Isabella Campos — especial para o Correio
Lá estava o paciente na sala de cirurgia diante do bom médico a lhe operar a aorta por sete horas, de peito aberto e inconsciente, entregue ao desconhecido mundo da medicina. Ali, estruturas seriam reparadas para o restabelecimento de funções e manutenção de um sistema vivo pulsante: o precioso universo particular, ou vida, de um competente professor de inglês.
Enquanto isso, uma formiga simpática interrompia minha concentração, atravessando a clara mesa de madeira feita por Chico, o marceneiro, enquanto eu lia Goethe, que atravessava a Itália. — Ah! Você veio me ver de novo?, falei. Parei para observar sua agilidade e destreza. Meus olhos se moviam para para lá e para cá. A formiga tinha pressa e parecia que apenas ia, sem pensar aonde. Sequer parava para tomar um cafezinho comigo, nem para um daqueles bem mineirinhos mesmo, com cuscuz, azeite e ovos mexidos.
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Voltei à leitura, torcendo para que a cirurgia do professor desse certo. Eis que, de repente, enquanto Goethe descia a Itália, a formiga, ponto preto andante, pôs-se a subir a parede do quarto em direção ao teto, sem qualquer apoio para as patas, escada, nada… Hum… Apoiei os cotovelos na mesa, a cabeça sobre as mãos cerradas e, olhando para ela, fiquei absorta a pensar… Haveria um jeito de eu fazer o mesmo?
Foi aí que me lembrei da infância, quando eu deitava na cama do quarto de barriga para cima, com a cabeça pendente para fora, olhando o chão e o teto de cabeça para baixo, imaginando como seria se a casa fosse invertida. Se o chão fosse o teto, e o teto fosse o chão… Como seria? Como seria se nós andássemos de cabeça para baixo? Eu dava asas à imaginação, sem nem mesmo conhecer Salvador Dali.
Levantei-me e fui à internet: "Por que as formigas não caem quando sobem paredes?" As formigas, descobri, têm nas patas uma estrutura mole formada por pelos, que aderem a superfícies verticais por meio de um mecanismo de sucção a vácuo. "Sucção a vácuo? Teriam minidesentupidores de pias nas patas? Bem, continuei a ler a descrição na internet: "...além disso, as formigas têm peso pequeno em relação à superfície de seu corpo, por isso também é fácil subirem paredes". — Danou-se!, pensei. Teria de parar de comer meu cuscuzinho com ovos mexidos!
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A essa altura, a formiga sumira, mas eu sabia que ela voltaria, pois ela sempre volta. Ah! Olha ela aqui no meu braço! — Salve Simpatia! Você agora torna-se personagem de uma crônica do Correio Braziliense, como a andarilha que vence Hamish Fulton em distâncias percorridas na vida! Fulton, caros leitores, vale a pena conhecer, é um artista plástico britânico que se intitula "o artista que caminha" e ama o número sete.
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Ele transforma suas experiências de andarilho em arte e coloca pessoas para experienciar caminhadas coletivas em silêncio, a fim de que possam perceber o mundo de outra forma. Chegou a colocar 198 pessoas caminhando em fila por sete horas nos muros ao redor da piscina de Margate Tidal. Segundo ele, o ato de caminhar não deve ter apenas o único propósito de nos levar de um ponto A a um ponto B, seja de casa para o trabalho ou vice-versa, mas de ampliar a nossa percepção com a experiência, sobretudo quanto à nossa ligação com a natureza. Fulton andou pelos Andes, foi ao Japão, subiu o Himalaia. E, por incrível que pareça, chegou a medir quantos passos deu em toda a sua vida! Será que a formiga conta seus passos? Algumas chegam a 47 passos por segundo!
Já passava das três da madrugada, quando recebi a feliz mensagem: "A operação foi um sucesso! A aorta foi reparada!". Ufa! O paciente atravessara confiante a sua caminhada sob as mãos do médico-artista que lhe salvara a vida. O coração seguia em ritmo andante, ideal para passos calmos. Goethe havia atravessado a Itália inteira. E eu não consegui escalar a parede, mas isso não importa. Algo nos sustenta, quando tudo parece de cabeça para baixo.
Isabella Campos da Paz é musicoterapeuta e professora de canto
