Por Jorge Henrique Cartaxo
Embevecido, inquieto, apaixonado como um príncipe do eterno, ele queria fazer do seu tempo o destino da pátria. É esse o sentimento que temos sempre que nos deparamos com alguma reflexão sobre Juscelino Kubitschek e a sua presença na história do Brasil e, em particular, na construção da nossa cidade.
Quando, na hoje longínqua manhã daquele 20 de abril de 1960, ele, pessoalmente, fechou os emblemáticos portões do Palácio do Catete, sede da presidência da República desde 1897, iniciando a transferência oficial da capital da República para Brasília, nosso país parecia adentrar em uma outra civilização, em um novo tempo. Eram as formas ousadas e encantadoras de Niemeyer; era o traçado urbano poético de Lucio Costa; era o ritmo amoroso da bossa nova, Vinicius e Tom Jobim; os poemas de Carlos Drumond de Andrade; o esplendor mordenista das telas com suas cores desconexas, linhas imperfeitas, ajuntamento de incompreensões, só sensações; era a técnica, a indústria, a convulsão inebriante da ideia de progresso; era a selva lírica dos jardins de Burle Marx e a estética múltipla de Athos Bulcão. Era a profusão do mundo das coisas, da sociedade dos objetos. Como se o amanhã fosse sempre possibilidades e o futuro, eternamente azul!
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Tudo isso parecia só ser possível porque, em qualquer cena, havia sempre aquele sorriso acolhedor, o abraço amigo, e a firmeza inquebrantável de JK. Parecia que a perfeição, que sabemos inexistente, estava sempre ali. Parecia que a impossível inexistência de erro, aqui era possível e existia. Seria quase um demiurgo, o organizador do caos, o artesão da virtude. Sabemos, nada é exatamente assim. Ninguém é venerandamente assim. Mas havia nele uma sutil magia e singularidade que os alemães chamam de Zeigesit: o Espírito do Tempo. Era como se ele representasse o conjunto de ideias, expectativas, sonhos, valores e tendências da sua época, tão rara quanto extraordinária. JK emanava, expressava e representava o sabor de um tempo, o aroma de um encanto que se desejaria sem fim.
Juscelino nos deixou, de forma trágica e inesperada, no final de tarde de 22 de agosto de 1976. Sim, há 50 anos! Ainda sob as sombras de razões plausíveis, o Chevrolet Opala, dirigido por Geraldo Ribeiro, que levava JK de São Paulo para o Rio de Janeiro, vai de encontro a um caminhão que vinha em sentido contrário, no município de Resende, na mesma estrada. Ambos morreram na hora. Na versão oficial, o Opala teria sido atingido por um ônibus quando, desgovernado, colidiu com um caminhão. Diversas investigações posteriores apontam numa outra direção. Geraldo teria sido atingido, na cabeça, por um projetil. Sem comando, o Opala encontra a morte.
No dia 7 daquele mesmo agosto de 1976, um boato tomou conta do país: Juscelino teria morrido num desastre de automóvel na mesma estrada entre o Rio e São Paulo. O esclarecimento viria nos jornais à noite e na manhã seguinte. Entre um momento e outro, no Rio de Janeiro, dona Sarah Kubistchek, pressionada pela imprensa, ligou para Vera Brant, amiga de JK em Brasília. Vera resolve ir ao encontro de JK, em Luziânia. "Juscelino, acho que jogaram esse alarme falso para avaliar que tipo de emoção causaria a sua morte. Cuidado, que vão te matar", vaticinou Vera Brant ao abraçar o amigo, sorridente, mas apreensivo.
JK celebrou em Paris, a vitória de Getúlio na Revolução de 1930. Em1932, já no Brasil, como médico militar, combateu os paulistas, ao lado de Vargas, na Revolução Constitucionalista. Findo o embate, JK foi convidado para ser chefe de gabinete de Benedito Valadares. Em 1940, foi nomeado prefeito de Belo Horizonte. Em 1945, eleito deputado federal constituinte. Em 1950, elege-se governador de Minas Gerais. Em 1955, presidente da República.
No seu artigo (Ano bom para lembrar JK), no último domingo, a editora do nosso Correio Braziliense, Ana Dubeux, com seu habitual estilo cativante, anunciou as celebrações que este jornal organizará ao longo deste ano tão simbólico para a história de Brasília e do Brasil. Exemplaridade, ética pública, tolerância e rigor democrático, isso era JK. Amálgamas cívicos que ele tentou nos legar com Brasília, a nossa Capital da Esperança!
Jorge Henrique Cartaxo é jornalista
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