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Pequena lesão, grande incômodo: o que é foliculite e como tratar

A condição pode surgir após depilação, barbear, suor excessivo ou atrito constante na pele. Embora geralmente seja leve, o quadro pode se tornar recorrente, causar manchas escuras e, em alguns casos, evoluir para infecções mais profundas

Bolinhas vermelhas que coçam, ardem e, às vezes, doem. Elas podem surgir na virilha, nas pernas, na barba ou nas nádegas, depois da depilação, do barbear ou até de um treino intenso na academia. A foliculite, embora muitas vezes tratada como um detalhe estético, é uma inflamação da pele que afeta homens e mulheres e pode se tornar recorrente. A condição ocorre quando o folículo piloso, estrutura responsável pelo crescimento do pelo, sofre inflamação. De acordo com especialistas, os cuidados envolvem consistência, paciência e um cuidado específico para cada caso.

Essa inflamação folicular pode ser confundida com acne ou com o simples pelo encravado, mas as diferenças existem e são importantes para evitar tratamentos inadequados. O dermatologista do Sírio-Libanês em Brasília Joaquim Xavier explica que a foliculite pode ou não ter origem infecciosa. "Ela costuma aparecer como lesões inflamadas ou com pus centradas no pelo e pode ocorrer em qualquer área do corpo onde haja pelos", afirma. Já a acne, segundo ele, envolve as glândulas sebáceas e se caracteriza pela presença de comedões e espinhas. O pelo encravado, ou pseudofoliculite, por sua vez, ocorre quando o fio cresce para dentro da pele, provocando inflamação localizada que nem sempre está associada à infecção.

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A origem da foliculite pode variar. Na maioria dos casos, está relacionada a bactérias, especialmente o Staphylococcus aureus, microrganismo que já faz parte da flora da pele, mas que pode causar infecção ao penetrar em pequenas fissuras provocadas por lâminas, cera ou atrito. Fungos, como a Malassezia, também podem estar envolvidos, principalmente em regiões quentes e úmidas do corpo. Há ainda formas mais raras associadas a vírus ou outros agentes infecciosos. No entanto, nem todo quadro é causado por microrganismos. "A foliculite também pode ser não infecciosa, surgindo apenas por trauma local, oclusão da pele ou resposta inflamatória do próprio organismo", esclarece o médico.

O contexto cotidiano contribui para o aumento dos casos. Roupas muito apertadas, tecidos sintéticos e suor acumulado criam um ambiente abafado que favorece a proliferação bacteriana. Piscinas e hidromassagens mal higienizadas também podem desencadear a chamada foliculite da piscina. Pessoas com pelos grossos e encaracolados tendem a sofrer mais com encravamentos e inflamações subsequentes. Homens que raspam a barba com frequência e mulheres que realizam depilação constante figuram entre os grupos mais afetados, assim como atletas e indivíduos com pele oleosa. Pacientes com diabetes ou imunidade comprometida podem apresentar quadros mais persistentes ou extensos.

Embora muitas vezes seja autolimitada, a foliculite não deve ser ignorada quando há dor intensa, lesões externas, formação de furúnculos ou recorrência frequente. A ausência de melhora após cerca de uma semana de cuidados básicos também é um sinal de alerta. "Quando há piora progressiva ou sintomas sistêmicos como febre e mal-estar, é fundamental procurar avaliação dermatológica", orienta  Joaquim.

Diagnóstico e tratamento

O diagnóstico costuma ser clínico, feito a partir da observação das lesões e do histórico do paciente. Em casos mais persistentes ou atípicos, pode ser necessária a coleta de material da lesão para identificar o agente causador e direcionar o tratamento adequado. A automedicação não é recomendada, especialmente com antibióticos, pois o uso inadequado pode favorecer resistência bacteriana.

Sobre o tratamento, o dermatologista explica que depende da causa e da gravidade do quadro. "De modo geral, as medidas iniciais incluem higiene local adequada, uso de sabonete antisséptico e compressas mornas. Nos casos leves, podemos indicar antibióticos em creme para uso local, dependendo da avaliação dermatológica. Quando há suspeita de origem fúngica, prescrevemos antifúngicos específicos", afirma. Segundo ele, nos casos moderados ou graves, com lesões extensas, profundas, recorrentes ou resistentes, pode ser necessário o uso de antibióticos orais sistêmicos, sempre com prescrição e acompanhamento médico.

Além do controle da inflamação, é preciso considerar as possíveis consequências estéticas. Manchas escuras, resultado da hiperpigmentação pós-inflamatória, são frequentes, principalmente quando as lesões são manipuladas. Quadros profundos podem evoluir para cicatrizes permanentes. O tratamento das marcas pode incluir clareadores tópicos, retinoides ou procedimentos a laser, sempre com orientação médica.

A depilação, embora faça parte da rotina de muitos brasileiros, pode agravar o problema. Lâmina e cera aumentam o risco de microtraumas e pelos encravados. Durante uma crise ativa, o ideal é evitar depilar a região. Raspar no sentido do crescimento do pelo e trocar a lâmina com frequência ajudam a reduzir a inflamação. Em casos recorrentes, a depilação a laser pode ser considerada uma estratégia eficaz para diminuir a incidência, já que reduz a densidade dos pelos e, consequentemente, a chance de inflamação.

Cinco erros que pioram a foliculite

Pequenos hábitos do dia a dia podem transformar uma inflamação leve em um problema persistente. Manipular a pele, escolher produtos inadequados ou manter práticas que aumentam o atrito favorecem a recorrência e as manchas. A médica dermatologista Regina Buffman alerta para as atitudes que mais agravam o quadro.

  • Espremer ou cutucar as lesões — Isso aumenta a inflamação, favorece infecção bacteriana secundária e pode causar manchas ou cicatrizes.

  • Usar roupas muito apertadas — O atrito constante na pele irrita os folículos e perpetua o quadro.

  • Rasparo pelo sem preparo adequado — Lâmina sem higiene, pele seca ou técnica incorreta facilitam microlesões e inflamação.

  • Aplicar produtos oleosos ou não indicados — Cremes densos e óleos podem obstruir os folículos e agravar a condição.

  • Automedicação com antibióticos ou corticoides — O uso sem orientação pode mascarar sintomas, causar resistência bacteriana e piorar o quadro.

Cinco sinais de que é hora de procurar um dermatologista

Embora muitas vezes seja autolimitada, a foliculite nem sempre resolve sozinha. Quando os sintomas se intensificam ou passam a comprometer áreas maiores da pele, é importante buscar avaliação médica para evitar complicações. Regina Buffman explica quais são os principais sinais de alerta.

  • Lesões recorrentes ou persistentes — Quando a foliculite não melhora após medidas básicas de cuidado.

  • Dor intensa, inchaço ou pus — Podem indicar infecção mais profunda que exige tratamento específico.

  • Manchas escuras ou cicatrizes após as crises — Sinal de inflamação prolongada e necessidade de manejo adequado.

  • Áreas extensas afetadas — Quando não está restrita a poucos folículos.

  • Febre ou mal-estar associados — Embora raro, pode indicar infecção mais séria que precisa de avaliação médica imediata.

*Estagiária sob a supervisão de Sibele Negromonte

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