
Em plantas residenciais mais antigas, é comum que determinadas áreas tenham caído no esquecimento. Muitos, por exemplo, nem se lembram do sótão ou do porão. Mas, acredite: eles ainda existem e podem ser ressignificados. Para além desses espaços, outros cômodos, como o quarto de serviço e as copas isoladas, atravessam uma transformação histórica e estrutural, especialmente por terem sido símbolos de segregação social.
Agora, esses ambientes dão lugar para projetos modernos e multifuncionais. Impulsionados pela redução da metragem quadrada e por uma consciência social mais latente, o arquiteto Rick Hudson observa que essa mudança ganhou força nas últimas três décadas. De acordo com ele, a eliminação dessas áreas que colaboravam para a segregação entre moradores e funcionários é uma realidade consolidada.
"Os banheiros separados para moradores e funcionários da residência começam a se integrar, permitindo um espaço mais amplo e melhor aproveitado, visto que muitas vezes o uso por pessoas de fora da residência acontece muito esporadicamente. Copa e cozinha, antes isoladas, hoje fazem parte da integração da sala e convidam os moradores a participarem e interagirem durante o preparo das refeições", acrescenta.
Com isso, em reformas de apartamentos antigos, é possível pensar em uma reestruturação que não impacte ou prejudique a dinâmica de circulação do imóvel. "Costumo dizer que só basta o cliente querer mudar, que o resto é conosco. Atualmente, a ideia de um quarto de funcionário, quando não se tem essas pessoas morando no mesmo local, é desperdício de área e de dinheiro", afirma o arquiteto.
Segundo o profissional, existem inúmeras soluções para novos layouts nesses ambientes, umas aproveitando a estrutura hidráulica ou até mudanças mais radicais, transformando o espaço completamente. "Nesse último caso, a transferência de pontos hidrossanitários geralmente é o maior empecilho e deve ser avaliado mediante o investimento financeiro pretendido na obra, tempo de uso do espaço após a reforma e se é um imóvel próprio ou alugado."
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Um novo olhar
Essa desconstrução da herança colonial também é pontuada pelo arquiteto Diego Aquino, que destaca que o próprio termo quarto de serviço caiu em desuso, sendo substituído em plantas por nomes como depósito, vestiário ou despensa. "Esse nome foi abolido das plantas. Hoje, esse espaço serve como uma peça-coringa na mão do arquiteto criativo", diz o profissional. Nos projetos pensados por ele, a estratégia comum é transformar esses pequenos cômodos em extensões de ambientes adjacentes, aumentando closets ou expandindo cozinhas.
O arquiteto complementa que, em apartamentos antigos, essas áreas costumam ser largas e possuir banheiros privativos, o que oferece ótimas surpresas para o layout. "Fazemos a integração junto à cozinha e ampliamos a área de serviço. Dependendo da planta, conseguimos integrar a área de jantar", explica o profissional sobre a nova dinâmica de circulação.
A ressignificação de áreas ociosas como sótãos e porões também tem ganhado destaque em projetos contemporâneos. Na avaliação de Rick Hudson, o sótão, se bem projetado com janelas para ventilação cruzada e claraboias, pode se tornar um dos espaços mais nobres da casa. "É possível utilizar estruturas de sheds para troca de ar ou até mesmo ventilação mecânica", recomenda.
Já pensando nos porões, o arquiteto indica o uso de fossos de ventilação e jardins de inverno para criar estúdios, adegas ou bibliotecas, aproveitando o isolamento acústico natural. Diego Aquino, no entanto, pondera que, pela falta de iluminação natural, os porões são ideais para áreas técnicas ou garagens, enquanto os sótãos exigem soluções térmicas robustas.
E os corredores e escadas?
Sabe aquelas zonas de passagem, que geralmente ficam de canto e estão longe dos holofotes? Elas também podem assumir uma nova posição de destaque dentro de casa. Corredores longos e escuros ganham vida com marcenaria linear e iluminação indireta. "O uso de espelhos amplia a percepção espacial e potencializa a entrada de luz", sugere Hudson.
Naquele vão embaixo da escada, algumas soluções em alta incluem adegas climatizadas, pequenos bares ou até espaços de exposição para objetos e obras de arte. Em projetos de alto padrão, esses espaços costumam ser verdadeiras esculturas no ambiente, e o uso em volta precisar seguir valorizando esse aspecto. "É comum vermos jardim e pequenos espelhos d'água criando ambientes ao redor das escadas", completa o especialista.
Para Aquino, a iluminação e o uso de fotos e pinturas no teto transformam o corredor em um ambiente de destaque, trazendo um ar diferente para esse local menos charmoso. Por fim, o aproveitamento do vão sob a escada revela o potencial criativo do design atual. A depender da configuração desse ambiente, até mesmo uma adega, um cantinho do café ou uma área de estudos pode ser pensada com carinho.

Revista do Correio
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