
Cidade do México — O centro da bandeira mexicana traz o desenho de uma águia devorando uma serpente em cima de um cactus. Trata-se de um símbolo que remete a uma antiga lenda, que está na fundação da Cidade do México. Era o ano de 1.325. Os astecas, originários de uma região ao norte do continente americano, no estado do Arizona, estavam em peregrinação desde 800 a.C, quando um líder espiritual conhecido como Te Nocht, teve um sonho com Deus, que lhe disse: "Aqui, nessa terra, não há nada. Você deve viajar, procurar um sinal. Quando achá-lo, encontrará o lugar onde vai poder viver com seu povo".
Certa noite, os astecas viram o reflexo dos lagos numa lua cheia majestosa. No dia seguinte, rodearam o vale, passando pelos lagos, e, finalmente, encontraram o sinal prometido: a visão da águia. A partir de então, passaram a se denominar como mexicas, não mais como astecas. Uma junção das palavras mtztli (lua), xictli (centro/umbigo), co (lugar). O símbolo encontrado no "umbigo da lua".
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Esse é apenas o início da história contada por José Manuel Madrigal, há oito anos guia de turismo na Cidade do México. Coube a ele a tarefa de acompanhar um grupo de 250 peregrinos em visita à capital mexicana para um mergulho profundo na história de Nossa Senhora de Guadalupe, a Virgem Mestiça, Padroeira das Américas, que fez sua primeira aparição para o indígena Juan Diego, em 12 de dezembro de 1531.
A convite da Comunidade Obra de Maria (instituição criada em 1990, em Pernambuco, com a missão de evangelizar e acolher fiéis católicos), estive com o grupo na Cidade do México, sob a condução do diretor espiritual da Comunidade, Dom José Falcão, acompanhado também pelo Padre Bento e por Frei Gilson.
Uma parada estratégica antes da Quaresma, que começa nesta quarta-feira e segue até 2 de abril. Esse período é um tempo litúrgico que prepara o coração da Igreja para a celebração da Páscoa, o centro da fé cristã. Assim como Jesus passou 40 dias no deserto em oração e jejum, na Quaresma cada fiel é convidado a revisitar seu caminho espiritual para voltar ao essencial: Deus, sua Palavra e o amor ao próximo.
Daqui a cinco anos, a Igreja Católica celebrará cinco séculos da primeira aparição de Nossa Senhora de Guadalupe e a preparação começou desde 2022. Além de uma grande peregrinação ao México, há ações em várias partes do mundo. Entre elas, a transformação da igreja na 312 Sul em Brasília em um santuário. As obras já começaram. Diferentemente de uma igreja ou paróquia, que serve a uma comunidade local, um santuário tem a função de ser também local de peregrinação, de acolhida de romeiros. São Paulo também ganhará um santuário, missão que está aos cuidados de Frei Gilson (veja entrevista).
Com o grupo de peregrinos da Obra de Maria, passei sete dias no México. Visitamos a Capela do Cristo Veneno, na Catedral Metropolitana, que abriga o chamado "Cristo Negro" ou "Senhor do Veneno". A lenda conta que a imagem absorveu um veneno potente colocado nos seus pés por um assassino que tentara matar um padre, salvando o sacerdote e escurecendo a estátua.
Também fomos à Capela de San José de Autillo, onde ficam as relíquias da Beata Conchita, leiga, mística, esposa e mãe, viúva e fundadora de várias famílias religiosas. Em seguida, visitamos o local da primeira aparição de Nossa Senhora de Guadalupe, em Tulpetlac, casa dos tios de Juan Diego, e o santuário onde está a segunda casa de Juan Diego, em Cualtitlán. Nos últimos três dias, estivemos no Santuário de Guadalupe.
O santuário da Virgem Mestiça
O Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México, é o segundo santuário católico mais visitado do mundo, ficando atrás somente da Basílica de São Pedro, no Vaticano. Está localizado no sopé do Monte Tepeyac. O complexo abriga a antiga basílica e a nova basílica, que guarda o manto original de Juan Diego, o indígena que viu a Virgem pela primeira vez. É considerado o santuário Mariano mais visitado do mundo (apesar de a Basílica de Nossa Senhora Aparecida ter maior capacidade), recebendo 20 milhões de peregrinos por ano.
A primeira basílica começou a ser construída em 1531 e foi concluída em 1709. Projetada por Pedro de Arrieta, o interior é decorado em mármore com duas estátuas de Juan Diego e do Frei Juan de Zumárraga. Foi consagrada basílica em 1904 pelo papa Pio X. As vestes de Juan Diego ficaram abrigadas na Igreja até 1974. Naquela década, devido a um afundamento do terreno, um novo templo teve de ser planejado, mas também houve o início de um trabalho de restauração, que ainda segue. Em 2001, a basílica antiga foi reaberta ao público e celebra o Santíssimo Sacramento todos os dias.
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A basílica nova, construída na década de 1970, projetada pelo arquiteto Pedro Ramírez Vázquez, tem capacidade de abrigar 10 mil pessoas em seu interior. Mas em ocasiões especiais chega a receber 40 mil. É lá que hoje está a tilma de Juan Diego, o manto com a estampa de Nossa Senhora de Guadalupe, que é a relíquia de sua primeira aparição (veja box). Permanece intacto após cinco séculos, desafiando os cientistas que há anos o investigam.
A Lua, o Sol e a Virgem
Não há como desvendar Guadalupe sem regressar aos primórdios da civilização mexicana. É em meio ao sincretismo que nasce e cresce a devoção à Guadalupe. Quando chegaram ao lugar prometido, em 1.352, os astecas ergueram um Teocali (morro sagrado), um templo dedicado ao Deus da Chuva e ao Deus do Sol. Os astecas eram politeístas. Não acreditavam no bem e no mal. Para ele, Sol e Lua eram inimigos.
Diz a lenda católica que Deus criou o mundo em seis dias e, no sétimo, descansou. "Na lenda de origem mexicana, um coelho foi jogado na cara da Lua e lá ficou. No sexto dia, o Sol perdeu o brilho e virou Lua. Há uma coisa interessante: quando temos lua cheia no México, parece que vemos o Coelho no centro da Lua", conta o guia José Madrigal.
As lendas se misturam. "Teologicamente e filosoficamente, tem um simbolismo muito poderoso, que se tornou um sincretismo, uma mistura da religião mexicana com a religião católica. E é essa mistura viva que vamos encontrar na imagem de Nossa Senhora de Guadalupe" , conta.
A primeira aparição ocorre uma década depois da invasão espanhola e da derrocada do Império Asteca. Era um tempo de depressão e de muitas violências, em especial contra a população indígena. É nesse contexto que Maria aparece a Juan Diego, apresenta-se como a "Mãe do verdadeiro Deus".
Nossa Senhora usa palavras acolhedoras e carinhosas ao se dirigir ao indígena: "Juanito, o mais novo dos meus filhos, você sabe quem eu sou?". "Não", disse Juanito. "Eu sou a Virgem Maria, Mãe de Deus e desejo que aqui seja construído um templo para dar todo o meu amor e remediar as tristezas e dores", disse.
Diante da descrença dos superiores da Igreja, Nossa Senhora mandou um sinal, fazendo nascer, em pleno inverno, rosas perfumadas. Juan Diego as colheu e as colocou no seu manto para levar como prova ao bispo. Quando o abriu diante do bispo, para mostrar as flores, apareceu, no tecido, a imagem de Maria, representada como uma jovem indígena. Por isso, os fiéis a chamaram "Virgem Morena". O nome Guadalupe é de origem árabe. Alguns estudiosos dizem que significa "aquela que esmaga a cabeça da serpente".
O rosto da Virgem sintetiza muitos povos. No manto, Ela está na frente do Sol, pisa na Lua e suas vestes têm as imagens de 15 constelações. O cabelo não está com tranças, como tinham as mulheres casadas, então ela é vista como Virgem. Existe uma única flor de quatro pétalas, que representa divindade, em seu ventre. Uma fita preta na barriga indica que está grávida. O quadro está envolto em nuvens, o que indica uma manifestação divina.
O manto azul é adornado com estrelas em dourado, cor que apenas o imperador podia usar, então ela foi imediatamente vista como uma rainha. O sapato apoiado na Lua leva a impressão de que a Virgem está dançando. Os astecas dançavam quando se encontravam com as divindades. Então, foi interpretado como se ela estivesse em oração. O broche no pescoço tem uma cruz, algo que os indígenas já usavam e, com a Virgem, era um sinal de que"não precisavam mais se sacrificar".
Com todos os símbolos, a tilma passou a representar um novo momento de esperança aos oprimidos. O manto (ou tilma) convenceu até os mais incrédulos. Nos sete anos após as aparições, 8 milhões de nativos converteram-se à fé católica. Juan Diego dedicou sua vida a cuidar do templo erguido no Tepeyac. Foi beatificado em 1990 e canonizado pelo papa João Paulo II em 2002. Assim como o papa João Paulo II, o papa Francisco foi profundo devoto da Virgem de Guadalupe.
O manto de Guadalupe
Um dos maiores enigmas arqueológicos e religiosos do mundo é o manto de Juan Diego, conhecido como tilma. Há mais de 500 anos, o vestuário rudimentar, feito de uma fibra vegetal chamada Agave, apresenta características que a ciência nunca conseguiu explicar.
Em primeiro lugar, a conservação. O tecido teria uma vida útil estimada em 20 anos. Porém, já dura quase cinco séculos, mesmo exposto à fumaça de velas, ao toque constante, ao atentado à bomba de 1921, que destruiu o altar da basílica, e ainda ao derramamento de um ácido.
Com técnicas de ampliação de até 2 mil vezes, pesquisadores conseguiram identificar cenas complexas refletidas nos olhos da imagem. No olho direito, observa-se um grupo familiar indígena, composto por uma mulher com uma criança às costas e um homem com chapéu típico. Já no olho esquerdo, aparece a figura de um homem idoso e barbudo, que historiadores apontam ser o Bispo Zumárraga.
O fenômeno é tecnicamente conhecido como o reflexo de Purkinje-Sanson, uma propriedade dos olhos humanos vivos que projeta imagens na córnea. A precisão é tamanha que as figuras mudam de ângulo de acordo com a curvatura natural da íris, algo considerado impossível de ser pintado manualmente em 1.531.
Estudos de infravermelho realizados por biofísicos da Nasa e outros especialistas revelaram ainda que a imagem não tem pigmentos de origem mineral, vegetal ou animal conhecida, as únicas fontes disponíveis no século 16. De fato, um mistério.
O efeito Guadalupe
Não se passa por Guadalupe e toda a sua história de forma incólume. Certa vez, um repórter do ABC de Madri foi enviado à Cidade do México para investigar os mistérios. Ele foi, escreveu sua reportagem, mas depois voltou, às lágrimas, como um fiel devoto.
Esta repórter que vos escreve acalentava o sonho de vir para o México desde a infância, quando a Copa do Mundo de 1970 me apresentou ao país latino pelas ondas do rádio e numa TV em preto e branco. O México sempre foi, na minha idealização, festivo, colorido e alegre. Não estava enganada.
Mas posso dizer, agora, que conheci esse país incrível no momento e pelo motivo certo. Já estive em diversas peregrinações marianas, no entanto Nossa Senhora de Guadalupe, a história de sua aparição, um rosto mestiço, as falas acolhedoras e carinhosas com os indígenas, realmente me marcaram.
Não fui a única. O casal de empresários Antônio Barbosa Aguiar, 65 anos, e Lourdes Panassolo de Aguiar, 60, moram em Brasília. Eu os conheci em Bogotá, escala para a Cidade do México. "Foi nossa primeira peregrinação, sem palavras para descrever. Uma experiência incrível, uma catequese sensacional. Dom Falcão é uma Bíblia ambulante; frei Gilson, a paz em pessoa", resume Lourdes.
Antônio também relata que foi uma experiência maravilhosa. "Foi a primeira vez que fiz uma peregrinação na vida e foi muito gratificante. Além de rezar, conhecer as pessoas. Nesses sete dias, nos tornamos uma grande família. Fiquei muito feliz e falar de Deus e Nossa Senhora, juntos, é muito bom. E os nossos guias, padres, são muito iluminados e serenos, transmitindo uma paz muito grande", disse.
Depoimento
A médica anestesista Juliane Couto, cearense radicada no Juazeiro, embarcou nessa viagem espiritual com sua filhinha Julieta, que aos 3 anos não queria saber de descanso e foi a alegria do grupo. Como um anjo encantado, distribuía alegria e a curiosidade típica da infância. Juliane escreveu sobre sua experiência: "Escrevo esse texto com muita emoção e alegria por ter vivido aqueles dias iluminados no México. Foi uma experiência indescritível e transformadora. Ter frei Gilson e dom Falcão como guias espirituais fortaleceu o meu aprendizado e minha evolução como cristã. Frei Gilson é instrumento que aproxima mais as pessoas de Deus com humildade e amor pela palavra.
A visita à igreja do Cristo negro ou Cristo veneno me marcou profundamente. Parecia que aquela fala do dom Falcão era para mim, e me trouxe muita reflexão e ensinamentos. A cada visitação, pude sentir a presença de Deus e de Nossa Senhora de Guadalupe. E essa peregrinação teve um significado ainda mais especial, pois levei comigo minha filha Julieta, de 3 anos. Vê-la rezar o rosário ao vivo, quietinha, com frei Gilson, na madrugada, foi emocionante. Acredito profundamente na importância de ensinar aos filhos o caminho da fé desde a infância.
A fé é alicerce que se constrói com exemplos, gestos simples e vivências verdadeiras. Poder apresentar esse caminho à minha filha, em lugares tão sagrados e cheios de significado, foi mágico e inesquecível. Tenho certeza de que ficou marcado em sua memória. Ao longo da peregrinação também tivemos a alegria de conhecer o padre Bento e o padre Giovani, cuja presença, palavras e testemunhos enriqueceram ainda mais nossa experiência espiritual.
E ver a imagem de Nossa Senhora de Guadalupe foi outra grande emoção. Difícil até de descrever em palavras! Durante essa semana de peregrinação tive também a bênção de conhecer pessoas iluminadas e maravilhosas com quem criamos laços verdadeiros e que me ajudaram muito com Julieta. Voltei com toda a certeza com a minha fé fortalecida."
O brasileiro no México
José Manuel Madrigal é guia na Cidade do México há oito anos. Com ele, além de toda a parte religiosa do roteiro, conseguimos entender como é a presença dos brasileiros no México. "Há 50 anos, ninguém falava português no México. Hoje, vejo uma aliança consolidada, somos latinos, temos sangue quente. A tecnologia avançou, melhorou; a comunicação, evoluiu. De uns 10 anos pra cá, o turismo dos brasileiros tornou-se emergente", conta.
Segundo ele, o brasileiro é cálido, amável, respeitoso, gosta de "curtir" a viagem e pergunta sobre tudo. "Como guias de turismo, gostamos que as pessoas perguntem, é importante quando você sente o interesse real. Às vezes, as pessoas chegam carregadas de preconceitos por sermos um país latino. Mas os brasileiros vêm, aplaudem, são empáticos", contam.
O trabalho do guia, ele conta, é de paciência e também de algum sacrifício. Principalmente, o de se despir de si mesmo para vestir a história do país. "Sou uma pessoa fechada. Não sou muito carismático, mas no trabalho preciso ser agradável. Porque, como guia, sou a cara do meu país, então tenho a grande responsabilidade de mudar o histórico de preconceito que pesa contra um país latino. Meu trabalho não termina quando desço do ônibus ou quando me despeço de vocês no aeroporto. Importa se vocês vão falar depois bem de mim ou bem do meu país", diz.
Entrevista — Frei Gilson
Recentemente, o senhor afirmou que Guadalupe está entre os lugares mais marcantes que já visitou. O que, na história de Nossa Senhora de Guadalupe, mais o toca e o motiva a retornar?
Visitar Guadalupe, na Cidade do México, é, para mim, sempre algo muito especial. Creio que esta seja a quarta ou quinta vez que venho — já nem me recordo com precisão —, mas, a cada visita, a experiência é sempre profunda. Para mim, Guadalupe é o lugar mariano mais impactante. É em Guadalupe, e somente em Guadalupe, que Nossa Senhora mostrou o seu rosto, a sua face, como um sinal concreto de que está próxima de nós. Por meio do milagre da tilma de Juan Diego, Ela nos deu esse sinal tão forte da sua presença materna. Amo Guadalupe também pelo relacionamento de Nossa Senhora com Juan Diego: um relacionamento marcado pela humildade, pela delicadeza e por ensinamentos profundos para todos nós. Há pouco tempo, recebi de meu bispo uma nova missão: erigir, em nossa Diocese de Santo Amaro, uma obra dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe. Por isso, esta visita se tornou ainda mais especial. Venho a Guadalupe para buscar inspiração, luz e discernimento sobre aquilo que Ela deseja para esta obra confiada a mim.
As peregrinações que o senhor conduz reúnem fiéis de diversas regiões do Brasil. O que o Santuário de Guadalupe desperta no povo brasileiro que talvez outros grandes centros de devoção não despertem com a mesma intensidade?
Sim, em todas as peregrinações que realizamos a Guadalupe, geralmente trazemos, em média, 300 peregrinos. Estabelecemos esse número como limite máximo, pois, se deixássemos aberto, certamente viriam ainda mais pessoas. Por isso, fechamos as inscrições em 300 peregrinos. Pessoas do Brasil inteiro vêm fazer essa experiência com Nossa Senhora de Guadalupe. E a maioria delas nunca havia estado ali antes, nunca tinha conhecido Guadalupe. O que impressiona é que todas saem profundamente tocadas, encantadas com a experiência vivida naquele lugar tão especial.
Guadalupe é um símbolo de fé profundamente ligado à identidade latino-americana. De que forma essa devoção dialoga com os desafios espirituais e sociais vividos hoje na América Latina?
Nossa Senhora de Guadalupe é a Padroeira das Américas. Quando falamos em "Américas", utilizamos a expressão consagrada pela Igreja para nos referirmos a todo o continente americano, do Norte ao Sul. Para Nossa Senhora, não há divisões: é uma única América, um único povo, um único território amado e visitado por Nossa Senhora. Ela tem muito a dizer e muito a oferecer a todo o continente americano. Foi, sem dúvida, a grande evangelizadora da América, conduzindo milhões de povos originários ao cristianismo.
Sua visita ao México acontece em um momento histórico extremamente delicado, quando aquele povo vivia uma profunda crise social e espiritual, a ponto de caminhar para a autodestruição. Com sua presença materna, Nossa Senhora faz esse povo renascer, faz ressurgir a esperança e devolve a dignidade àqueles corações. Nossa Senhora de Guadalupe conduz milhares e milhares de pessoas até Jesus, levando-as a encontrar o Deus verdadeiro. A história nos relata que entre oito e nove milhões de indígenas se converteram e receberam o Batismo após as aparições. Sua visita foi — e continua sendo — um marco definitivo para a América. Ela é, sem dúvida alguma, a grande evangelizadora, aquela que traz ao mundo a mensagem mais forte e necessária: seu Filho, Jesus Cristo, é o nosso Salvador.
O senhor costuma falar da peregrinação como um caminho de transformação interior. Que tipo de experiência espiritual o fiel pode esperar ao chegar a Guadalupe após essa caminhada de fé?
Ao chegar a Guadalupe, toda pessoa é convidada a uma verdadeira transformação. É impossível vir a Guadalupe e não ser profundamente impactado por essa mensagem. Os povos indígenas foram tocados por ela; os mexicanos, os espanhóis e, ao longo dos séculos, o mundo inteiro também foi impactado. O Santuário de Nossa Senhora de Guadalupe é hoje um dos santuários marianos mais visitados do mundo — senão o mais visitado. E isso acontece porque quem chega aqui não sai do mesmo modo. Há, de fato, uma transformação real, interior e profunda, que nasce do encontro com essa mensagem viva deixada por Nossa Senhora.
Ao longo dessas viagens, o senhor percebe mudanças no perfil dos peregrinos? O que tem levado tantos jovens e famílias a buscarem esse tipo de vivência religiosa fora do país?
Sim, percebo mudanças muito claras nos peregrinos. Eles chegam de um jeito e saem transformados, renovados, consolados e cheios de esperança. É visível essa mudança. Percebo também que muitos peregrinos, antes, costumavam investir seu dinheiro apenas em viagens para conhecer lugares novos, para lazer ou diversão. E, ao viverem essa experiência, passam a compreender que vale a pena investir em viagens que fortalecem a fé e alimentam a espiritualidade. Trata-se de investir em si mesmos — não apenas em lazer, mas em fé, em interioridade, em vida espiritual. As pessoas saem daqui com mais força para viver, mais preparadas para enfrentar os desafios do dia a dia, com o coração renovado e a esperança reacesa.
Para além do aspecto religioso, peregrinar também envolve silêncio, sacrifício e encontro consigo mesmo. Que lição pessoal Guadalupe lhe trouxe nesta visita?
Esta visita a Guadalupe foi, sem dúvida, a mais marcante para mim. Ela aconteceu justamente em um momento muito especial da minha vida, no qual estou iniciando uma nova obra dedicada a Nossa Senhora de Guadalupe em São Paulo, confiada a mim pelo meu bispo. Por isso, senti que esta peregrinação me trouxe um novo sentido, novas inspirações, muito consolo e uma esperança renovada. Foi um tempo de graça muito profundo. Tive também a honra e a graça de contemplar de perto o milagre da tilma de Juan Diego. Pude tocar o quadro com as minhas próprias mãos, e esse foi, sem dúvida, um dos momentos que levarei para sempre comigo. Senti a presença da Virgem de Guadalupe de forma muito próxima, quase palpável, como se Ela mesma tivesse me permitido essa aproximação. Nunca me esquecerei desse momento.
Qual a sua expectativa em relação ao terço da Quaresma que começa esta semana e reúne milhares de brasileiros e estrangeiros nas madrugadas?
A expectativa para a Quaresma de 2026 está muito alta. Creio que esta minha visita a Guadalupe se tornou como um verdadeiro combustível para tudo aquilo que precisaremos viver ao longo desses 40 dias de oração nas madrugadas. Tenho certeza de que um povo vai se levantar forte, unido e perseverante na oração, e creio profundamente que muitas famílias serão transformadas pelo poder da oração. A expectativa é grande. De 18 de fevereiro a 5 de abril, viveremos algo verdadeiramente extraordinário nas madrugadas. Tenho convicção de que ninguém sairá decepcionado diante das bênçãos que virão. E, durante toda essa Quaresma, Nossa Senhora de Guadalupe estará presente conosco, dia após dia, intercedendo por cada um de nós.
*A repórter viajou a convite da Comunidade Obra de Maria

Revista do Correio
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