Moda

Do glamour à narrativa: o tapete vermelho como despertar político e cultural

Entre homenagens, referências históricas e debates sobre sustentabilidade, produções usadas por celebridades mostram que o tapete vermelho vai muito além da moda

À primeira vista, o look de uma celebridade no tapete vermelho pode parecer apenas mais um vestido de gala. Mas, por trás de cada detalhe, muitas vezes existe uma narrativa cuidadosamente construída. Uma homenagem, uma referência cultural ou até uma declaração simbólica podem estar escondidas em elementos aparentemente simples do figurino. Um cinto, um tecido ou uma silhueta ajudam a transformar essas produções em momentos memoráveis da moda.

Em premiações e festivais, os looks funcionam como uma espécie de linguagem visual. Eles dialogam com a cultura pop, com a história da moda e com a própria trajetória das celebridades que os vestem. Um exemplo marcante foi o vestido usado por Elle Fanning, na cerimônia do Oscar de 2024, que parecia flutuar, sustentado por delicados pássaros, em uma clara referência à cena icônica de Cinderela.

O diálogo entre passado e presente também aparece quando celebridades usam exatamente as mesmas peças que marcaram outras épocas. Foi o caso de Zendaya, que surgiu no BET Awards com o mesmo vestido Versace usado por Beyoncé durante a era do hit Crazy In Love. Anos antes, para adaptar a peça à performance, Beyoncé havia cortado o vestido, criando um visual que se tornaria icônico.

Às vezes, a referência aparece de forma mais sutil. No Oscar de 2022, Uma Thurman surgiu com um vestido clássico e elegante que parecia apenas uma escolha sofisticada. Mas, quando subiu ao palco para dançar com John Travolta, a lembrança do filme Pulp Fiction se tornou inevitável.

Reprodução/Instagram/@ellefaning - Elle Fanning no Met Gala 2024, com vestido inspirado em Cinderela

Histórias no red carpet 

Para especialistas, o tapete vermelho se transformou ao longo dos anos. Mais do que um espaço para lançar tendências, ele passou a funcionar como um palco de narrativas visuais e posicionamento de imagem. A fashion designer Dheise Oliveira explica que hoje o impacto desses eventos vai além da moda. “Eu diria que o tapete vermelho hoje é menos sobre ditar tendências imediatas e mais sobre construir narrativas visuais poderosas. Antigamente, um look usado em um grande evento podia influenciar diretamente o que as pessoas iam querer usar na próxima estação”, afirma.

Segundo ela, com a velocidade das redes sociais e a multiplicidade de referências, a moda se descentralizou e os looks passaram a cumprir outra função. “O que o tapete vermelho faz muito bem atualmente é funcionar como uma vitrine estratégica de imagem. Cada look é pensado quase como uma campanha de marketing.”

A consultora de imagem Doró Mendonça também acredita que o tapete vermelho mudou de função ao longo dos anos. “Celebridades e marcas usam esse espaço para comunicar identidade, valores e direção de imagem.” Alguns looks, segundo ela, tornam-se inesquecíveis justamente por ultrapassar os limites da moda. E cita como exemplo o vestido preto com colar dourado em forma de pulmões da Schiaparelli, usado por Bella Hadid no Festrval de Cannes. “Esse look entrou para a história porque ultrapassou o limite entre moda e arte. Foi ousado e impossível de ignorar.”

Normalmente, as vestimentas dos red carpets marcam a história justamente por ultrapassarem o universo da moda e entrarem para a cultura pop. Dheise Oliveira cita como exemplo o vestido verde Versace usado por Jennifer Lopez no Grammy de 2000. “Além de ser visualmente impactante, ele teve um efeito cultural gigantesco, foi tão pesquisado on-line que acabou inspirando a criação do Google Images”, explica.

Outro momento que se tornou icônico foi o look totalmente jeans usado por Britney Spears e Justin Timberlake no American Music Awards de 2001. “Aquela produção virou um ícone pop porque foi ousada, divertida e muito representativa do espírito dos anos 2000”, afirma. Segundo a especialista, o contraste entre a estética casual do jeans e a formalidade tradicional do tapete vermelho foi o que tornou o momento tão memorável.

Entre os exemplos mais radicais está o famoso vestido de carne usado por Lady Gaga no MTV Video Music Awards de 2010. “Mais do que um choque visual, o look foi pensado como uma declaração sobre liberdade individual e direitos humanos. A roupa funcionava como um manifesto”, diz Dheise. Para ela, esse tipo de produção transforma o figurino em imagem histórica e mostra como o tapete vermelho também pode ser uma forma de expressão cultural.

Reprodução/Instagram/@zendaya - No BET Awards 2021, Zendaya reproduziu um vestido utilizado por Beyoncé em 2003, na mesma premiação

Inspiração e tendências 

Mesmo que muitas produções pareçam distantes da realidade do público, elementos desses looks podem ser adaptados para eventos comuns. “Pode não parecer, mas é muito simples se inspirar em looks de red carpet na vida real”, explica Dheise. Segundo ela, o primeiro passo é identificar elementos específicos da produção. “Depois, escolher quais elementos daquele look usado são aplicáveis, como silhueta, textura, tecido, recortes ou cor.”

Mesmo fora das premiações, a estética do tapete vermelho pode inspirar produções do dia a dia. “Grandes produções sempre têm um elemento dominante, pode ser uma cor intensa, uma textura marcante, um decote ou um acessório escultural”, afirma Doró Mendonça. Segundo ela, a chave é encontrar equilíbrio. “Em eventos sociais, a coerência entre personalidade, ocasião e escolha estética é o que transforma um look comum em inesquecível.”

Quando o assunto são tendências, as especialistas apontam diferentes caminhos convivendo ao mesmo tempo no tapete vermelho. Dheise Oliveira observa um retorno da sensualidade nas produções. “Olhando as premiações e os festivais mais recentes, eu percebo o retorno de uma sensualidade com muita personalidade, tecidos transparentes, rendas e vestidos justos com efeito segunda pele”, explica.

Outra tendência forte é o uso de texturas e superfícies que captam a luz. “Tecidos metálicos, bordados extremamente elaborados e aplicações tridimensionais estão muito presentes”, afirma. Ao mesmo tempo, a alfaiataria feminina também ganha espaço. “Muitas celebridades estão escolhendo ternos, blazers estruturados ou conjuntos de duas peças em vez do vestido tradicional.”

Doró Mendonça também observa essa diversidade estética. Para ela, o tapete vermelho vive uma espécie de dualidade. “Vejo uma sofisticação silenciosa, com construção impecável e poucos elementos ganhando destaque”, afirma. Ao mesmo tempo, produções dramáticas e esculturais continuam presentes. “Essa dualidade é muito comum e saudável, porque inspira a todos os gostos e estilos.”

Reprodução/Instagram/@theacademy - Ariana Grande no tapete vermelho do Oscar 2025

Peças de arquivo 

Outra curiosidade frequente é o destino das roupas depois que o evento termina. Muitas pessoas imaginam que as peças pertencem às celebridades, mas isso nem sempre acontece. “Na maioria das vezes, os looks de tapete vermelho são emprestados pelas casas de moda ou pelos stylists como parte de uma estratégia de visibilidade da marca”, explica Dheise.

Após a cerimônia, a peça costuma voltar para os arquivos das grifes. “Muitas maisons mantêm arquivos extremamente organizados porque esses vestidos acabam se tornando parte da história da própria marca.” Em alguns casos, eles reaparecem em exposições, editoriais ou campanhas. “Peças de alta-costura ou de coleções importantes voltam a circular em sessões de fotos, capas de revista ou projetos especiais”, acrescenta.

Nos últimos anos, porém, o reaproveitamento de roupas também passou a ganhar destaque no tapete vermelho. Celebridades como Jane Fonda, Cate Blanchett e Angelina Jolie já repetiram looks em eventos importantes, algo que antes era visto com certo preconceito na indústria da moda.

O reaproveitamento também aparece entre gerações. Na estreia do filme Eternos, em 2021, Zahara Jolie-Pitt cruzou o tapete vermelho com um vestido Elie Saab que sua mãe, Angelina Jolie, havia usado originalmente no Oscar de 2014. Algo semelhante aconteceu quando Coco Arquette, filha de Courteney Cox, apareceu com um vestido roxo que a atriz havia usado em um tapete vermelho em 1998.

Segundo Dheise, esse movimento está ligado à discussão sobre sustentabilidade. “Há muito tempo existe essa ‘regra não escrita’ no tapete vermelho de que uma celebridade não deve repetir um look. Mas essa mentalidade está mudando conforme a indústria da moda passa a discutir mais seriamente o consumo consciente”, afirma.

Reprodução/Instagram/@theacademy - Mikey Madison, vencedora do Oscar de Melhor Atriz de 2025, na premiação

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Reprodução/Instagram/@zendaya - No BET Awards 2021, Zendaya reproduziu um vestido utilizado por Beyoncé em 2003, na mesma premiação
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Reprodução/Instagram/@bellahadid - Bella Hadid foi ao Festival de Cannes 2021 com vestido Schiaparelli e um colar que imita a anatomia dos brônquios do pulmão
Reprodução/Instagram/@theacademy - Ariana Grande no tapete vermelho do Oscar 2025
Reprodução/Instagram/@theacademy - Kylie Jenner e Timothée no Oscar de 2025