De origem europeia, o cão d'água português foi, no século 20, um grande companheiro dos pescadores da Península Ibérica. O peludo integrava tripulações de barcos pesqueiros, participava de expedições pelo oceano e ajudava diariamente no ofício, conduzindo cardumes, recuperando redes e levando mensagens entre embarcações. Mesmo com o passar dos anos, a raça continua fiel à água, aos tutores e às atividades físicas intensas.
Com expectativa de vida de até 15 anos, os cães da raça costumam apresentar um temperamento fiel, afetuoso e receptivo tanto com humanos quanto com outros animais. Conviver com o cão d'água português pode ser uma alegria constante, afinal são inteligentes, obedientes e aprendem comandos e truques com facilidade, o que faz da raça uma ótima companhia para quem gosta de interação e estímulo físico diário.
Essa necessidade de movimento e atenção não é apenas um traço de personalidade. Segundo a médica veterinária Cindy Beatriz Ximenes, a rotina faz toda a diferença para o equilíbrio do animal. "O cão d'água português é ativo, atlético e muito inteligente e precisa gastar energia todos os dias", explica. De acordo com ela, passeios diários entre 30 minutos e uma hora, além de brincadeiras e estímulos mentais, ajudam a manter o bem-estar do pet. Quando isso não acontece, o cão pode apresentar ansiedade, agitação, latidos excessivos e até comportamento destrutivo.
Entre os erros mais comuns dos tutores, a veterinária destaca a subestimação da energia da raça. "Passeios muito curtos, geralmente, não são suficientes", afirma. A falta de estímulo mental também pesa, assim como deixar de lado os cuidados com a pelagem, que deve ser escovada de duas a três vezes por semana para evitar nós e problemas de pele. Cindy ressalta ainda que a ausência de socialização e adestramento desde filhote pode gerar dificuldades de comportamento no futuro.
Por exigir presença e interação constantes, o cão d'água português não é indicado para pessoas muito sedentárias ou que passam grande parte do dia fora de casa. "É um cão que cria um vínculo forte com a família e não se adapta bem a uma rotina sem atenção", explica a veterinária. Para quem pensa em ter um exemplar da raça pela primeira vez, a orientação é simples: avaliar a rotina, garantir exercícios diários, estímulos mentais, cuidados com a pelagem e acompanhamento veterinário regular. "Quando bem cuidado, é um cão dócil, companheiro, inteligente e com excelente adaptação à vida em família", conclui.
Experiência do tutor
A experiência na prática confirma o perfil descrito por especialistas. A tutora Soraya Araújo, 45 anos, convive diariamente com Bob, um cão d'água português, e define o pet como extremamente apegado à família. "Ele é muito carente de atenção e gosta o tempo todo de contato. É um cachorro brincalhão, que quer estar junto, seja para brincar, seja, simplesmente, para ficar por perto", conta.
Segundo Soraya, apesar do porte médio a grande, o comportamento dentro de casa surpreende. "Ele age como um cachorro pequeno. Gosta de subir na cama, ficar perto e acompanhar tudo o que a gente faz", relata. Para ela, esse é um ponto importante para quem pensa em ter um exemplar da raça, já que o cão d'água português não costuma ser independente.
Sobre a rotina de cuidados, a tutora afirma que os principais pontos estão ligados à higiene e à pelagem. "O que mais exige atenção no dia a dia é o banho e a tosa", explica. Com base na convivência com Bob, Soraya avalia que a raça é mais indicada para pessoas que gostam de ter o cachorro dentro de casa e de manter uma relação próxima com o animal, oferecendo presença e convivência constante.
Tudo o que você precisa saber sobre o cão d’água português
O adestrador de cães Anderson Moura fala sobre as características da raça e aponta cuidados essenciais com comportamento, rotina e adestramento.
Características físicas
Peso adulto — Entre 16kg e 25kg
Altura — De 43cm a 57cm
Porte — Médio
Pelagem — Preta, branca, castanha, preta e branca ou castanha e branca
Temperamento
Sociável — Convive bem com pessoas e outros animais
Carinhoso — Cria vínculo intenso com a família
Atento — Está sempre observando o ambiente
Leal — Acompanha o tutor em todas as rotinas
Energético — Precisa de movimento diário
Versátil — Pronto para brincadeiras, esportes e tarefas
Quando não é educado desde cedo com paciência e estímulo, pode desenvolver comportamentos como teimosia, agitação excessiva e atitudes destrutivas. Com rotina adequada, tende a ser equilibrado, companheiro e fácil de conviver.
Saúde
A raça apresenta predisposição a doenças oftalmológicas hereditárias e à displasia coxofemoral, condição que afeta a mobilidade. Exames preventivos e acompanhamento veterinário regular são fundamentais. Em casos mais raros, pode ocorrer cardiomiopatia dilatada, doença cardíaca que exige atenção contínua.
Cuidados com a pelagem
Os pelos podem ser ondulados ou cacheados e não têm subpelo, formando uma camada densa. A escovação deve ser feita de duas a três vezes por semana para evitar nós e manter a pelagem saudável.
Higiene
Banho — A cada 15 dias, com aumento da frequência se houver contato constante com água e lama
Orelhas — Precisam de atenção regular para evitar otites
Unhas — Devem ser aparadas pelo menos uma vez ao mês
Dentes — A escovação frequente ajuda a prevenir tártaro e problemas bucais
Adestramento e rotina
Atividade — Precisa de exercícios físicos e estímulos mentais diários
Tempo mínimo — Cerca de 40 minutos por dia já fazem diferença
Participação — Aprende melhor quando a família treina junto
Personalidade — Pode ser visto como teimoso, mas é um cão de temperamento forte e inteligente
Segundo Anderson Moura, antes de impor limites, é essencial criar vínculo. “É um animal que gosta de estar com a família e aprende muito bem quando há comunicação, paciência e rotina de aprendizado”, explica. Ele ressalta que o cão precisa de tempo para amadurecer e assimilar comandos, já que o aprendizado não acontece de forma imediata.
Custos e dedicação
O primeiro ano costuma ser o mais exigente, com gastos de até R$ 2 mil, relacionados à vacinação, alimentação específica para filhotes, consultas veterinárias e adestramento. Com o tempo, os custos tendem a diminuir, especialmente quando a família é ativa e participa do processo de aprendizado do animal.
Perfil ideal do tutor
Ativo — Que goste de exercícios físicos e passeios frequentes
Presente — Que tenha tempo para convivência e interação diária
Paciente — Que respeite o ritmo de aprendizado do cão
Afetuoso — Que valoriza contato e proximidade
Comprometido — Que mantém rotina de cuidados e saúde em dia
Não é a melhor escolha para pessoas sedentárias, com pouco tempo disponível ou que buscam um cão mais independente.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte
