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Mito ou genética? Entenda se as cores dos gatos dizem algo sobre eles

A ciência explica as cores e os padrões dos gatos, enquanto crenças populares associam pelagem a comportamento e até a sorte — o que nem sempre corresponde à realidade

Já ouviu falar que gato laranja é mais agitado? Ou que gato preto dá azar? Essas ideias fazem parte do imaginário popular há décadas e continuam influenciando a forma como muitas pessoas enxergam os felinos. Em alguns casos, essas crenças vão além da curiosidade e acabam impactando diretamente decisões como adoção e cuidado com os animais. Mas, por trás dessas afirmações, o que realmente faz sentido — e o que é apenas mito?

A resposta passa pela ciência. A pelagem é um resultado de um processo biológico complexo, que começa ainda durante o desenvolvimento embrionário. Cada cor, mancha e padrão carrega informações genéticas que ajudam a explicar por que os gatos são tão diversos — e, ao mesmo tempo, únicos.

"O padrão de cores nos gatos é estabelecido durante o desenvolvimento embrionário, a partir da ação coordenada de diferentes genes que organizam como essas cores vão aparecer no corpo", explica a médica veterinária Adriane Carminati, especialista em felinos. Ou seja, o que vemos externamente é apenas o resultado final de um processo iniciado muito antes do nascimento.

Esse "mapa" genético envolve a atuação de diferentes genes, como o Dkk4, responsável por organizar um pré- padrão das marcações na pele ainda em formação. É ele que ajuda a estabelecer onde determinadas cores vão surgir, influenciando diretamente o desenho final da pelagem.

Outro gene importante é o Taqpep, que está ligado aos padrões rajados, conhecidos como tabby. Dependendo de sua expressão, o gato pode apresentar listras finas ou desenhos mais largos e irregulares, o que contribui para a grande variedade visual entre os felinos domésticos.

Genética em cena

Por trás dessa diversidade, existem dois pigmentos principais: a eumelanina, responsável por tons escuros, como preto e marrom, e a feomelanina, que produz cores quentes, como o laranja. A combinação entre esses pigmentos, mediada por diferentes genes, é o que define a coloração final da pelagem.

Mas não é só a cor que está em jogo. Segundo a médica veterinária Vitória da Fonseca, a genética atua de forma integrada também na saúde da pele e dos pelos. "A genética não determina apenas a cor da pelagem, mas também a qualidade da pele e dos pelos. Muitos dos genes envolvidos na pigmentação participam de processos estruturais e fisiológicos", destaca.

Isso significa que a cor pode, em alguns casos, indicar predisposições específicas. "Genes que regulam a produção de melanina influenciam a proteção contra a radiação ultravioleta, tornando animais de pelagem clara mais suscetíveis a danos solares", explica a especialista.

Ainda assim, é importante evitar generalizações. "Existe relação entre a cor da pelagem e algumas predisposições dermatológicas, mas ela não é absoluta. A cor pode indicar tendências, mas não se caracteriza como uma regra", completa Vitória.

Outro ponto curioso é que fatores como temperatura também podem interferir na coloração. Em gatos do tipo siamês, por exemplo, a produção de pigmento é sensível ao calor, fazendo com que as extremidades do corpo apresentem coloração mais escura.

Mitos, crenças e o olhar humano

Se a ciência explica a origem das cores, o comportamento humano constrói significados em torno delas. Entre os mitos mais persistentes está a ideia de que gatos pretos dão azar — uma crença que, mesmo sem fundamento, ainda impacta a adoção desses animais.

Outro exemplo é a fama dos gatos laranjas como mais agitados ou extrovertidos. Apesar de populares, essas ideias não têm comprovação científica. O que existe, na verdade, é uma explicação genética: a maioria dos gatos laranjas é do sexo masculino, o que pode influenciar a percepção de comportamento.

Já os gatos tricolores são, em sua maioria, fêmeas, devido à genética ligada ao cromossomo X. Essa característica, embora verdadeira, também gera interpretações equivocadas quando associada a comportamento ou saúde.

Segundo as especialistas, esse tipo de simplificação é um dos principais problemas. "O principal equívoco está na ideia de que a cor da pelagem, por si só, determina a saúde do animal. Na prática, a saúde é resultado de uma interação entre fatores genéticos, ambientais, nutricionais e de manejo", afirma Vitória.

Quando a cor influencia a saúde

Se, por um lado, a cor não define personalidade, por outro, ela pode indicar alguns cuidados importantes. Gatos de pelagem clara ou branca, por exemplo, apresentam maior sensibilidade à exposição solar devido à menor quantidade de melanina.

"Com a exposição solar frequente, esses felinos podem desenvolver desde dermatites até lesões mais graves, como neoplasias cutâneas", alerta Vitória. As áreas mais vulneráveis incluem orelhas, nariz e pálpebras, regiões que costumam ter menor pigmentação.

A médica veterinária Muriel Becker Abreu reforça a importância dos cuidados preventivos no dia a dia. "É fundamental evitar a exposição solar nos horários de maior intensidade, entre 10h e 16h, além de utilizar protetor solar específico para animais nas áreas mais sensíveis", orienta.

Ela também destaca a importância da observação constante. "Os tutores devem estar atentos a sinais como vermelhidão, crostas ou feridas que não cicatrizam. Muitas dessas alterações poderiam ser prevenidas ou diagnosticadas precocemente com medidas simples", explica.

Outro ponto relevante é que a pelagem pode funcionar como um indicativo da saúde geral do animal. Alterações na textura, no brilho ou na quantidade de pelos podem sinalizar problemas sistêmicos. "A pelagem dos gatos é um importante indicador de saúde. Mudanças como pelo opaco, queda excessiva ou falhas podem estar associadas a doenças crônicas, distúrbios hormonais ou até dor", afirma Muriel.

 

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Além da aparência

Apesar da curiosidade em torno das cores, especialistas reforçam que escolher um gato apenas pela aparência pode ser um erro. A pelagem pode até indicar algumas predisposições, mas não define a saúde ou o comportamento do animal.

Cada gato é resultado de uma combinação única entre genética, ambiente e experiências. Reduzir essa complexidade a uma característica visual é ignorar aspectos essenciais do bem-estar animal.

Além disso, crenças populares ainda impactam diretamente a vida dos felinos, especialmente no processo de adoção. Gatos pretos, por exemplo, continuam sendo menos escolhidos, reflexo de um estigma que persiste ao longo do tempo.

Desmistificar essas ideias é fundamental não apenas para informar, mas também para promover escolhas mais conscientes. Entender a ciência por trás das cores é um passo importante para enxergar os gatos além da aparência.

 

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