Márcio Fabiano — especial para o Correio
Take 1: Abertura
A mensagem gravada na placa da porta do banheiro era clara: "Uma pessoa educada não deixa vestígios de sua passagem por aqui". Nunca mais encontrei um alerta tão elegante e direto. Saí de lá conferindo digitais, marcas e dobrando a toalha de papel como quem embala um presente cuidadosamente. Não podia cometer um crime higiênico.
Aprovado no quesito limpeza, fui em direção à sala do cinema. Atravessei a cortina bordô e entrei no universo decorado com vitrais e madeira rebuscada assumindo o papel de parede. Fiquei besta. Sentei na poltrona e percorri visualmente toda a sala como se fosse um fiscal de espantos, sem saber qual seria a próxima cena a me fazer suspirar.
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Aos poucos, outros espectadores entravam, sentavam e assumiam suas posições como parte do espetáculo que se anunciava. Quando os vitrais se apagaram, o filme iluminou a sala e as mentes dos que ali estavam. Após o final, os vitrais se acenderam novamente. Saí e respirei o ar fresco, fedido e meio alucinógeno da Rua da Aurora. Atravessei o asfalto e fiquei no calçadão em frente admirando o letreiro que informava o nome do templo: Cinema São Luiz. Respirei fundo e caminhei. Tomando todo o cuidado para não deixar vestígios. Sempre fui uma pessoa educada.
Take 2: Meio do filme
A bilheteira me olhou, sorriu e proferiu a sentença: "Menino, todo dia você está aqui vendo filme?!" Respondi com meio-sorriso e total vergonha que sim, que eu adorava cinema com meus 10 anos de idade. "Pois, a partir de hoje, você não paga mais! Toda vez que eu estiver aqui, deixo você entrar", falou com a voz encantada. O filme era Uma janela para o céu, um drama bem piegas, típico dos anos 1970, sobre uma mulher que superava a dor em uma hora e 40 minutos de lágrimas e diálogos pré-diabéticos. Agradeci e entrei para chorar com o final do filme e o início da minha saga naquela sala em Irecê, no interior da Bahia.
Perdido no sertão central baiano, nem Gabriel García Márquez, ao criar os Buendía, poderia imaginar que a capital do feijão tinha duas salas de cinema ativas nos anos 1980: o Cine Nunes e o Cine Barbosa. Sem saber, me tornava cinéfilo, e contribuinte com a economia local. Gastava os mirreis da mesada ampliando minhas ilusões nas grandes telas.
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Uma pena que a bilheteira do Cine Nunes não teve a mesma compaixão que a colega do Cine Barbosa. Cobrava o ingresso sem dó nem piedade. Mas eu a perdoei após sair da sessão de Superman. Voando com minha capa porreta, sobrevoei a cidade atrás de Lois Lane, que gritava em algum buraco perdido da Chapada Diamantina. Até que aterrissei e descobri que eu queria mesmo era ser Lois e não o super-herói bonitão que a salvou. Entendi que os roteiros não são feitos para se encaixar em nossas vidas. Mas que as narrativas podem ser reescritas sempre que a gente sorri depois de um final.
Take 3: Final sem créditos
Quando Drácula questionou a Deus o porquê de ele ter perdido a amada, eu chorei feito uma vítima de um vampiro. Saí do cinema do Teatro do Parque, enxugando as lágrimas e fui comer pipoca. Taurinos se consolam facilmente com guloseimas. E vampiros não gostam de milho. Quando Gigliola Cinquetti cantou Dio, come ti amo no microfone do piloto que levava seu amado, meu coração parou.
Era a segunda vez que via aquele filme. O cinema era o do TIP, Terminal integrado de Passageiros, que fica num bairro bem distante de Recife. E essa sessão era única e exclusivamente às nove da manhã de domingo. Era pegar o metrô e subir a rampa apressado naquele lugar estranho, onde sempre achei que Jason estava atrás da porta do banheiro, pronto para enfiar uma faca enquanto eu fazia xixi. Não se preocupem, sei que ninguém viu esse filme nem acredita que havia uma sala de exibição numa rodoviária no fim do mundo da capital pernambucana.
Quando Nossa Senhora apareceu em O auto da Compadecida, aproveitei e pedi perdão pelos meus pecados. Fernanda Montenegro encarnou Maria como se houvesse uma fusão divina total dos papéis entre o espírito superior da mãe de Jesus e a humanidade da atriz. Lembro que uma parte da minha vida veio à mente. Metade eram os erros cometidos; outra metade, as tentativas de acerto. Mas como Jesus aceitou o pedido de Fernanda Maria, ou Maria de Fernanda, e perdoou Chicó, aceitei meu destino como se fosse o do personagem Suassunense. Saí da sala de cinema serelepe e sorrindo. Comprei pipoca e caminhei. Pelas ruas de Recife, deixei os vestígios de uma vida inteira comprando bilhetes e lembrando da bilheteira de Irecê, cujo nome eu esqueci, mas suas asas angelicais continuam sobrevoando minha saudade de menino, sempre na porta do cinema.
