Saúde

A virilha no limite: entenda o que é a pubalgia e como tratá-la

A pubalgia compromete a explosão física e exige reabilitação rigorosa para evitar maiores problemas a atletas. Diagnóstico rápido é a chave para uma boa recuperação

É importante estar atento a qualquer tipo de dor intensa na virilha -  (crédito: Freepik)
É importante estar atento a qualquer tipo de dor intensa na virilha - (crédito: Freepik)

Um inimigo silencioso que afeta atletas, mas também aparece em pessoas que não praticam atividade física com tanta intensidade. O que começa como um incômodo leve na virilha pode interromper carreiras promissoras e transformar cada passo em um desafio. A pubalgia, lesão que se tornou o "pesadelo" de esportistas de alto rendimento e amadores, exige mais do que repouso: demanda uma compreensão profunda do quadro. 

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Mais conhecida por ser uma lesão de sobrecarga, a pubalgia surge devido ao estresse repetitivo na região da sínfise púbica — a articulação da frente da bacia — e nas estruturas ao redor, como os tendões adutores e a musculatura regional. De acordo com Sthefania Sad Rodrigues Pereira, médica da seleção brasileira de taekwondo e parataekwondo e especializada em medicina do esporte, movimentos de chute, mudanças bruscas de direção e sprints são os principais gatilhos. 

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"Frequentemente, vemos um desequilíbrio: a musculatura do abdome está fraca, enquanto os adutores da coxa estão muito fortes ou tensos, gerando uma 'cabo de guerra' que inflama a região", explica. Embora seja menos comum, a pubalgia pode acometer pessoas sedentárias. Nesses casos, a causa pode estar relacionada a desequilíbrios posturais, cirurgias abdominais prévias ou até problemas de mobilidade no quadril. 

Desse modo, se uma pessoa que não treina sente essa dor persistente na virilha que piora ao fazer esforço abdominal ou fechar as pernas com força, a especialista afirma que é necessário investigar com um profissional da área, justamente para diferenciar de outras condições, como as hérnias convencionais, tradicionalmente confundidas com o quadro de pubalgia.

Tempo da lesão

Segundo Sthefania Sad Rodrigues, a duração da lesão é variável e depende muito da rapidez do diagnóstico. Com um tratamento conservador bem feito, a maioria dos atletas consegue retornar às atividades em cerca de três a quatro meses. "No entanto, se o paciente ignorar a dor e não tratar, o quadro pode se tornar crônico e persistir por muito mais tempo, às vezes exigindo intervenção cirúrgica."

Sintomas

O sinal clássico é a dor na virilha ou no pé da barriga, que pode irradiar para a parte interna das coxas ou até para a região escrotal. No início, conforme detalha a especialista em medicina esportiva, a dor aparece só após o exercício, mas depois começa a surgir durante a atividade e até em movimentos simples do dia a dia, como tossir, espirrar, entrar no carro ou cruzar as pernas. "Isso gera uma limitação importante: o atleta perde potência e o amador, muitas vezes, precisa interromper totalmente seus treinos por causa do desconforto", completa. 

No esporte

Em atletas, a pubalgia pode ser muito prejudicial porque, devido à dor, ela muda a mecânica do corpo inteiro e costuma virar um ciclo doloroso, trazendo mais sobrecarga. De acordo com Daniel Daniachi, ortopedista do Centro Especializado em Ortopedia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, o atleta perde potência e controle muscular, pois ao transferir força, ele sente dor e inibe o movimento completo e correto. Essa compensação sobrecarrega outras articulações, como coluna lombar e sacroilíaca, além de favorecer a cronificação da dor. "Inevitavelmente, a queda de performance é uma evolução natural."

Identificação

O diagnóstico, conforme detalha Daniel Daniachi, pode ser feito apenas com exame físico e história clínica do paciente. Em alguns casos, o médico pode usar exames de imagem, como ressonância ou até testes terapêuticos com infiltração local, para avaliar se houve melhora da dor.

Problema recorrente

No futebol, a pubalgia tem sido cada vez mais comum. No passado, jogadores, como o brasileiro Kaká, tiveram de lidar com o quadro. Agora, mais recentemente, o espanhol Lamine Yamal, ganhou notoriedade por apresentar essa condição, mesmo aos 18 anos. Profissionais da área já destacam sua perda de explosão e aceleração na hora de correr em campo.

Palavra do especialista

Qual a melhor forma de tratamento contra a pubalgia?

A primeira escolha é sempre o tratamento conservador. Iniciamos com controle da dor (gelo e anti-inflamatórios) e evoluímos para uma fisioterapia ativa, focada no fortalecimento do 'core' (centro do corpo) e no equilíbrio da musculatura pélvica. O Protocolo de Holmich é uma referência excelente para isso. Trata-se de um programa de fisioterapia ativa e estruturada, com duração média de oito a 12 semanas. Diferente de terapias passivas, esse método foca em exercícios supervisionados de fortalecimento dos adutores, do abdômen e da estabilização pélvica. O objetivo é restaurar o equilíbrio e o controle muscular da região da bacia, permitindo que o corpo suporte novamente as cargas do esporte ou do dia a dia. Começamos com exercícios de baixa carga e avançamos conforme a ausência de dor. Estudos mostram que essa abordagem tem uma taxa de sucesso de até 80% para o retorno seguro às atividades. A cirurgia é uma exceção, reservada apenas para casos refratários, quando não há melhora consistente após 12 semanas de reabilitação focada e bem executada.

Quais complicações a pubalgia pode trazer se não tratada?

Sem tratamento, o quadro pode evoluir para uma dor crônica incapacitante, impedindo até caminhadas simples. Estruturalmente, a inflamação constante pode levar a uma osteíte púbica grave (desgaste do osso) ou a rupturas completas dos tendões. Além disso, quanto mais tempo se espera para tratar adequadamente, maior a chance de recorrência da dor no futuro.

Sad Rodrigues Pereira é médica da seleção brasileira de Taekwondo e Parataekwondo e especializada em medicina do esporte

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postado em 08/03/2026 06:00
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