Cidade Nossa

Cidade Nossa: Todos os Brasis nas telas

Inspirado pela obra de Kleber Mendonça Filho, Cláudio Ferreira reflete sobre a urgência de um audiovisual que rompa fronteiras geográficas e mostre o Brasil urbano em toda a sua complexidade

REV-2203-CRONICA -  (crédito: maurenilson)
REV-2203-CRONICA - (crédito: maurenilson)

Um dos meus prazeres ao assistir a O agente secreto foi rememorar as paisagens do Recife nos anos 1970. Adolescente, com família lá, passava as férias longas de estudante entre a praia e os outros pontos da cidade. O cinema São Luiz, por exemplo, era destino certo: sempre tinha fila para ver o último filme dos Trapalhões ou os sucessos internacionais de bilheteria, os chamados "blockbusters". Tinha ônibus cheio, tinha camelô na rua, tinha o perigo dos assaltos. Tinha a cidade pulsante.

Para além das minhas lembranças particulares, fiquei feliz de ver Recife na tela grande do cinema. Infelizmente, o audiovisual brasileiro que nos chega com mais frequência se concentra no binômio Rio-São Paulo. O grande repertório de novelas, por exemplo, já deixa a Zona Sul do Rio íntima da gente. Todo personagem que está triste vai chorar na praia. E muitos dos "barracos" acontecem nas calçadas do Rio, com porteiro olhando, vizinhos tentando apartar brigas, e as fofoqueiras registrando tudo para espalhar depois.

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As novelas se revezam entre Rio e São Paulo. Na maioria das vezes, a gente identifica a cidade-cenário por imagens aéreas, bonitas, mas meio impessoais. Por isso, mais um ponto para O agente secreto. O Recife que está ali não é o do cartão-postal: tem gente comum aparecendo o tempo todo, tem a confusão do centro da cidade, sujeira, barulho.

Então por que nossas histórias não são contadas, com mais frequência, sob pontos de vista diferentes como fez Kleber Mendonça Filho? Como os horrores da ditadura foram vividos em Recife foi o que ele mostrou. Mas como terá sido em Curitiba? Em Macapá? Em Montes Claros?

Nosso cinema e nossa televisão saem do eixo Rio-São Paulo quando querem mostrar paisagens naturais bonitas, cidades históricas ou zonas rurais extensas. Mas o "urbano" está sempre relacionado com a grandiosidade de São Paulo ou com a maestria do Rio em conjugar prédio, montanha e mar. É como no cinema norte-americano, onde Nova York e Chicago dominam as telas no quesito "arranha-céu", apesar de outras dezenas de cidades dos Estados Unidos também terem prédios altos de arquitetura arrojada.

Imagino, por exemplo, uma perseguição policial tendo como cenário a Avenida Ana Costa, a principal do centro de Santos. Do asfalto, bandidos e polícia iriam parar na praia. Ou então um passeio romântico no largo de São Sebastião, no centro de Manaus, com o Teatro Amazonas ao fundo e barraquinhas vendendo comida. O dia a dia de um mafioso poderia ser mostrado na região próxima à Rodoviária de Ribeirão Preto. E assim por diante.

Seria uma oportunidade de conhecermos outras paisagens urbanas que não Leblon, Copacabana e Jardins. Paisagens em movimento, com gente, meios de transporte, problemas e coisas bonitas, drama, comédia e aventura. Figurantes de todos os tipos físicos ajudando a contar boas histórias. Atores e atrizes deixando-se "contaminar" pelos diversos ambientes e pelos modos de vida particulares na hora de comporem os personagens que nos encantarão mais tarde, nas telas.

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CF
postado em 22/03/2026 06:00
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