Poucas peças atravessaram tantas décadas, estilos e gerações quanto o jeans. Criado originalmente como uniforme de trabalho no século 19, o denim saiu das fábricas, passou pelos movimentos juvenis, ganhou as passarelas de luxo e hoje ocupa um lugar quase unânime no guarda-roupa. Mas, em 2026, os rasgos voltaram a chamar a atenção.
Depois de anos dominados por jeans minimalistas, lavagens limpas e modelagens mais "quiet luxury", o destroyed retorna com força às vitrines e aos looks urbanos. Só que, desta vez, ele aparece diferente. Menos exagerado, mais estratégico e conectado a uma moda que parece querer respirar autenticidade outra vez.
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Para a consultora de imagem Lorena Moraes, o retorno das peças rasgadas diz muito sobre o comportamento atual da moda e das mulheres. "Hoje, essa volta acontece de uma forma mais estratégica. Não é apenas o rasgado pelo rasgado. É um jeans que conversa com styling sofisticado, com alfaiataria, com acessórios refinados e com personalidade", afirma.
Segundo ela, existe uma busca crescente por roupas que transmitam presença sem parecer uma fantasia estética. O destroyed, nesse contexto, funciona como uma ferramenta de expressão. "O jeans rasgado entra justamente nesse lugar: ele humaniza a produção, traz informação de moda e cria uma estética mais viva", explica.
A história do jeans rasgado sempre esteve ligada à ruptura. Nos anos 1970, o punk transformou o tecido desgastado em símbolo de rebeldia. Na década de 1990, o grunge reforçou a ideia de despretensão, com peças largas, puídas e aparentemente improvisadas. Décadas depois, o rasgo deixou de ser exclusivamente contestador para virar linguagem estética.
Para Adriana Bozon, diretora criativa e de branding da Ellus, porém, o simbolismo nunca desapareceu completamente. "O jeans destroyed tem uma história marcante e continua sendo um símbolo de rebeldia e descontração. Ele é usado tanto por jovens que desejam expressar sua atitude contestadora quanto por adultos que entendem que a vida nem sempre é perfeitamente alinhada", diz.
Além do casual
Hoje, o denim aparece em diferentes leituras. Há desde pequenos desgastes discretos até peças completamente destruídas, mas a principal mudança talvez esteja na combinação. O jeans rasgado deixou de viver apenas no universo casual e passou a dialogar com elementos sofisticados.
Blazers estruturados, camisas de alfaiataria, acessórios dourados e sandálias refinadas surgem como contraponto ao aspecto desgastado do denim. É o chamado hi-lo, mistura entre peças informais e sofisticadas, que domina o styling contemporâneo.
"O segredo do jeans está na composição. A mesma peça pode ir para caminhos completamente diferentes dependendo dos complementos", afirma Lorena. Ela explica que um jeans destroyed combinado a um blazer cria uma imagem moderna e inteligente, enquanto uma pantalona jeans com camisa bem cortada transmite sofisticação sem esforço.
Ao mesmo tempo, o conforto segue como prioridade absoluta. Depois da pandemia e da consolidação de uma moda mais funcional, as modelagens amplas ganharam espaço definitivo no mercado. Wide leg, baggy, reta vintage e pantalona aparecem entre os modelos mais procurados pelas clientes da consultora. Segundo ela, existe uma demanda clara por roupas que tragam conforto sem abrir mão da estética. "As mulheres querem se sentir bem, mas também querem uma imagem mais interessante, mais atualizada e menos engessada", diz.
As novas silhuetas
A indústria também percebe esse movimento. Para Adriana Bozon, a wide leg já se consolidou como um novo clássico, enquanto outras silhuetas começam a ganhar força. "Atualmente, cresce cada vez mais o uso de calças amplas no quadril e nas coxas, como os modelos barrel e o retorno das baggys", afirma.
A modelagem barrel, aliás, aparece como uma das grandes apostas do denim contemporâneo. Com cintura marcada e pernas arredondadas, ela mistura conforto, informação de moda e uma silhueta menos óbvia.
Para Renata Simon, diretora de marketing e estilo da Cantão, a peça representa bem o novo momento do jeans. "A calça barrel é, sem dúvida, a modelagem do momento. Ela traz a cintura mais marcada e as pernas arredondadas, criando uma silhueta moderna e confortável ao mesmo tempo", explica.
Renata observa que os rasgos também mudaram de intensidade. Se antes o destroyed extremamente carregado dominava as coleções, agora os detalhes aparecem de maneira mais equilibrada.
Segundo ela, o rasgo deixou de ser protagonista absoluto e passou a funcionar como complemento da modelagem e da lavagem da peça. "Atualmente, os rasgos aparecem de uma forma mais sutil, muito concentrados nas barras desfiadas e em pequenos desgastes localizados", diz.
O processo criativo por trás desses desgastes também é pensado cuidadosamente. Embora exista espontaneidade estética, há um estudo técnico sobre proporção, movimento e envelhecimento visual do tecido. "As lavagens do denim são desenvolvidas para reproduzir o desgaste natural causado pelo uso ao longo do tempo", explica Adriana.
Já Renata destaca que os rasgos funcionam até como acabamento. "Principalmente nos bolsos, nas barras e no cós da calça, trazendo esse aspecto mais vintage e uma textura mais rica para o denim", afirma. O retorno do vintage ajuda a explicar essa estética. Em um cenário dominado pela nostalgia dos anos 1990 e 2000, o jeans reaparece com aparência desgastada, lavagens mais naturais e aspecto de peça já vivida.
Ao mesmo tempo, cresce o interesse por peças que tenham personalidade, mas permaneçam versáteis na rotina. O consumidor quer informação de moda, mas não abre mão da praticidade.
Versatilidade
Na consultoria de Lorena Moraes, muitas mulheres procuram jeans que alonguem a silhueta sem apertar, funcionem tanto com salto quanto com tênis e possam transitar entre diferentes ambientes. Existe também uma preocupação maior com coerência de imagem. Para a especialista, tendência sozinha não sustenta um look. "Roupa não é tendência isolada, exige coerência entre imagem, fase de vida e mensagem pessoal", afirma.
Isso explica por que o jeans rasgado deixou de ser uma peça exclusivamente adolescente. Hoje, ele aparece em produções corporativas, looks sofisticados e até combinações minimalistas. Ainda assim, há limites. Para ambientes profissionais mais formais, Lorena recomenda lavagens escuras e rasgos discretos. "Para o corporativo, indico lavagens lisas escuras e rasgos reduzidos, independentemente do segmento profissional", orienta.
Enquanto algumas tendências desaparecem rapidamente, o denim parece sobreviver justamente pela capacidade de se reinventar sem perder a essência. O jeans rasgado volta agora menos como um grito de rebeldia explícita e mais como reflexo de uma geração que busca equilíbrio entre conforto, autenticidade e expressão individual.
E, ao que tudo indica, o próximo capítulo do jeans já começou. Adriana Bozon aposta no retorno da skinny combinada à cintura baixa como uma das tendências mais fortes dos próximos anos. Já Renata Simon acredita que a barrel seguirá dominando o denim contemporâneo.
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