
O alerta é direto: o câncer de colo do útero continua crescendo no Brasil, apesar de ser uma doença evitável. Durante evento do Março Lilás — mês de conscientização sobre a prevenção da doença —, realizado pela MSD com apoio da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo) e da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em São Paulo, especialistas defenderam a ampliação da vacinação contra o HPV, o fortalecimento do rastreamento e o combate sistemático à desinformação.
Dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca) estimam mais de 19 mil novos casos de câncer de colo do útero em 2024 — um aumento de 14% em relação ao levantamento anterior. A previsão é de 7.493 mortes no mesmo período, crescimento de 4% em comparação a 2023.
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A ginecologista e presidente da Comissão Nacional Especializada (CNE) da Febrasgo, Susana Aide, lembrou que a vacina contra o HPV foi incorporada ao Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 2014. Segundo ela, a imunização é segura, eficaz e respaldada por evidências científicas consolidadas.
“O câncer de colo do útero é prevenível. Não é possível aceitar esses números quando temos vacina disponível”, afirmou. A médica ressaltou que o HPV é responsável por mais de 90% dos casos e pode provocar alterações celulares que evoluem para lesões pré-malignas e câncer quando não diagnosticadas e tratadas.
Além da vacinação, a médica destacou a importância do rastreamento periódico, hoje reforçado pela incorporação do teste de DNA-HPV no SUS, método mais sensível para detectar subtipos oncogênicos do vírus.
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Desinformação ainda é obstáculo
O HPV não está relacionado apenas ao câncer de colo do útero. Ele também pode causar tumores de vagina, vulva, ânus, canal anal, pênis e orofaringe. Em 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou a estratégia global para eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2030, com metas que envolvem vacinação, rastreamento e tratamento.
Apesar de o Brasil oferecer a vacina gratuitamente pelo SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, a cobertura vacinal ainda está abaixo do ideal. Para os especialistas, parte do problema está na circulação de informações incorretas e na falsa percepção de que o HPV é uma preocupação exclusivamente feminina.
Representando a Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), o urologista Roni Fernandes chamou atenção para o impacto da doença entre os homens. O Brasil registra incidência relevante de câncer de pênis, frequentemente associado ao HPV, além do crescimento de tumores de orofaringe relacionados ao vírus.
“O câncer causado pelo HPV não atinge apenas o colo do útero. Homens também podem desenvolver tumores de pênis, ânus e orofaringe”, explicou. Segundo ele, muitos desses tumores não têm rastreamento estruturado, o que torna a vacinação ainda mais estratégica.
Pesquisa apresentada no evento, com 300 entrevistados de diferentes regiões do país, revelou lacunas importantes no conhecimento da população: 34% não sabem que homens podem ser infectados; 78% desconhecem que existem mais de 100 tipos de HPV; 45% acreditam que o preservativo sempre impede a transmissão. Além disso, 66% não reconhecem a possibilidade de transmissão da mãe para filho.
Embora 85% saibam que o vírus pode ser assintomático, apenas 51% reconhecem que exames podem detectar precocemente alterações associadas ao HPV — cenário que evidencia a necessidade de ampliar campanhas educativas.
Ampliando o debate
Dentro das ações do Março Lilás, a campanha “HPV pode acontecer”, promovida pela MSD, apostou em uma estratégia de comunicação ampliada para alcançar diferentes públicos. A iniciativa contou com um squad de influenciadores digitais e artistas, incluindo a nova embaixadora Juliana Paes, além de Marcela McGowan, Amanda Meirelles, Mari Krüger, Taila Ayala e Sophia Abrahão, entre outras participantes, ampliando o alcance da mensagem nas redes sociais e estimulando o debate sobre vacinação e prevenção.
A proposta é tornar o tema mais acessível, especialmente entre jovens e adultos jovens — faixa etária mais exposta à infecção pelo vírus.
A meta global é eliminar o câncer de colo do útero até 2030. Para os especialistas reunidos no evento, a ciência já oferece as ferramentas necessárias. O desafio agora é transformar informação em atitude e ampliar a adesão à vacina antes que o HPV, silencioso na maioria dos casos, continue se refletindo nas estatísticas.
*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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