
A moda sempre foi linguagem. Antes de ser tendência, consumo ou espetáculo, ela comunica valores, posicionamentos e disputas de poder. Em 2026, esse diálogo entre roupa e política ganha um novo rosto (jovem, feminino e artístico) com Rama Duwaji, primeira-dama da cidade de Nova York. Aos 28 anos, a artista sírio-americana passou a ocupar o centro dos olhares não apenas por estar ao lado do prefeito Zohran Mamdani, mas pela maneira como constrói sua imagem pública, que, apesar de silenciosa, é carregada de significado.
Nascida no Texas, de origem síria, Duwaji construiu carreira como ilustradora, com trabalhos publicados em veículos internacionais e um mestrado pela Escola de Artes Visuais de Nova York. No Instagram, em que soma cerca de 1,9 milhão de seguidores (@ramaduwaji), alterna ilustrações em preto e branco com registros despretensiosos de seus looks, criando uma narrativa visual que mistura arte, cotidiano e identidade.
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A história com Zohran Mamdani também foge do roteiro tradicional. Os dois se conheceram por um aplicativo de namoro e se casaram em Dubai, onde vive a família da artista, em uma cerimônia muçulmana. Desde então, cada aparição pública de Rama tem sido lida como um gesto político, ainda que ela nunca tenha feito discursos ou declarações diretas. Na noite da vitória eleitoral de Mamdani, em 4 de novembro do ano passado, ela surgiu com um top jeans assinado pelo estilista palestino Zeid Hijazi, radicado em Londres.
Na cerimônia de posse, realizada à meia-noite do ano-novo em uma estação de metrô desativada, Duwaji vestiu um casaco vintage de lã com gola alta da Balenciaga, alugado da Albright Fashion Library, combinado com brincos vintage esculturais de ouro da New York Vintage. Por baixo, shorts de alfaiataria da The Frankie Shop e botas de bico fino da marca londrina Miista. Na manhã seguinte, na cerimônia pública, usou um casaco marrom-chocolate com acabamento em pele sintética da Renaissance Renaissance, marca fundada pela estilista palestino-libanesa Cynthia Merhej.
Essa postura de colocar intenção nos looks apresentados ao público lembra, em muitos aspectos, a de Diana, princesa de Gales. Assim como Lady Di, Rama Duwaji não precisa discursar para ser ouvida. Com escolhas estéticas que falavam de afeto, vulnerabilidade e independência feminina, a representante britânica transformou a moda em ferramenta de empatia, aproximação e, aos poucos, de ruptura com protocolos rígidos da monarquia. Rama faz algo semelhante em outro tempo e outro cenário: usa a roupa para afirmar identidade, ancestralidade e autonomia, sem jamais ocupar um espaço que não lhe foi concedido politicamente.
O impacto é imediato. Rama Duwaji se tornou uma verdadeira "it girl". Seu corte de cabelo, descrito como um "bixie", entre o bob e o pixie, passou a ser copiado por jovens nova-iorquinas nos dias seguintes à posse. A stylist Gabriella Karefa-Johnson chegou a afirmar à revista Vogue que, embora Duwaji não precise tecnicamente da ajuda de uma profissional para escolher as próprias, seu trabalho foi "traduzir" a artista por meio da moda, recorrendo a arquivos, designers independentes e peças emprestadas. "Majestoso da maneira mais punk possível", definiu.
Para a consultora de imagem e designer de moda Niágara Tavares, as escolhas de Rama deixam mensagens claras. "Rama Duwaji se apresenta sempre em tons neutros, silhuetas que fogem do esperado para uma primeira-dama, e tem um corte de cabelo que evidencia a sua personalidade. Mas para além das peças que chamam atenção pelo acabamento, materiais naturais e a estética em si, é o que está por trás que ganha destaque em todas as suas aparições. Ela sempre escolhe um designer/estilista palestino para vestir, o que infatiza sua posição política, enaltece as origens de sua familia."
Segundo Niágara, a moda atua como comunicação mesmo sem discurso verbal. "A primeira comunicação é sempre a não verbal, a imagem vem em primeiro lugar, antes de qualquer palavra proferida, principalmente se tratando de pessoas públicas." Ela destaca ainda o uso da moda circular como novidade no cenário de primeiras-damas e como símbolo geracional.
Tudo é política
A professora e consultora de imagem Raquel Caixeta reforça essa leitura ao apontar que Rama "é antes de tudo, uma artista e utiliza seu trabalho como uma forma de ativismo e resistência política". Para ela, a estética da primeira-dama une sofisticação, herança cultural e autenticidade, criando uma imagem de autoridade acessível, sem distanciamento do público.
Esse contraste fica ainda mais evidente quando olhamos para outros episódios recentes em que moda e poder se cruzam de forma oposta. O moletom Nike Tech Fleece usado por Nicolás Maduro quando foi capturado pelos Estados Unidos virou objeto de desejo em minutos. O conjunto esgotou, impulsionou buscas no Google e revelou como até regimes autoritários produzem símbolos estéticos capazes de mobilizar consumo e identificação.
No Brasil, esse fenômeno não é estranho. A camisa da Seleção, o boné de campanha, a bandeira nacional, tudo se transforma em código político. As comparações constantes entre os looks de primeiras-damas brasileiras, como Michelle Bolsonaro e Janja da Silva, revelam como estética, classe e ideologia se misturam em julgamentos travestidos de opinião de moda.
Historicamente, como lembra o pesquisador Louis Pisano, regimes autoritários sempre entenderam o poder da imagem. Do fascismo europeu às estéticas tecnológicas contemporâneas, roupa, design e visualidade nunca foram neutros. A diferença é que, hoje, o discurso pode vir suavizado, diluído em capas de revista, desfiles e narrativas aspiracionais.
É nesse cenário que Rama Duwaji se destaca. Sem uniformes, sem slogans, sem discursos inflamados, ela transforma vestimentas em manifesto. Assim como Diana fez nos anos 1990, Rama sinaliza que ocupar espaços de poder ao lado de líderes políticos não significa submissão ou silêncio.

Revista do Correio
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