Cidade Nossa

O que define um bom líder político?

Reflexão sobre a relação entre mídia e política mostra como a visibilidade pública molda lideranças, influencia disputas eleitorais e reforça o papel da imprensa na construção do debate democrático no Brasil

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Uma vez perguntei ao então presidente Fernando Henrique Cardoso quem era um bom líder político. Ele respondeu de bate-pronto: o melhor é aquele que pontua na mídia. Pontuar na mídia é relevante — e faz toda a diferença no mundo do poder e da política.

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Otávio Frias, proprietário da Folha de S.Paulo, reunia o conselho editorial em almoços com políticos. Esses encontros influenciavam editoriais e pautas. Nada do que era dito ali ia parar nas páginas do jornal como opinião do convidado — esse era o acordo. Mas o sigilo, como sabemos, é sempre relativo.

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Quando Lula esteve lá, na corrida eleitoral de 2002, Otávio Frias perguntou se ele falava inglês ou se se sentia preparado para governar sem curso superior. Lula devolveu a pedra com a força de um gesto: levantou-se da mesa e foi embora antes do fim do almoço.

Na sequência, levou o episódio aos comícios, com críticas duras a parte da imprensa que, segundo ele, o via como "inferior" por sua origem operária e pela ausência de diploma formal. Lula ganhou aquele debate — e a eleição. Pontuar na mídia e não fugir do debate é essencial para líderes políticos.

Mesmo com erros e limitações, a imprensa ajudou o país a evoluir. Hoje, o Brasil se apresenta ao mundo como um país plural e multirracial, com indígenas, negros, brancos, migrantes e seus descendentes.

Quero crer que avançamos também na consciência sobre a qualidade da representatividade. Considero que o Brasil tem bons líderes. Depois de três décadas convivendo com a política, é justo reconhecer que há líderes com senso de responsabilidade, preocupação com o país e espírito público — em todas as correntes de pensamento.

O que falta, então? Acredito que falte um propósito inspirador e mobilizador, capaz de empolgar e reunir. Minha geração viveu momentos assim na campanha pelas Diretas Já e na transição do regime militar. A Constituinte também despertou fé no futuro e esperança concreta.

Talvez, por sermos um país continental, tenhamos vocação para acreditar em projetos grandes, que arrebatam e mobilizam. Não somos um país de metas pequenas, de ambições estreitas ou de promessas miúdas.

A vida política faz mais sentido quando carrega algum ingrediente de sonho e grandeza épica. Mas, se isso não acontecer, seguiremos em frente. Afinal, o sentido da vida está na própria vida — não apenas na política.

O destino não está só em programas, instituições ou sistemas, mas em cada um de nós, na família que formamos e no trabalho que realizamos.

Sempre achei que nascer em algum lugar era irrelevante. Não é. Ser brasileiro é um compromisso. É escolher ficar. É escolher participar. É escolher melhorar o que é nosso. Esta é a nossa terra. É aqui que devemos seguir construindo um país à altura das nossas ambições. Afinal, tudo passa. O país fica — com a grandeza que soubermos manter, sustentar e preservar.

 

*Vanda Célia é jornalista em Brasília, onde trabalhou no Jornal do Brasil, Correio Braziliense, Jornal da Tarde e Revista Época. Atualmente, atua em assessoria de imprensa.

 

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postado em 08/03/2026 06:00
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