualidade, introspecção, sensualidade contida e resistência ao padrão normativo. É uma estética que transforma a sombra em identidade."

Divulgação/TIG -
Reprodução/Instagram/@giuliacalbucci -
Divulgação/Alexander McQueen -
Divulgação/Rick Owens -

As raízes dessa expressão na moda remontam ao século 19, mas sua consolidação como linguagem contemporânea se deu a partir das subculturas musicais. De acordo com o designer, na moda, o gótico nasceu de forma difusa, inspirado no romantismo sombrio do século 19, na arquitetura gótica e na literatura de Edgar Allan Poe e Mary Shelley. Ele ganhou força como estética contemporânea a partir do pós-punk dos anos 1970 e 1980, com a cena gótica musical influenciando vestuário, maquiagem e atitude.

Com o passar das décadas, o estilo se fragmentou e se sofisticou, atravessando subgêneros e alcançando a alta moda, com designers que transformaram a subcultura em discurso estético autoral, como Alexander McQueen, Rick Owens e Yohji Yamamoto.

Resistência e introspecção

Embora esse retorno possa ser lido como um movimento cíclico, o revival atual apresenta novas camadas. "A moda sempre volta ao gótico em momentos de crise social, política ou existencial. Mas o revival atual traz algo novo: ele é mais híbrido e menos literal", observa Filipe Reis. Hoje, essa linguagem visual se mistura ao streetwear, ao minimalismo, às propostas genderless (sem gênero) e até ao slow fashion, aparecendo muitas vezes de forma sutil, em texturas, atmosferas e detalhes.

A designer de moda Dheise Oliveira destaca que essa retomada não é exatamente repentina. "A estética gótica, na verdade, não está 'voltando' agora, ela vem ganhando visibilidade nas tendências de moda desde 2023. A partir de então, ela vem evoluindo e ressignificando elementos clássicos para responder as ansiedades e possibilidades do presente", explica. Para ela, o contexto contemporâneo é decisivo para esse movimento. "Em tempos de saturação digital, no qual vivemos num mundo hiper-visual, barulhento e superfocado no 'perfeito o tempo todo', o gótico oferece um contraponto de introspecção, melancolia e mistério, que acabam se tornando formas de resistência estética."

Essa resistência também se conecta a uma busca crescente por autenticidade. "A estética gótica representa sinceridade emocional, intensidade e principalmente profundidade, qualidades que ressoam muito com o público jovem, que geralmente está vivendo momentos de autodescoberta e rejeita superfícies brilhantes e fórmulas padronizadas", afirma Dheise. A cultura pop, segundo ela, também tem papel fundamental nesse processo, com o fortalecimento de narrativas sombrias no cinema, nas séries e na música.

Cenário social e político

Para além do comportamento individual, essa estética reflete o cenário social e político. Em períodos de instabilidade econômica e geopolítica, símbolos de profundidade e gravidade ganham força. "Ao falar sobre saúde mental e autenticidade emocional, é nítida a valorização de expressar vulnerabilidade, tristeza e complexidade, valores que o gótico canaliza naturalmente." No campo político, a estética também carrega um histórico de rebeldia, sendo considerada uma ferramenta simbólica de questionamento às estruturas de poder.

No mercado da moda, essa linguagem é reinterpretada para dialogar com o consumidor. "O gótico contemporâneo não é um simples combo: olho preto, boca vinho, coturno e corset. Ele se reinventa com nuances modernas", afirma Dheise. Volumes assimétricos, fluidez, materiais tecnológicos, couro vegano, jeans, tule e malhas drapeadas ganham espaço, assim como silhuetas híbridas e andróginas. O mix com elementos esportivos e utilitários também amplia a usabilidade da estética, criando o que ela chama de "dark utility".

Para Filipe Reis, o momento atual mantém uma dimensão estética e identitária, ainda que de forma mais sutil. "Para alguns, o gótico é essencialmente visual. Para outros, continua sendo um posicionamento identitário: questiona padrões de beleza, normas de gênero, consumo acelerado e a obrigatoriedade da positividade constante." Em vez de slogans explícitos, a política do gótico se manifesta na atitude, na introspecção e na recusa do óbvio.

Ao olhar para o futuro, Dheise acredita que o visual está longe de ser passageiro. "Minha previsão é que esse é um movimento duradouro, que ainda sofrerá mais mudanças. Porque ele responde a questões profundas da cultura contemporânea, não é apenas um mood." Segundo ela, mesmo que a expressão visual se transforme, temas como intensidade, misticismo e introspecção continuarão influentes. "O gótico nunca mais será como antes, ele se reinventa continuamente, criando um contraponto muito interessante com o espírito do presente."

 


Mais Lidas