BELEZA

Beleza temporária, dano permanente: os perigos das tatuagens de henna

Pigmentação escura, secagem rápida e promessa de durabilidade escondem riscos à saúde da pele, especialmente em crianças e adolescentes

Coceira intensa, vermelhidão, inchaço, bolhas e feridas estão entre os sintomas mais frequentes -  (crédito: Reprodução/Instagram: @enfermagem_intensiva)
Coceira intensa, vermelhidão, inchaço, bolhas e feridas estão entre os sintomas mais frequentes - (crédito: Reprodução/Instagram: @enfermagem_intensiva)

Durante viagens de férias, idas à praia e blocos de carnaval, as tatuagens temporárias de henna continuam marcando presença entre turistas, jovens e crianças. Vendidas como uma alternativa estética ,e supostamente inofensiva, às tatuagens permanentes, chamam a atenção pela pigmentação escura, pelo desenho imediato e pela promessa de boa durabilidade na pele. No entanto, dermatologistas alertam que, por trás da aparência atrativa, esse tipo de tatuagem pode representar riscos à saúde, variando de reações alérgicas leves a queimaduras severas e sequelas definitivas.

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O principal problema está na chamada henna preta, amplamente utilizada por artistas de rua em praias e eventos. Diferente da henna natural, extraída das folhas secas da planta Lawsonia inermis, que produz tons castanhos ou avermelhados e tende a desaparecer gradualmente, a henna comercial recebe a adição de substâncias químicas para acelerar a secagem e intensificar a cor. 

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Segundo a dermatologista Tatiana Varella, da Verveine Clinique, essa modificação altera completamente o perfil de segurança do produto. "Para obter uma cor preta intensa e secagem rápida, misturam-se à pasta corantes e agentes químicos, como a parafenilenodiamina, conhecida como PPD, um composto altamente alergênico", explica.

Além do PPD, a henna vendida nas ruas pode conter conservantes, fragrâncias, óleos essenciais e até metais pesados, o que amplia o potencial de irritação e alergia. O uso da parafenilenodiamina diretamente na pele é proibido em muitos países, sendo permitido apenas em tinturas capilares e em concentrações controladas. Ainda assim, a substância é frequentemente encontrada em produtos aplicados sem qualquer fiscalização.

Reações imediatas e danos à pele

Entre os efeitos mais comuns associados ao uso da henna preta está a dermatite de contato alérgica. A reação pode surgir horas ou dias após a aplicação e costuma se manifestar exatamente no formato do desenho feito na pele. Coceira intensa, vermelhidão, inchaço, bolhas e feridas são os sintomas mais frequentes. "Essa é a reação dermatológica mais observada e pode evoluir para infecção secundária, exigindo avaliação médica e tratamento com medicamentos tópicos ou até orais", afirma Tatiana.

Em alguns casos, a inflamação é tão intensa que deixa sequelas mesmo após a cicatrização. A pele pode apresentar manchas escuras, chamadas de hiperpigmentação, ou manchas claras, conhecidas como hipopigmentação, que podem levar meses para desaparecer. Dependendo da gravidade, há risco de cicatrizes permanentes.

A dermatologista Patricia Damasco também chama atenção para os sinais que indicam uma reação mais grave. "Vermelhidão intensa, inchaço, dor, ardor ou sensação de queimação no local, coceira persistente, bolhas, descamação ou feridas são sinais de alerta", explica. Segundo ela, quando há infecção associada, podem surgir pus, calor local, dor progressiva e até febre, o que exige atendimento médico imediato.

Ela comenta que crianças e adolescentes estão entre os grupos mais vulneráveis. A pele mais sensível e a maior facilidade de sensibilização aumentam o risco de reações severas. Além disso, muitas aplicações são feitas sem qualquer teste prévio ou orientação adequada.

Riscos a longo prazo

Além das reações imediatas, a henna preta pode causar consequências duradouras. Um dos riscos mais preocupantes é a sensibilização definitiva ao PPD. De acordo com Tatiana, uma vez que o organismo desenvolve alergia a essa substância, ela tende a ser permanente. "Isso significa que essa pessoa provavelmente nunca mais poderá usar tinturas de cabelo ao longo da vida", afirma.

A sensibilização ao PPD também pode provocar reações cruzadas com outros produtos do cotidiano. "Essas substâncias estão presentes em itens aparentemente comuns, como determinados calçados de borracha, tecidos e produtos industriais. Após sensibilizada, a pessoa pode apresentar alergia sempre que entrar em contato com esses materiais", explica a profissional. Em alguns casos, essa condição pode até restringir o exercício de determinadas profissões, como a de cabeleireiro.

Identificar uma henna potencialmente perigosa nem sempre é simples, mas alguns sinais ajudam o consumidor a desconfiar da segurança do produto. "A cor muito escura ou preta é um dos principais alertas, porque a henna natural tem um tom mais acastanhado", orienta Patricia Damasco. Odor muito forte, promessas de fixação prolongada e a ausência de rótulo, procedência ou registro de importação também indicam risco.

Antes da aplicação, Patrícia recomenda evitar áreas com cortes, feridas, irritações ou pele recém-depilada, além de realizar um teste de contato em uma pequena região. Durante o procedimento, qualquer sensação de ardor, coceira intensa ou queimação deve levar à interrupção imediata da aplicação. Após a tatuagem, é indicado evitar exposição solar intensa e não utilizar produtos irritantes, como perfumes, álcool ou ácidos, na área.

Apesar de associada ao lazer e à estética temporária, a tatuagem de henna, especialmente a versão preta, não é um procedimento isento de riscos. "Trata-se de uma exposição desnecessária a substâncias com alto potencial alergênico, que podem causar danos imediatos e permanentes à pele", conclui Tatiana Varella.

*Estagiária sob a supervisão de Eduardo Fernandes

 


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JC
postado em 22/02/2026 06:00
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