Especial

Entre a curva e o horizonte: as histórias de uma Brasília escondida

Uma jornada entre os lugares que crescem na cidade que completa, na próxima terça-feira, 66 anos. Uma Brasília que, cada vez mais, encanta quem a visita e quem nela mora

Em cada traço de Brasília existe uma beleza escondida. Uma história daquelas que só vê quem consegue prestar atenção. Das linhas imaginadas por Lucio Costa ao sonho de Juscelino Kubitschek, quase que perdidas entre tantos lugares a serem explorados. Nas áreas residenciais ou na rica cultura estabelecida na cidade, espaços não tão escondidos assim crescem e encantam os brasilienses, sobretudo com o passar dos anos.

Esse popular Plano Piloto, idealizado até nos pormenores, leva aos quatro cantos do país a famosa arquitetura de Brasília. No mundo digital, é comum ler ou escutar que a cidade "é tão bem feita", "tão bem desenhada". E para quem nela vive, sabe bem que isso é verdade. Para a professora Maria Fernanda Derntl, do Departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB), a arquitetura e o urbanismo originais do Plano Piloto são uma expressão do movimento moderno.

Com isso, em oposição a ruas desordenadas, congestionadas ou poluídas, o modernismo propôs uma cidade em que os edifícios se disporiam em meio a grandes espaços verdes, por onde os pedestres poderiam transitar livremente (daí os pilotis), com uma separação entre as zonas funcionais da cidade, com base em um traçado ordenado de ruas e eixos viários que ligaria rapidamente as diferentes áreas. 

"A ideia de organizar superquadras em unidades de vizinhança era um dos conceitos formulados para a renovação das cidades norte-americanas nas primeiras décadas do século 20. O Plano Piloto baseia-se nesses princípios. É importante lembrar que o território do DF também foi concebido segundo princípios de planejamento urbano em voga internacionalmente nos anos de 1950", explica a professora.

Com isso, esse Plano tão bem construído por Lucio Costa resultou em uma das cidades mais bonitas do país. O que muitos não veem, nem mesmo a maioria daqueles que aqui moram, é que ainda existem lugares a serem descobertos. Nas redes sociais, trends como "O que fazer em Brasília" viralizam constantemente, apresentando espaços pouco visitados, mas que levam consigo atividades e belezas encantadoras. 

Riqueza artística e cultural

Se o assunto é arte, isso Brasília tem de sobra. É inegável que aqui, tanto nas paredes grafitadas quanto em locais fechados, a riqueza cultural que abrange a cidade é extremamente recheada. O Centro Cultural TCU, sem dúvidas, é um desses lugares que, de repente, começou a crescer em número de visitantes. De acordo com Ana Cristina Novaes, diretora-geral do Instituto Serzedello Corrêa (ISC), o espaço colhe os frutos de uma estratégia iniciada em 2025: a aposta em grandes exposições e parcerias com acervos de peso. 

O resultado é a consolidação de Brasília como um polo cultural capaz de rivalizar com outras capitais. O grande destaque de 2026 é a exposição de Tarsila do Amaral. Fruto de uma cooperação com instituições renomadas como o MASP, a Pinacoteca e o MAC-USP, a mostra tornou-se um fenômeno de público. "São mais de 26 mil visitantes em apenas dois meses e cerca de 2 mil pessoas por final de semana", detalha.

Além de Tarsila, o espaço já trouxe à capital obras de mestres como Salvador Dalí, Di Cavalcanti e Candido Portinari, por meio de intercâmbios com o Museu de Valores do Banco Central e o Museu da Língua Portuguesa. "Nosso objetivo é qualificar a programação e democratizar o acesso à arte, contribuindo para a descentralização dos circuitos culturais tradicionais", afirma Ana Cristina Novaes.

Apaixonada por arte e pela cidade, Stephane Costa, 23 anos, visitou o Centro Cultural pela primeira vez há poucos dias. "Queria muito vir aqui", destaca. Encantada com a exposição, fez questão de passear por cada obra e fazer os melhores registros da mostra de Tarsila. "Morar em uma cidade que é, por si só, uma obra de arte, um museu a céu aberto, muda completamente a forma como eu enxergo tudo ao meu redor. É um privilégio constante, uma inspiração que faz parte da minha rotina", completa.

O que o CCTCU oferece

  • Educação especializada: O projeto Diálogos Visuais foca em estudantes que se preparam para o Programa de Avaliação Seriada (PAS) da UnB.

  • Inclusão: visitas mediadas para o público surdo ocorrem às quintas e aos sábados (das 13h às 17h).

  • Programação sazonal: edições especiais de férias (verão e inverno) e o Museu do TCU, com exposições históricas.

  • Pintura: durante o mês de abril, pinturas livres ou com temáticas estão presentes na grade de programação do CCTCU. 

Projeção internacional 

O prestígio do Centro Cultural alcançou um novo patamar ao ser selecionado para integrar a itinerância da 36ª Bienal de São Paulo. A inclusão no roteiro de um dos eventos mais importantes do mundo reforça o papel do CCTCU como um ambiente plural, que une o acadêmico ao popular e o regional ao global.

O local oferece visitas mediadas agendadas para escolas e horários fixos para o público espontâneo — fins de semana, às 9h e 14h. A programação inclui ainda shows, dança, palestras e cinema.

Ed Alves CB/DA Press -
Ed Alves CB/DA Press -
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O lar do artista

Distante da estética modernista que define o Eixo Monumental, a residência projetada por Oscar Niemeyer para uso próprio, revela uma face escondida do arquiteto. Construída em estilo colonial, a edificação hoje integra o patrimônio da Universidade de Brasília (UnB) como um dinâmico centro cultural gerido pela instituição. Rebatizada como Casa Niemeyer, o espaço abriga exposições de arte e atividades diversas, estando localizado no Setor de Mansões Park Way (Quadra 26, Conjunto 3). O público pode visitar o local de terça a domingo, das 9h às 19h.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - Casa Niemeyer, no Park Way, que faz parte do patrimônio da UnB

A beleza da memória

Nascer e crescer em Brasília é, certamente, um privilégio para poucos. A fotógrafa Esther da Silva Oliveira, 26, enxerga na cidade um jeito único de existir, que vai além da infraestrutura e da organização. “Para mim, é sobre pertencimento, é onde eu me reconheço e me sinto em casa de verdade”, ressalta. E com a profissão, teve ainda mais o costume de olhar ao redor. 

Perceber, assim, uma Brasília profunda e repleta de diversidades, principalmente no centro dela, no coração Plano Piloto, onde tudo acontece. “Como fotógrafa de casamentos e casais, muitos clientes chegam com esse carinho enorme pela cidade e o desejo de trazer Brasília para os ensaios, de mostrar que são daqui e que se orgulham disso. E, a partir disso, comecei a buscar cenários que traduzissem essa identidade.”

Isso fez com que ela conhecesse não só os pontos mais icônicos e turísticos, mas também as belezas escondidas, como cantinhos nas entrequadras e espaços menos óbvios, mas cheios de personalidade. Um desses espaços é a Caixa Cultural Brasília, um ambiente que ocupa um espaço especial na história de Esther. 

“Ao mesmo tempo em que me traz uma sensação de nostalgia, ela também é muito presente na minha vida hoje. Sempre que volto lá, lembro dos passeios de escola, de exposições que me marcaram e de momentos felizes que vivi ainda no ensino fundamental e médio. Existe um valor muito simbólico e afetivo nessas memórias”, relembra a fotógrafa. A Caixa Cultural existe em sete capitais, incluindo Brasília: Curitiba, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Inaugurada em agosto de 1980, esse espaço, em Brasília, foi o primeiro ambiente cultural criado pelo banco. Tantos anos depois, a cultura atemporal permanece intacta, preservando a contemporaneidade dos artistas que surgem. Localizado no edifício da matriz da Caixa, ou seja, na sua sede, o espaço cultural conta com cinco galerias de arte, um teatro, salas de oficina, o Jardim das Esculturas e o Átrio dos Vitrais — esse último sendo extremamente requisitado e popular nas redes sociais. 

Serviço

Endereço: SBS – Quadra 4 – Lotes 3/4 – Brasília – DF

Horários de visitação: terça a sexta e domingo, das 13h às 21h, Sábado das 9h às 21h.
Estacionamento gratuito para visitantes aos finais de semana e feriados, de terça a sexta disponível a partir das 18h.

Ed Alves/CB/DA Press -
Ed Alves/CB/DA Press -

O céu como moldura

A singularidade de Brasília mora, principalmente, no fato de ser uma das poucas cidades do mundo planejadas por completo em um intervalo curto de tempo. Para a arquiteta Luiza Ceruti, mestre pela UnB, um dos elementos fundamentais dessa identidade é a preservação do horizonte — o limite de altura dos blocos residenciais não apenas organiza o espaço, mas garante que o céu permaneça como o grande protagonista da paisagem urbana. 

De acordo com ela, embora muitos considerem as superquadras homogêneas, essa repetição é, na verdade, uma linha do tempo rica em nuances, em que cada edifício apresenta interpretações únicas de azulejos, cobogós e pilotis. Nesse cenário, a superquadra 308 Sul destaca-se como o exemplo máximo da "Unidade de Vizinhança" idealizada por Lucio Costa. 

Considerada uma quadra modelo pela qualidade de vida que oferece, ela funciona como uma galeria de arte a céu aberto. O projeto integra o paisagismo de Burle Marx, com seu característico laguinho de carpas, às obras de Athos Bulcão presentes no Jardim de Infância. 

A famosa Igrejinha Nossa Senhora de Fátima, projetada por Oscar Niemeyer a pedido de Sarah Kubitschek, completa o conjunto, evidenciando como a arquitetura monumental e a vivência cotidiana se entrelaçam no Plano Piloto. Um detalhe técnico importante ressaltado pela arquiteta é a autoria dos azulejos nos blocos da 308 Sul: ao contrário da crença popular, eles não foram criados por Athos Bulcão, mas, sim, pelos próprios arquitetos os projetaram, Marcelo Campello e Sérgio Rocha. 

Nesse mesmo caminho, a 108 Sul também se apresenta como uma das principais superquadras, justamente por ter sido uma das primeiras a ser construída. Lá, uma árvore que transcende o tempo é motivo de registro por aqueles que ali passam. Entre alguns ritos, dizem que quem a atravessa pela ‘porta’ criada pelo dono da banca ao lado pode fazer um pedido — e que ele se realiza.

Na visão de Luiza Ceruti, observar essas sutilezas é essencial para compreender que a arquitetura de Brasília, longe de ser estática ou repetitiva, é uma narrativa contínua que dialoga com a história e a funcionalidade da cidade desde a década de 1960 até as novas construções que seguem o modelo original.

Ed Alves CB/DA Press -
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Fé, descoberta e orgulho

E bom, entre cultura, arte e histórias peculiares, Brasília também é um templo sagrado para aqueles que apreciam espaços religiosos. Localizada no canteiro central entre as vias N1 e S1 do Eixo Monumental, a Catedral Militar Rainha da Paz é, também, um projeto de Oscar Niemeyer. A estrutura foi inaugurada em 1994, mas idealizada depois de uma visita feita pelo papa João Paulo II, em uma visita à cidade, três anos antes. 

A professora Adriana Faria Santos da Silva, 44, veio de Alagoas e desembarcou no Plano Piloto pela primeira vez. Vinda de uma realidade geográfica distinta, ela descreve a cidade como "linda e bem estruturada", surpreendendo-se com a organização e a seletividade da arquitetura brasiliense em comparação ao que vivencia em território natal. Em seu roteiro de estreia, acompanhada pela curiosidade de sua fé católica, a professora percorreu o Palácio do Planalto, o Memorial JK e a Catedral Metropolitana, onde se impressionou com a estética monumental do projeto de Niemeyer.

Nessa jornada de descoberta, Adriana conta com a condução e o conhecimento de Eduardo de Queiroz Alves, 45, taxista desde 2001. Para o motorista, é normal se tornar guia turístico, já que muitos visitantes aparecem semanalmente. Formado em engenharia, ele é apaixonado pela cidade e leva com entusiasmo a função de, vez ou outra, apresentar Brasília para quem vem de fora. 

Entre o olhar da descoberta e o orgulho de quem conduz, Adriana se apaixonou por Brasília à primeira vista, enquanto Eduardo vive isso todos os dias. Mais do que um local de trabalho, o taxista personifica o espírito brasiliense e diz, com muito orgulho, que a cidade, um museu a céu aberto, merece sempre ser compartilhada. Dos tradicionais espaços aos mais escondidos, há sempre o que descobrir no Plano Piloto.

Ed Alves/CB/DA Press -
Ed Alves/CB/DA Press -
Ed Alves/CB/DA Press -
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