
Quando o assunto é doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), a maioria das pessoas pensa apenas em humanos. No entanto, cães e gatos também podem ser afetados por enfermidades transmitidas durante o contato reprodutivo, um tema ainda cercado de dúvidas entre tutores.
Segundo a médica veterinária Tatiana Brasil, responsável pela clínica AtenVet, essas doenças existem e merecem atenção. "Existem doenças transmitidas principalmente pelo contato sexual entre cães. A mais importante e comum é o tumor venéreo transmissível (TVT), que, apesar de ser um tumor, comporta-se como uma doença contagiosa. Além dele, observamos infecções bacterianas que podem ser transmitidas durante o acasalamento."
Apesar da associação imediata com doenças humanas, nem todas têm equivalência no mundo animal. "A gonorreia é causada por uma bactéria específica de humanos e não acomete cães ou gatos", explica Tatiana. Entre as enfermidades mais frequentes nos cães, o destaque é o TVT, mas não é o único problema possível. "Podem ocorrer a brucelose canina e infecções bacterianas (vaginites e orquites)", afirma a veterinária.
O médico veterinário Igor Zimovski, diretor da Clínica Veterinária do Centro Universitário Uniceplac, reforça que, embora existam semelhanças com os humanos, há diferenças importantes. "As doenças sexualmente transmissíveis em humanos e em animais diferem principalmente em três aspectos: diversidade, impacto e controle", afirma.
Ele detalha: "Nos humanos, as DSTs são mais numerosas e incluem vírus, bactérias e protozoários com grande impacto em saúde pública (como HIV, sífilis, HPV). Já nos animais, especialmente em cães, o número de DSTs é mais limitado." Além disso, o especialista aponta diferenças na forma de disseminação. "Nos humanos, há maior transmissão indireta e implicações sociais amplas. Nos animais, a transmissão costuma estar mais restrita ao contato reprodutivo direto", ressalta.
- Leia também: Osteoartrite em pets: obesidade e sedentarismo desencadeiam a condição
- Leia também: Entre o cuidado e o exagero: sobrepeso é perigoso e afeta vida dos pets
Formas de transmissão e sinais de alerta
A transmissão dessas doenças ocorre, principalmente, durante o acasalamento, mas não se limita a ele. "Acontece principalmente por meio da monta (relação sexual), contato direto com secreções contaminadas e lambedura de regiões genitais afetadas (no caso do TVT, por exemplo)", explica Tatiana Brasil.
Igor complementa que há outras formas de contágio dependendo da doença. "No caso do TVT, também pode ocorrer por contato direto com o tumor, inclusive fora do ato sexual (lamber, cheirar ou contato com lesões)." Ele também alerta para a brucelose: "Além do ato sexual, pode haver transmissão por contato com placenta, secreções de aborto e fluidos reprodutivos."
Os sinais clínicos variam, e nem sempre são facilmente percebidos. "Depende da doença, mas os sinais mais comuns incluem: secreção vaginal ou peniana, sangramento fora do período de cio, presença de massas ou 'caroços' na região genital, lambedura excessiva da região íntima, dificuldade para urinar ou desconforto", enumera Tatiana.
Igor acrescenta que algumas doenças podem evoluir sem sintomas perceptíveis. "Algumas dessas doenças podem ser silenciosas, especialmente a brucelose, que pode ficar subclínica por longos períodos."
Diagnóstico, tratamento e riscos
O diagnóstico exige avaliação profissional. Tatiana explica que pode envolver: exame clínico detalhado, citologia (muito utilizada para TVT), exames laboratoriais (como sorologia para brucelose). Quando identificadas precocemente, muitas dessas doenças têm tratamento eficaz. "Muitas têm cura, especialmente o TVT, que responde muito bem à quimioterapia", afirma a veterinária.
No entanto, a ausência de tratamento pode trazer consequências sérias. "Quando não tratadas, podem causar infertilidade, infecções generalizadas, dor e desconforto crônico, evolução de tumores, problemas reprodutivos graves."
Igor Zimovski reforça que o prognóstico varia conforme a doença. "TVT tem tratamento altamente eficaz, geralmente com quimioterapia, com altas taxas de cura. Brucelose canina não tem cura definitiva segura; o tratamento é difícil e, muitas vezes, recomenda-se não reproduzir o animal. Herpesvírus não tem cura, apenas controle."
Prevenção e cuidados
A prevenção é apontada como a principal estratégia para evitar essas doenças. "A castração reduz o comportamento de fuga e o interesse sexual, diminuindo o contato com outros animais potencialmente infectados", destaca Tatiana.
Além disso, cuidados básicos fazem diferença. "Evitar contato com animais desconhecidos, não permitir cruzamentos sem controle sanitário, realizar exames antes de qualquer reprodução, observar alterações na região genital, manter acompanhamento veterinário regular", acrescenta.
Igor reforça que, nos animais, o controle é mais direto. "Em humanos, depende de educação sexual e políticas públicas; em animais, o controle é mais efetivo via manejo reprodutivo, principalmente a castração."
Mesmo com impactos relevantes na saúde dos animais, o tema ainda é pouco discutido. Como destaca Igor, "de forma geral, as DSTs em cães são menos variadas que em humanos, mas podem impactar significativamente a saúde e a reprodução dos animais."
Diante disso, especialistas reforçam a importância da informação e da prevenção. Observar sinais, evitar cruzamentos sem controle e manter acompanhamento veterinário são medidas essenciais para evitar problemas que, muitas vezes, passam despercebidos até estágios mais avançados.

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio