Comportamento

O elo e o nó: o que é apego ansioso e apego evitativo

Enquanto alguns se sufocam no silêncio, outros temem a entrega. Entenda como os estilos de apego moldam relacionamentos e como eles podem ser destrutivos

Dentro de uma relação romântica, duas pessoas de universos opostos se colidem quase sempre. Criações, contextos e realidades diferentes, por vezes, impactam a maneira como muitos reagem frente a uma situação de dilema afetivo. Para alguns, a proximidade é um porto seguro, enquanto para outros é um campo minado. A psicologia define essas reações como estilos de apego, conhecidos como evitativo e ansioso, que são moldes emocionais formados na infância, capazes de ditar como determinados indivíduos se comportam quando se sentem amados ou não na vida adulta. 

No amor moderno, os obstáculos, ao que parece, são infinitos. Isso, sobretudo, depois do advento das redes sociais. Para além da gama de opções amorosas não acabarem, o celular, hoje, também é motivo de debates entre muitos casais. Dessa forma, naquele natural confronto que nasce em uma discussão, o medo do abandono ou a necessidade de fuga cria dinâmicas magnéticas, mas também desgastantes. 

Para a psicóloga clínica Layana Paiva, os sinais de alerta surgem no comportamento e na fisiologia logo no início. Enquanto o apego ansioso vive em um estado de hipervigilância emocional, interpretando o silêncio como uma rejeição iminente, o apego evitativo valoriza a independência de forma extrema. "Na psicoterapia corporal, observamos no ansioso um corpo em estado de alerta, com dificuldade de relaxar e ansiedade antecipatória", destrincha a profissional. 

Contudo, o evitativo tende a recuar quando percebe maior proximidade, uma vez que tem mais dificuldades de fazer contatos emocionais sustentados. O paradoxo é que ambos sofrem, mas expressam isso em direções opostas: o ansioso busca a fusão para aliviar o medo, enquanto o evitativo busca a distância pelo mesmo motivo. De acordo com a psicóloga, é muito comum que esses dois mundos, apesar de distintos, encontrem-se no meio do caminho.

Existe uma dinâmica quase que complementar entre esses estilos, na visão da psicóloga. "O ansioso tende a se sentir atraído por pessoas emocionalmente indisponíveis porque, inconscientemente, tenta finalmente conquistar um amor que pareça seguro. O evitativo costuma se aproximar de pessoas mais disponíveis emocionalmente porque, inicialmente, isso oferece acolhimento sem exigir profundidade imediata. Isso é uma dinâmica que chamamos de co-dependência emocional", acrescenta.

A busca por segurança

No início, as definições não demonstram tanto perigo. Entretanto, é ao longo dos dias que muitos sofrem na pele o peso que é carregar excessos dentro do peito. Para Beatriz (nome fictício), 23 anos,
o tempo é o maior inimigo durante um conflito. "Sinto necessidade de resolver as discussões o mais rápido possível. Quanto mais a situação se prolonga, mais difícil se torna. A resolução rápida me traz segurança", revela.

A jovem, que namora há poucos mais de um ano, conta que seu maior gatilho ocorre quando tenta expressar uma insatisfação e não se sente acolhida. "Isso ativa o medo do abandono. Surge o receio de que, ao falar o que sinto, eu acabe afastando o meu namorado", ressalta Beatriz. É naquele instante dominado pelos pensamentos que ela, de alguma maneira, precisa falar. E mais do que isso, necessita ser ouvida.

Com isso, os temores de Beatriz não nascem somente do silêncio que vem do companheiro, mas quando diz o que sente e percebe que não foi entendida. "Quando esse tipo de situação acontece,
procuro primeiro regular meus sentimentos sozinha, sem depositar nele a responsabilidade de lidar com minha ansiedade ou outras emoções. Ao mesmo tempo, peço que ele me ofereça certa previsibilidade e segurança, como combinarmos um momento do dia para conversarmos e resolvermos a situação com calma."

Dessa forma, ambos conseguem respeitar o espaço um do outro sem deixar inseguranças e ansiedades desamparadas. No entanto, não é uma tarefa fácil e exige disposição e diálogos nem sempre confortáveis. "Aprendi a não interpretar o afastamento dele como rejeição ou abandono, mas como uma forma própria de regulação emocional. Da mesma forma, ele também
precisou compreender que minha insistência não tem a intenção de sobrecarregá-lo, mas representa minha necessidade de resolver o conflito para que possamos ficar bem e recuperar nossa segurança emocional", finaliza.

O silêncio como repouso

No extremo oposto, Camila (nome fictício), 22, que se identifica no apego evitativo, sente que o diálogo imediato é um esgotamento. "Preciso ficar sozinha para elaborar o que sinto. Se tento conversar na hora, fico estressada e posso falar coisas que machucam só para encerrar a situação", confessa. Para ela, as críticas do parceiro soam como invasão, quase como um jeito de fazer com que ela mude ou arruíne as próprias individualidades.  

"Sempre que ele comunica uma insatisfação, sinto sufocamento. Ativa uma insegurança de deixar de ser quem eu sou, de me perder na relação." Hoje, Camila faz um esforço consciente para ouvir o parceiro, mesmo quando seu instinto pede para sair do ambiente. "Entendi que o meu silêncio gera angústia nele. Mesmo quando não é o meu momento ideal, tento permitir o diálogo para aliviar o que ele está sentindo", completa Camila. 

Quando ela fica chateada ou manifesta algum descontentamento, também tem muita dificuldade de falar imediatamente. A tendência, segundo a jovem, é se isolar primeiro, porque precisa entender o que está sentindo antes de conseguir se comunicar. Só depois, talvez, tenta conversar, mesmo sendo complicado tomar iniciativas emocionais de maneira espontânea. Desde que descobriram esses conceitos, Camila e o parceiro procuram alternativas para manter a saúde do relacionamento. 

"Passei a entender que o silêncio, para ele, não tinha o mesmo significado que tem para mim. Enquanto, para mim, ficar sem falar por um tempo é uma forma de organizar os pensamentos e as emoções, para ele, isso pode gerar sofrimento, ansiedade e angústia. É um processo constante de adaptação e compreensão dos dois lados, e exige esforço mútuo para que a relação funcione de forma mais saudável", confessa.

Além do passado

Embora a infância seja o molde, o apego não é um destino imutável. Flávia Marsola, psicóloga do Hospital Brasília Águas Claras (Rede Américas), explica que experiências adultas, como traições ou relações terapêuticas, podem alterar esse padrão, ativando ou agravando determinadas inseguranças. 

"A pessoa não nasce evitativa, ela aprende que demonstrar necessidade não traz acolhimento e desenvolve uma estratégia de sobrevivência focada na independência", afirma Flávia. Ela também destaca como as redes sociais, no contexto atual, amplifica essas feridas. "Para o ansioso, as redes facilitam a hipervigilância. Para o evitativo, o digital é um terreno seguro para a 'pseudo-intimidade', permitindo o contato sem a exigência de uma entrega profunda."

O caminho para uma relação saudável, segundo as especialistas, reside na consciência desses padrões e na negociação constante entre a necessidade de presença e o respeito à autonomia. O excesso de opções nos aplicativos também reforça a ideia de que os vínculos são descartáveis, dificultando a construção da segurança necessária para a manutenção de relacionamentos reais.

 

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